Jornal Estado de Minas

Literatura

De 1984 a 2020: o passado é presente na obra de George Orwell

Um fantasma assombra o mundo e, em particular, as Américas. Contrabandeado, ronda o Brasil. Em princípio, insinuava-se; para logo revelar-se ostensivamente, em passos acelerados ao encontro da distopia orwelliana. Estado de guerra permanente contra o “inimigo interno” e externo, fiscalização constante do indivíduo e de grupos oposicionistas, crescente militarização da sociedade e da política, redes do ódio para a promoção de linchamentos virtuais e mobilização das bases acríticas contra velhos e novos adversários.


Apologia à tortura e aos torturadores; enxurradas de fake news em multiplicidade de versões da história e dos fatos, de tal forma que, em meio ao caos informacional, torna-se difícil diferenciar a verdade objetiva da mentira. Culto à violência, ao armamentismo, ao negacionismo e à ignorância. Desprezo pelo conhecimento e pela ciência. Mudanças na contagem de mortos da maior pandemia da história, enfrentada pelo país. É o reino da dissonância cognitiva. Alguma semelhança ao enredo de 1984, um dos clássicos de George Orwell mais marcantes do século 20?

Mais de setenta anos depois da publicação, os contextos históricos são completamente diferentes. Mas 1984 – relançado pela Companhia das Letras em edição com projeto gráfico diferenciado e textos de ensaístas consagrados, – segue atualíssimo. George Orwell, que morreu aos 46 anos em 1950, muito pobre e em condições de saúde precárias, é aquele que mais somou em vendas no século 20, posição para a qual retorna insistentemente: acaba de voltar às listas dos livros mais vendidos no Brasil.

Duas versões para o cinema


Em permanente guerra interna e externa, são estados que se constroem nos moldes do roteiro anunciado em Oceânia, sob comando do Grande Irmão: “Guerra é paz; Liberdade é escravidão; Ignorância é força”. Como se chega lá? Como tais tiranias se consolidam, em que ideologias se sustentam, eis a pergunta perseguida por Orwell em 1984 e em outras obras, como A revolução dos bichos e o ensaio A política e a língua inglesa.


Manipulação da língua

Ao moldar pensamentos e impulsionar para a ação, a linguagem ganha papel central na obra de Orwell. E é precisamente por meio da manipulação da língua, – palavras são ditas para enfraquecer significados e corromper ideias, para banalizar o mal, descompromissando-se com a dignidade humana – que se estabelecem as fundações do estado totalitário. É assim que os “Campos de Lazer”, são, em verdade, campos de concentração para o trabalho forçado. É no “Ministério do Amor” onde prisioneiros do regime são detidos e torturados. E é no “Ministério da Paz” onde a guerra permanente é urdida. Toda essa ambiguidade conduz ao “duplipensamento”, uma confusão mental paralisante.


Pela manipulação de fatos e estatísticas por parte do Ministério da Verdade, as realidades paralelas são construídas; impera o revisionismo histórico permanente, destruindo a memória e as referências fáticas. Em Oceânia, o passado é mutante. Tais são os fundamentos para a promoção da dissonância cognitiva coletiva, condição necessária à submissão consentida ao líder e ao estado opressor.


Relações com o Brasil atual

“São muitos os signos de 1984 que são visíveis do Brasil de hoje: a polarização como mecanismo de poder pelo poder; o horror à inteligência; os ministérios da educação que deseduca, ou da verdade encarregados da propagação da mentira, sempre com a retórica da violência; o espírito da perseguição e a estupidez como valor; a volúpia da ignorância e a guerra permanente. A ficção de Orwell permanece poderosa”, avalia o romancista Cristovão Tezza, autor de livros como A tirania do amor e O filho eterno.

 “Orwell é uma das figuras mais fantásticas da cultura do século 20. Viveu intensamente a turbulência do seu tempo, da guerra civil espanhola à Segunda Guerra Mundial. Nascido na Índia, viu a Europa na perspectiva da colônia. E, com o desprendimento dos santos, viveu durante um tempo praticamente como um mendigo. Sob todas as tentações ideológicas do momento histórico que viveu, e não eram poucas, manteve intacto um olhar sobre a dignidade humana que lhe permitiu chegar ao miolo do espírito totalitário e dos mecanismos do poder, em duas obras que parecem nunca perder atualidade: A revolução dos bichos e 1984”, considera Tezza.


“A atualidade da obra está no fato de que a sombra totalitária nunca se apaga: ela está sempre ao lado. E há sempre alguém disposto a abraçá-la, porque o memória dos ensinamentos da História não é garantia de nada se o processo civilizador se esfarela”, diz.

A verdade reeditada

Em Oceânia, a verdade é permanentemente mutilada. E reeditada. Fato e ficção se misturam, impossível diferenciá-los. Mentes e corpos controlados em tempo integral, mesmo na intimidade do lar, onde a teletela a tudo vê e ouve. Ousar se rebelar face a tamanha tirania significa a pena de morte, expedida pela Polícia das Ideias. Os momentos catárticos são cuidadosamente dirigidos aos velhos e novos “inimigos” de estado, que se rebelaram contra a tirania.

Alguns ex-aliados do regime são linchados em exibições públicas diárias, denominadas “Dois minutos de ódio”. Em guinchos estridentes, a berraria raivosa transborda contra os “escolhidos” da vez. Quase em espécie de hipnose, os indivíduos se tornam afeitos ao controle e à opressão estatal: estão completamente dependentes das definições e narrativas valorativas do Grande Irmão, o messias, que constrói realidade à margem da realidade, para que a horda cultivada de ignorantes passe a aceitar o inaceitável, o repugnante, aquilo que ofende a vida e a dignidade humana.




“O que temos hoje no Brasil é um 1984 em segunda mão, uma leitura afastada da realidade, sem qualquer empatia, focada na destruição do outro, no sentido coletivo. Nem original é, pois este daqui (Bolsonaro) filtra de lá, do americano (Trump), e dá os passos para tentar implantar uma versão tupiniquim de estado totalitário”, avalia Júlio Jeha, professor titular aposentado de estudos literários da UFMG, especializado em literatura de língua inglesa. “Estamos vivendo 1984, sim, no sentido de se construir os fundamentos para o estado autoritário, uma ditadura tupiniquim por pessoas divorciadas da realidade. Criaram os 300 de Esparta, mas nas fotos não há 30 pessoas. Onde estão os 300?”, critica.


O gabinete do ódio

Em analogia à linguagem ficcional chamada por Orwell de novilíngua – ou novafala –  desenvolvida pelo estado autoritário para restringir o escopo do pensamento e apartar o indivíduo da capacidade da empatia, Júlio Jeha assinala diversos exemplos: “A constante citação bíblica  ‘E conhecereis a verdade e a  verdade vos libertará’ , cumpre a função da novilíngua. Soa como um deboche se quem fala, só diz mentiras. O gabinete de ódio, a fábrica de fake news para criar realidades paralelas e atacar adversários, é o contrário de tudo o que se prega”, considera Júlio Jeha.

“Da mesma forma o bordão da ameaça do comunismo, a ideia de que a população armada jamais será escravizada. Há vários tipos de escravidão. Esses seguidores são escravos mentais, ideológicos, não têm senso crítico”, afirma o professor, considerando que, em Orwell, a novilíngua é elaborada pelos detentores do poder, para impedir a expressão de opiniões contrárias ao regime, para conformar o pensamento e impedir a ação política.



'A linguagem molda o ser humano'

Para Marcelo Pen, professor doutor em teoria literária e literatura comparada (USP), que faz a apresentação da nova edição pela Companhia das Letras de 1984, a Novafala representa, por meio do empobrecimento da linguagem, a perda da capacidade para a reflexão e para a ação revolucionária. “A linguagem molda o ser humano, mas também pode servir como mecanismo de opressão e controle. O filósofo judeu Victor Klemperer é testemunha-chave desse processo. Sua história é fantástica, também porque sobreviveu ao Reich morando em Dresden, na Alemanha, tendo conseguido não ser enviado aos campos de concentração”, considera Pen.

“Em seus diários, ele mostra como a manipulação da linguagem e o seu rebaixamento contribuíram para instilar a ideologia nazista, como se fosse veneno ministrado em doses minúsculas”, afirma, lembrando que, por outro lado, 1984, que também trata do risco da degradação da linguagem, sugere ainda que as grandes obras do pensamento e da imaginação, como as literárias, têm a capacidade de resistir a essa manipulação. “Sugere que a fase final da dominação não logra êxito por causa dessa resistência. É uma mensagem bonita, muito sutil, quase invisível no romance, que restaura um pouco da confiança na humanidade”, assinala.