Jornal Estado de Minas

VIDAS PÓSTUMAS

"É incrível a minúcia esculpida em cada sentença" de Graciliano Ramos

Padma aponta paralelos de Paulo Honório com personagens de Faulkner e Fitzgerald (foto: AFP)
O “brasileiro encrencado” de São Bernardo, como o escritor alagoano Graciliano Ramos definiu a linguagem desse que é um de seus mais conhecidos romances, está chegando aos leitores norte-americanos numa nova tradução que acaba de ser lançada nos EUA dentro da prestigiosa série de clássicos da New York Review of Books. A difícil tarefa de verter para o inglês a prosa arrevesada de Paulo Honório, memorável protagonista e narrador do livro, ficou a cargo da escritora e dramaturga Padma Viswanathan. 



Leituras sobre candomblé e compilações de MPB lançadas pelo cantor David Byrne (ex-Talking Heads) foram os primeiros pontos de contato dessa canadense, nascida em 1968 numa cidadezinha na Colúmbia Britânica, com a cultura brasileira. O plano de escrever uma peça teatral sobre a repressão política no Cone Sul a trouxe em 1999 ao Brasil, onde ela aprimorou seu português. 


Antes de encarar São Bernardo, Viswanathan já havia traduzido um capítulo de Vidas secas e os célebres relatórios escritos por Graciliano Ramos quando era prefeito de Palmeira dos Índios, que revelaram ao meio literário brasileiro a verve irônica do autor. Traduzir São Bernardo foi como tomar abrigo na prosa de um mestre, ela conta nesta entrevista por e-mail, em que discute o desafio de verter para o inglês esse clássico da literatura brasileira.

Graciliano Ramos se utilizou muito da fala do dia a dia em São Bernardo, o que pode ter aguçado o realismo do livro para os leitores de 80 anos atrás, mas agora alguns trechos soam quase indecifráveis mesmo para um falante nativo, ou pelo menos um do Rio de Janeiro, como é o meu caso. Como foi criar um registro em inglês que fosse fiel a esse aspecto do livro sem, no entanto, afastar os leitores de primeira viagem? 
De fato, não sei se foi mais assustador ou tranquilizador quando me dei conta de que o livro não era difícil de entender por conta do meu português, apenas, mas também por sua distância em relação ao mundo da maior parte de seus leitores. Caso isso te console um pouco, já era assim na época em que o romance foi escrito! Graciliano Ramos deliberadamente incorporou ao livro expressões nordestinas obscuras, coletadas com empregados da fazenda do seu pai ou clientes da sua loja, em Palmeira dos Índios.


Numa carta à sua esposa, Heloisa Ramos, ele disse que estava traduzindo o livro “do português para o brasileiro”, mas com isso ele não queria dizer a linguagem das classes educadas do Sul do país, mesmo que elas compusessem a maioria dos seus leitores, e sim “um brasileiro encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da cidade, um brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de expressões inéditas, belezas que eu nem mesmo suspeitava que existissem.”

Então, ao traduzir, eu procurei aproximar ou afastar os leitores o tanto quanto ele próprio o faz. Quando eu descobria que uma expressão seria desconhecida para a maioria dos brasileiros, eu inventava uma equivalente ou traduzia literalmente. Onde ele usa expressões familiares, tentei substituí-las por outras de uso corrente nos Estados Unidos (ou, pelo menos, tentei em termos gerais usar expressões familiares com tanta frequência ou infrequência quanto ele).

Alguns aspectos do livro são obscuros sem que seja por causa do idioma — por exemplo, quando os personagens discutem política — e nesses casos eu tentei criar a melhor representação possível da posição de cada um sem levar a interpretação mais longe do que o texto me parecia permitir. Mas eu estava principalmente preocupada em reproduzir a voz do livro, e como a premissa da história é que tudo aquilo é escrito ou contado por um único narrador, isso me deu um eixo em torno do qual todo o resto podia girar. 




Uma das palavras mais frequentes do livro é “mil-réis”, a moeda brasileira da época. Dinheiro é a principal preocupação de Paulo Honório, e eu me pergunto se esse é um aspecto do livro que pode torná-lo mais atraente para o público norte-americano. Até que ponto você acha que o mundo de São Bernardo parecerá familiar aos leitores dos EUA? 
Leitores norte-americanos vão encontrar bons paralelos com Paulo Honório no Thomas Sutpen de Absalão, Absalão, de William Faulkner, ou talvez no Gatsby de F. Scott Fitzgerald — homens de origens obscuras movidos pelo desejo por bens materiais e pelo poder que vem a reboque disso. Esses homens sobem na vida até impor respeito. Mas sabem que, em alguma medida, sempre lhes faltará respeitabilidade. Pensando nisso, não tenho certeza de que o dinheiro em si mesmo seja a única preocupação de Paulo Honório, embora seja uma das principais. As estratégias desse capitalista impiedoso me parecem antes voltadas à construção de instituições, o que significa dizer, a refazer o mundo.

O romance, afinal de contas, leva o nome da fazenda — essa fazenda onde ele trabalhou como empregado analfabeto, e da qual ele toma posse depois de levar o dono a contrair vários empréstimos com ele. Paulo Honório não se irrita apenas que o dono, herdeiro da propriedade, não se dê ao trabalho de cuidar dela. Mais do que isso, Paulo Honório vê o potencial da terra e quer fazer o que for preciso para realizá-lo. Ele trabalha duro plantando um pomar, pavimentando uma estrada, construindo uma represa, educando a si mesmo com manuais de agricultura, até desenvolver opiniões firmes sobre as diferentes raças de bois e galinhas: “Pra mim”, ele diz no livro, “São Bernardo era o lugar mais importante do mundo”, seu feudo e seu refúgio, um lugar sobre o qual ele tem controle absoluto e cuja prosperidade e beleza ele pode acreditar serem dele próprio também.


A escrita e o letramento também são temas cruciais no livro. São instrumentos de poder que Paulo Honório, a despeito de toda a sua força bruta e ambição, nunca chega a dominar de fato. O ciúme que ele sente da esposa, Madalena, parece estar ligado à relação dela com livros e com o saber. De início, ele se incomoda com os artigos de jornal que ela escreve, e depois fica obcecado por suas cartas. Essas relações entre gênero, escrita e poder em São Bernardo tiveram algum peso na maneira como você viu seu próprio trabalho de traduzir a narrativa de Paulo Honório?
Comecei essa tradução num momento estranho da minha vida, como escritora de ficção. Meu segundo romance tinha sido finalista de um grande prêmio, o que fez com que ele recebesse uma atenção inesperada, antes de submergir de novo, como romances tendem a fazer, o que me permitiu voltar à minha vida de sempre, com uma sensação de gratidão e de ressentimento ao mesmo tempo. Então, buscar abrigo por um tempo na prosa de um mestre, em especial um que eu acreditava ter sido injustamente ignorado no cânone literário internacional, parecia o remédio perfeito.


Ao traduzir as várias camadas de ironia do livro, tendo noção da incrível minúcia com que Graciliano havia esculpido cada sentença, eu sentia que estava prestando um serviço a ele e a seu legado, mas que talvez a maior beneficiada fosse eu mesma. Traduzi-lo também me deu uma noção mais abrangente da literatura brasileira, em termos gerais. A Academia Brasileira de Letras só elegeu sua primeira integrante mulher, Rachel de Queiroz, em 1977, embora ela já tivesse recebido o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da sua obra 20 anos antes, como se os distintos senhores da Academia tivessem menos dificuldade de reconhecer sua obra do que sua pessoa. O próprio Graciliano Ramos confessou que, até ler Rachel de Queiroz, não acreditava que uma mulher pudesse ser escritora.

Ele admirou tanto o romance de estreia dela (O quinze) que, apesar de ver o nome e a foto da autora, pensou que fossem só um disfarce usado por um homem. (Tais preconceitos ainda não se dissiparam de todo: recentemente, quando eu estava penando para montar uma bibliografia para um curso sobre ficção brasileira traduzida para o inglês, um colega me encaminhou um estudo feito em 2012 pela professora da UnB Regina Dalcastagnè mostrando que dos autores contemporâneos publicados pelas principais editoras brasileiras, 73% eram homens, e 93%, brancos.) Portanto, não posso deixar de me perguntar o que Graciliano Ramos pensaria de uma mulher traduzindo seu tour-de-force do hoje; chamaríamos de “masculinidade tóxica”! Tenho que dizer, porém, que considero sua caracterização de Madalena não apenas sensível, mas nuançada.

A descrição da relação entre ela e Paulo Honório é quase insuportavelmente emocionante, e em não pequena medida devido ao modo como trata da relação do letramento com classe social, conexões emocionais, e a própria constituição da subjetividade. Traduzir isso foi uma bênção. 



Talvez o aspecto mais palpável da voz de Paulo Honório seja sua crueldade. Ele não é apenas bronco ou agressivo, mas de fato sádico na maneira como lida com outras pessoas e no prazer que sente em estar no que pensa ser o topo das situações. Como foi lidar com um narrador tão desagradável?
Paulo Honório gosta mesmo de fazer certas pessoas sofrerem, não gosta? Sinceramente, porém, ele só age assim com pessoas que a seus olhos merecem, pessoas que ele considera arrogantes ou preguiçosas, e, como alguém que acabou ficando talvez um pouco íntima demais dele, confesso que muitas vezes eu compartilhava dessas opiniões. Ele é tão minucioso no seu jeito de orquestrar essas torturas e descrever suas maquiavelices que eu não pude senão me divertir ajudando-o a contar as coisas do jeito que ele queria.

Deixe-me acrescentar, porém, que há no livro várias exceções notáveis a essa crueldade. Paulo Honório se esforça um bocado para reencontrar sua antiga mãe adotiva, por exemplo, e ao conseguir ele a traz para a fazenda e a instala numa casinha lá. De modo semelhante, ele resgata e protege um antigo figurão da província, seu Ribeiro, que foi por assim dizer atropelado e tornado obsoleto pelas transformações do século 20, até acabar na pobreza. Com ambos, ele nunca é senão terno e respeitoso.

Por contraste, com a esposa ele é terrível, em parte por enxergá-la como uma propriedade, como a fazenda, mas uma que ele não tem como controlar de todo. É o arrependimento dele em relação ao modo como tratou Madalena, no entanto, que motiva a escrita do livro, e as notas de melancolia desse arrependimento reverberam na loucura de Honório no desfecho.


 
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Miguel Conde é jornalista, editor de resenhas do site Words Without Borders e visitante acadêmico na Universidade de Oxford

Entrevista publicada originalmente no site Words Without Borders. Leia a íntegra em inglês em www.wordswithoutborders.org/dispatches

Entrevista

Wander Melo Miranda

Professor emérito da Faculdade de Letras da UFMG, autor de Corpos escritos: Graciliano Ramos e Silviano Santiago; prepara biografia do escritor alagoano

Como São Bernardo se situa na obra de Graciliano?
É o momento de plena realização ficcional, que abre caminho para as outras obras-primas que escreverá. O livro está muito  acima da média de seus contemporâneos. O romancista  de-monstra domínio incomum da técnica e da linguagem, que se revelam de várias maneiras no livro, entre elas a reflexão sobre o fazer literário à medida que a narrativa vai sendo escrita. A diferença que instaura no contexto do romance dos anos 1930 é um dos muitos traços caracterizadores da sua excelência. Graciliano consegue unir, sem solução de continuidade, reflexão sobre o ato de escrever, aguda introspecção psicológica e tratamento denso da questão fundiária nordestina, a partir da abordagem de uma relação interpessoal que traz para o primeiro plano da narrativa, a questão da alteridade.

Ela se destaca não só na relação de Madalena e Paulo Honório, mas também na crítica à modernização excludente que o avanço tecnológico da fazenda S. Bernardo indica. Foi necessário esperar até 1955 para aparecer um romance que se assemelha a S. Bernardo, mas no contexto latino-americano: Pedro Páramo, do mexicano Juan Rulfo.
 
Quais as principais características do estilo do escritor e com quê um tradutor deve ter cuidado ao verter para outro idioma?
A maior dificuldade da tradução se deve às expressões ou vocábulos regionais presentes no livro, ao ritmo muito específico da frase e à montagem textual extremamente complexa e sofisticada na sua aparente simplicidade e clareza. Lembre-se de que em carta à esposa Heloisa, em novembro de 1932, Graciliano pode anunciar: “S. Bernardo está pronto, mas foi escrito quase todo em português Agora está sendo traduzido para o brasileiro, um brasileiro encrencado, muito diferente desse que aparece nos livros da gente da cidade, um brasileiro de matuto, com uma quantidade enorme de expressões inéditas, belezas que eu mesmo nem suspeitava que existissem”.

O pai, Octávio, Chico e José Leite lhe “servem de dicionário” e a publicação do livro “servirá muito para a formação, ou antes para a fixação da língua nacional”, ressalta. E conclui com a pergunta que se tornará célebre: “Quem sabe se daqui a trezentos anos eu não serei um clássico?”.