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Estado de Minas

Os que sucumbem e os que se salvam

A partir dos escritos de Primo Levi, a professora Stefania Chiarelli reflete sobre o significado da pandemia em uma Europa contaminada previamente pela visão do estrangeiro como inimigo


postado em 10/04/2020 04:00

(foto: afp)
(foto: afp)

 

Stefania Chiarelli

 

“Quando chego em casa eu respiro, meu país é minha respiração”, afirma uma migrante iraniana no documentário 7 bilhões de outros, de Yann Arthus-Bertrand, Sibylle d’Orgeval e Baptiste Rouget (2003), que recolheram em mais de 80 países depoimentos sobre medo, morte, esperanças e deslocamento. Dentro do tema estar em casa, curioso perceber que muitos entrevistados associam a ideia de lar à respiração: “Meus pulmões crescem”, sustenta outro depoente, que vive na Suíça. Estar em casa é trocar oxigênio, se nutrir. Um gesto simples que hoje se torna emblemático. Não só estamos na clausura e no casulo, como nos encontramos impedidos de sorver o ar perto dos outros. A distância regulamentar exige no mínimo um metro entre nós. Não tocar e não compartilhar são as recomendações presentes. Mas, mesmo na segurança da nossa casa, como encher os pulmões de ar quando existe um nó na garganta? 

 

À incontornável questão da pandemia do coronavírus se associam temas transversais que tornam mais complexa a discussão sobre contágio, ameaça e o acirramento de perigosos discursos nacionalistas e xenófobos.

 

No âmbito dos trânsitos globais, até há pouco era reservado a uma certa elite um deslocamento seguro e confortável, enquanto o migrante estava condenado ao medo, à ilegalidade e até mesmo à morte. Afogamento no Mar Mediterrâneo, sufocamento nos compartimentos de carga de caminhões ou mesmo o congelamento no trem de pouso de aviões são dramáticas formas de morrer dentro dessa condição. Na atualidade, cessaram as travessias e viagens, e nos vemos todos destinados ao isolamento. Mas as diferenças são abissais. Há confinamentos e confinamentos, e a desigualdade social se reproduz dentro dos espaços de reclusão.

 

Primo Levi (1919-1987): a perda da humanidade(foto: MENCARINI MARCELLO/afp)
Primo Levi (1919-1987): a perda da humanidade (foto: MENCARINI MARCELLO/afp)

 

Se para a população em geral é prescrita quarentena, higiene rígida e cuidado extra, sabemos também que há muitos, milhares, milhões, em estado de vulnerabilidade absoluta. Para esses, lavar as mãos várias vezes por dia ou usar álcool em gel são metas impossíveis. Pedir a quem não tem casa que não saia dela é uma demanda perversa. Uma quarentena digna para quem vive em um acampamento é algo da ordem do impossível. Exemplo disso é o campo de Moria, em Lesbos, na Grécia, uma ilha-prisão em que se amontoam quase 20 mil refugiados provenientes de vários países: filas de horas para comer, falta de água e condições insalubres compõem o cotidiano desse lugar. Nem sequer aos voluntários é permitida a entrada, para evitar o contágio. Dito de outro modo, neste momento em que o mundo fecha fronteiras, os indivíduos que já se encontravam em situação precária agora estão oficialmente desamparados. 

 

Mas nem todos pensam assim. Portugal, nesse quesito, foi exemplar exceção. Regularizou os migrantes ilegais para lhes dar acesso ao sistema público de saúde, além de prolongar a validade dos vistos de permanência. Na contramão, no contexto da disseminação da Covid-19, representantes políticos de extrema-direita da Itália, França e Espanha se uniram na propagação do medo. 

 

A visão do estrangeiro como inimigo não é nova, e muitas vezes ao longo da história ele foi associado à peste. A escritora norte-americana Susan Sontag, no ensaio A doença como metáfora (1978), lembra que as calamidades seriam algo comumente atrelado ao que vem de fora. No passado, a sífilis foi chamada de “mal de Nápoles” entre os franceses. Já para os alemães e italianos, a doença venérea era o “mal francês”; para os poloneses era o “mal alemão”; e, para os russos, o “mal polonês”. Nada difícil perceber que o conceito de doença nunca é inocente: durante semanas, Trump insistiu em chamar o coronavírus de “vírus chinês”, contrariando radicalmente as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que evita relacionar o nome das enfermidades aos locais em que surgiram.

 

A pandemia nos coloca diante de um quadro de ameaça e de incerteza, e as formas de expressão tem papel fundamental no nosso modo de pensar e de agir. Basta lembrar que metáforas militares proliferam nos discursos sobre a Covid-19, aludindo a um corpo que deve se defender do portador do contágio: ataque, guerra, defesa e inimigo são palavras que remetem à militarização da própria linguagem. 

 

Daí o perigo dos nacionalismos em uma Europa conflagrada há tempos por uma guerra em suas fronteiras, situação que agora se encontra ainda mais acirrada. Conceber a pandemia como invasão já levou as nações europeias a fechar fronteiras, anulando o Tratado de Schengen, que prevê a livre circulação de pessoas entre 30 países signatários. A OMS adverte que medidas dessa natureza não irão barrar a disseminação do vírus, e podem até comprometer as colaborações e trocas institucionais. 

 

Hoje, a Itália chora milhares de mortos e esse luto promove uma união quase inédita: o hino nacional e as bandeiras do país surgem nas sacadas e fachadas de casas e prédios. Um sentimento de orgulho emerge da dor de um país que há menos de 200 anos foi unificado à força, forjando uma ideia de nação homogênea, longe das diferenças regionais, culturais e variantes linguísticas. De modo paralelo, àqueles que já estavam excluídos desse discurso da unidade da nação se destina mais hostilidade ainda, em um momento em que hospitalidade e acolhimento deveriam estar por toda parte. Como escancara o rap Todo dia às 18, do italiano Willie Peyote, “Todos os dias, às 18, eles fazem um bom discurso/Para não deixar a nação em desespero/Para os filhos de ninguém, não há pai-nosso/O papa reza em streaming e Lourdes também fechou/Eles fecharam o porto?/ Não, eles fecharam na sua cara/Agora que você é a ameaça e Schengen também é um desperdício de papel”.

 

Militarização e desumanização

 

A linguagem militarizada referente às doenças é herança do século 19, mas a força imagética dos campos se mostra um triste legado do século 20: “Vivemos à sombra de Auschwitz”, afirma a filósofa Donatella Di Cesare, alertando para a proliferação desses espaços hoje como solução para o problema grave dos migrantes e refugiados. A pesquisadora italiana chama a atenção para o fato de que os europeus não fizeram o dever da memória, esquecendo rapidamente as atrocidades cometidas na Segunda Guerra.

 

Em um tempo de aguda crise, parece inevitável lembrar de uma importante voz que se ergueu para relatar o nível extremo de desumanização a que homens e mulheres podem ser submetidos. O escritor italiano Primo Levi (1919-1987), na obra É isto um homem? (1947) alude à perda do caráter do humano a que foram sujeitos os judeus durante o regime nazista. Tendo permanecido um ano em Auschwitz, Levi registrou em seus escritos autobiográficos de forma definitiva a experiência dos campos concentracionários e a impossibilidade de sair dali sem um trauma indelével. Para além de uma reflexão sobre a condição judaica e o impacto dos totalitarismos, Levi nos lembra que em momentos como esses sempre haverá os afogados e os sobreviventes, título de outra obra sua. 

 

Sobreviver agora surge como desafio maior. Mas sobreviver consiste também em perdurar dentro de uma crise de valores, em que vidas valem pouco ou nada diante de discursos autoritários e da indiferença generalizada. Se respirar é trocar energia vital com o meio, vale pensar que quem tem o poder insistirá no controle dos corpos e até do ar sorvido pelos pulmões, seja um coiote atravessando o migrante na fronteira ou o Estado-nação retirando o oxigênio de quem ousa se deslocar. Aos migrantes, morte por sufocamento – nos campos, nas ondas do mar ou vítimas de um colapso respiratório em tempos de coronavírus. Quando tudo isso passar, e não houver mais necessidade de pensar dia e noite se haverá respiradores para todos, teremos aprendido algo? 

 

Stefania Chiarelli é professora e pesquisadora de literatura brasileira na UFF. 


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