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Estado de Minas

O veneno do nosso tempo

Inspirado nas características e no comportamento das aranhas, novo livro de Carlos Henrique Schroeder traz relatos repletos de possibilidades interpretativas e soluções estéticas


postado em 27/03/2020 04:00

Aranhas circulam pela literatura latino-americana ao longo de sua contemporaneidade. Em sua primeira edição de 1940, a seminal Antologia da literatura fantástica trazia, no conto “O gato”, do argentino H. A. Murena, uma analogia sinistra ao aracnídeo. Vinte e cinco anos depois, numa segunda versão acrescida de autores, foi a vez de a mexicana Elena Garro adicionar no alegórico conto “Um lar sólido”, protagonizado por mortos falantes, uma aranha como elemento nostálgico à vida encarnada.

Participante de mesma antologia, o argentino Julio Cortázar inclui em Histórias de cronópios e de famas, de 1962, um relato subversivo no qual o envio da pata de uma aranha a um ministro detona um golpe militar. Uma década antes, seu conterrâneo Antonio Di Benedetto havia reservado todo um capítulo de seu romance de estreia, El pentágono (sem tradução no Brasil), para o ponto de vista de uma aranha sobre um trágico triângulo amoroso. Também nos anos 1950, o mexicano Juan José Arreola humaniza o artrópode na seleta Bestiário, comparando a mortal viúva-negra a uma libidinosa fêmea que degola seu amante no auge do prazer.

Igualmente trágico é o destino do narrador de “O cão raivoso” (Contos de amor, de loucura e de morte, 1917), do uruguaio Horacio Quiroga, assombrado por delírios de aranhas assassinas. No que concerne ao amor, o poeta chileno Pablo Neruda metaforiza a boca pelo corpo da amante tal uma “aranha que corria a esconder-se./Em ti, atrás de ti, temerosa, sedenta”, em “Eu fui marcando...”, poema integrante de Vinte poemas de amor e uma canção desesperada, de 1924. Nessa mesma verve do desejo irresistível, o uruguaio Eduardo Galeano compõe, em Aranhas (Bocas do tempo, 2004), uma espécie de fábula em versos sobre a fatal cópula entre os aracnídeos.

No Brasil, a crônica “O caso da aranha” (1920), de Mário de Andrade, é um dos textos mais enigmáticos da nossa literária. O conto “A aranha” (Omelete em Bombaim, 1946), do paulista Orígenes Lessa, segue igual contexto de complexidade e de mistério ao narrar o caso de um violeiro que encanta uma “enorme e cabeluda caranguejeira” com suas músicas. Até Machado de Assis se inspirou nos artrópodes para escrever A sereníssima República, de 1882, uma alegoria mordaz que imagina uma sociedade de aranhas operárias infundida por um novo sistema político corrupto e pouco democrático, numa crítica severa ao regime republicano que se instalava em solo brasileiro.

Agora é a vez de o catarinense Carlos Henrique Schroeder ingressar nesse time de escritores que tiveram as características e o comportamento dos aracnídeos como referência para a tessitura de seus textos. Aranhas reúne 32 relatos repletos de possibilidades interpretativas e soluções estéticas que, de uma forma ou de outra, revisitam os temas explorados pelos autores que o antecederam: os abismos morais e psicológicos, os forros afetivos, o espreitamento da morte, a captura do ordinário e o comentário social.

São narrativas com o aspecto do conto, mas que não se furtam em transgredir a convenção do gênero. Ora brevíssimas, contidas num único parágrafo, ora de maior fôlego, engendradas em arcos dramáticos que se desenvolvem a partir de um conflito relacionado a dois ou mais personagens. 

Schroeder opera em duas dinâmicas de acordo com a extensão da prosa: os registros sucintos prezam pelo rigor na montagem das frases de modo a fabricar um enredo certeiro, enquanto os relatos longos parecem se guiar pela escola chilena de literatura, na qual o fato inicial se desdobra em saídas deslizantes que expandem e fornecem novos entendimentos sobre a história. Às vezes, sem fecho; às vezes, com uma virada brusca no final.

Aranhas vampiras

Classes de aranhas dão nome aos textos, que, num exercício de rara invenção, reproduzem particularidades de cada aracnídeo no cimento argumental das tramas. É o caso, por exemplo, das chamadas aranhas vampiras, que se atraem pelo sangue contido no abdome dos mosquitos fêmeas. No texto batizado com o nome de sua espécie, “Saltadora”, uma professora corta a mão durante o recreio e o ferimento começa a produzir um efeito afrodisíaco à sua volta.

Em “Cara-feliz ou nananana makakii”, o autor se vale da aparência de um tipo de aranha havaiana, que desenvolveu marcas no dorso (parecidas com um rosto feliz) para confundir seus predadores, de modo a discutir as inter-relações pessoais de trabalho e como a quebra de hierarquias pode gerar uma sinistra sensação de felicidade. O mesmo método se aplica em “Fio de ouro”, uma odisseia pela vida de uma garota de programa de luxo, baseada nas características da aranha do fio de ouro, que lança mão de sua beleza para atrair uma série de pretendentes em seu ritual de acasalamento, que termina de maneira fatídica para o escolhido.

Há muito de contemporaneidade também nas escolhas discursivas e nas abordagens temáticas. O ótimo “Aranha-lobo”, povoado por surfistas, drogas e games, tem seu principal conflito baseado no vazamento de um vídeo íntimo. “Argíope multicolorida” evoca a atmosfera policrômica das raves para tratar da desumanização da morte. “Cuspideira” é um retrato da ruína da tradicional-família-brasileira, enquanto “Do sulco” ventila perversões que enchem os noticiários diariamente através da lente de uma aposentada: “Os meninos jogam bola aqui na rua, despreocupados, como se não existissem pedófilos, psicopatas, ladrões de órgãos”.

Em outros momentos, a variação do conteúdo cede espaço para experimentações na forma. “Gladiadora” encontra, num espirituosa ação de metalinguagem, um desfecho no qual o texto expõe suas engrenagens. Há quebra da parede entre a ficção e o leitor, e o uso da intertextualidade numa versão para o clássico A metamorfose, de Franz Kafka, na qual Gregor Samsa acorda, certa manhã, metamorfoseado numa aranha, ao invés de uma barata. O livro se encerra com “Armadeira”, um relato que se conecta por meio de uma teia de fatos e personagens situados em três linhas temporais, de certo modo aplicando um sentido de unidade à seleta de textos.

No volume de ensaios críticos Valise de cronópios, Cortázar reflete que, “sob o signo da excentricidade”, viver e escrever foram duas atividades que nunca se mostraram em clara diferença, aprisionando-o numa teia em que foi simultaneamente a mosca e a aranha. Os relatos de Carlos Henrique Schroeder também buscam essa indistinção entre a vida e a escrita, porém, igualando o excêntrico ao que chamamos de realidade, sujeitam o leitor ao veneno de nosso tempo.

*Sérgio Tavares é escritor e crítico literário


Aranhas
. De Carlos Henrique Schroeder
. Record
. 192 páginas
, R$ 42,90


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