Jornal Estado de Minas

Em 'Uma voz na noite', de Andrea Camilleri, protagonista começa a sentir o peso da idade


Havia alguns anos que Andrea Camilleri (1925-2019), autor de tantas obras com o inspetor Salvo Montalbano, estava sumido das livrarias. Agora, eis que ele ressurge pelo Uma voz na noite, com todos os ingredientes de sempre. O que é um alívio. Nada de experimentações, nada de mudanças no formato clássico do romance policial: seguimos as trilhas da investigação para descobrir, junto com o inspetor Montalbano, o “quem fez isso”, o “whodunit” – que, em tempos pós-modernos de tantas incertezas, não importa mais para muitos escritores.



Lá estão os elementos narrativos que nos encantam há mais de 30 anos, quando começou a ser publicado no Brasil. O ambiente é o de sempre, a fictícia Vigàta, cidadezinha à beira-mar onde é cometido um crime bárbaro, uma jovem morta com requintes de crueldade e exposição do corpo (um feminicídio?). E um furto num supermercado pertencente a uma famiglia.

Os dois crimes terminam se entrelaçando pela presença de elementos semelhantes: a força de autoridades políticas e de mafi- osos. O que não é novidade em se tratando de Andrea Camilleri: além do ambiente, da corrupção, principalmente a Máfia sempre esteve presente em seus livros policiais. Afinal, como afirmou, “negá-la teria sido negar a existência do próprio ar”.

A investigação segue os rumos de sempre, mistura de intuição e faro detetivesco, elementos que vão se sobrepondo. Tudo com a ajuda dos auxiliares, um deles bem atrapalhado, Catarella, uma espécie de Hortelino Troca Letras. E também enfrentando obstáculos dos superiores, provavelmente envolvidos em algumas relações espúrias.



Aliás, impressionante como o ambiente italiano da fictícia Vigàta se tornou parecido com o Brasil dos dias atuais, a mistura da vida política com negócios escusos, lá da Máfia, aqui com milícias. E assim vamos caminhando com Montalbano nessa última investigação que chega até nós (ele escreveu mais de 100 obras depois de sua estreia tardia, aos 50 anos). Almoçando com ele no Restaurante do Enzo macarrão ao vôngole e andando pelo cais pra fazer a digestão; ou, à noite, comendo em casa uma deliciosa salada de frutos do mar preparada pela auxiliar Adelina, acompanhada de um bom vinho, mesa posta na varanda, de onde ele vê o mar. Ouvindo também os telefonemas de Lívia, muito irritantes para Montalbano, já que ela parece não compreender – ou compreende até demais? – a rotina de um policial.

Mas, principalmente, percebendo que Salvo Montalbano, como tantos outros personagens de romances policiais, está envelhecendo. Aos 58 anos, que ele completa sozinho no Restaurante do Enzo, que lhe traz um minúsculo bolinho com o número fatídico em cima, Montalbano sente que está perdendo o faro e as energias.

Ainda bem que sabemos: há muitos Camilleri por traduzir, muitos Montalbano por vir, mesmo depois da morte do autor,  ocorrida no ano passado. É o milagre da literatura.



UMA VOZ NA NOITE
. De Andrea Camilleri
. Editora Record
. 340 páginas
. R$ 44,90
. R$ 31,41 (kindle)