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Estado de Minas

Obra do polêmico jornalista Paulo Francis é vendida no quilo em BH

Carne vive, último livro do autor, é encontrado em outlet a R$ 6 (312 gramas)


postado em 24/01/2020 04:00

O jornalista e crítico Paulo Francis (1930-1997) sempre agitava o mundo político e cultural com seus comentários sarcásticos e contundentes(foto: MILTON MICHIDA/AGÊNCIA ESTADO)
O jornalista e crítico Paulo Francis (1930-1997) sempre agitava o mundo político e cultural com seus comentários sarcásticos e contundentes (foto: MILTON MICHIDA/AGÊNCIA ESTADO)


''O Brasil é um asilo de lunáticos onde os pacientes assumiram o controle. O Brasil sempre foi a casa da mãe joana de elites sub-reptícias que fazem o que querem.''

Paulo Francis, jornalista e escritor



Aqui vai uma brincadeira. O que diria o polemista Franz Paulo Trannin da Mata Heilborn, famoso pelo pseudônimo Paulo Francis, que completaria 90 anos em setembro deste ano – com sua fina ironia, língua ferina e debochada no comando de uma voz grave e arrastada –, se soubesse que seu último livro, Carne viva, é vendido no quilo em Belo Horizonte? Uma outlet na Savassi, em BH, está negociando centenas de livros no peso, a R$ 19,90 o quilo. E entre eles o último livro de Francis, concluído em 1996. Com 262 páginas, pesando 312 gramas, a obra custa R$ 6. Pelo menos 20 exemplares de Carne viva estão disponíveis nas prateleiras. Livro no quilo suscita boa discussão se seria demérito ou vantagem para um autor ver sua obra a preço baixo. Por um lado, a torna acessível, por outro, pode ser alvo de preconceito sob o pseudoargumento de que barato é ruim.

“Me vendam a R$ 1, mas me leiam”, poderia dizer o jornalista e escritor Paulo Francis, arrisca a jornalista cultural Angela Faria. “Vendam barato, mas me vendam”, seria curioso ouvir dele também. “De graça ninguém lê”, poderia desdenhar. Ou então usaríamos declarações do próprio Francis, um frasista inveterado: “Gosto que me leiam e saibam o que acho das coisas. É uma forma de existir”. Ou ainda: “Quem não lê, não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo”. E também:“Não levo ninguém a sério o bastante para odiá-lo”. Quer dizer, Paulo Francis ignoraria a venda de seus livros bem baratinhos. Poderia odiar quem faz tal ‘desfaçatez’ com sua obra ou acharia até normal também não levando o vendedor a sério.

Simone Pessoa, referência em indicações literárias em BH, da Livraria Ouvidor, acredita que Francis poderia dizer: “Waaal, que sorte a minha, eu não mereço tanto”, claro, com sentido dúbio. “Não é demérito para o escritor ter seu livro barato, tem a grande vantagem de ser acessível”, avalia Simone. Depreciação mesmo é quando o autor vê o exemplar que autografou “encostado no sebo”, diz. Ela conta inclusive que há escritores que procuram a livraria propondo a venda de cada exemplar a R$ 10, prática comum no estabelecimento, para não ficar com suas obras encalhadas.

“Paulo Francis era irônico, então acho que reagiria com sua sofisticada ironia sobre a venda de seus livros no quilo”, acredita o presidente da Academia Mineira de Letras, Rogério Tavares. O acadêmico, inclusive, defende a popularização literária. “Sou a favor da democratização do acesso aos livros, quanto mais melhor”, entende Tavares, que também não vê demérito na venda de livros a preços baixos. No caso de Paulo Francis, por exemplo, ele considera que a obra já está fora da mídia há muito tempo, principalmente porque o jornalista morreu há mais de 20 anos.

O escritor mineiro Carlos Herculano Lopes vai mais longe e é categórico: “Quem me dera se todos os meus livros fossem vendidos no quilo. Livros são caros, então, isso pode popularizar o livro”. Ele acredita que Paulo Francis também aprovaria: “Ele foi um dos maiores jornalistas deste país e iria gostar de ver os livros dele no quilo”.

''Todo otimista é um mal-informado''

Paulo Francis, jornalista e escritor


CARNE VIVA 

Paulo Francis (1930-1997) foi jornalista, crítico de arte, analista político e escritor. Sua inteligência aguçada derrubou mitos e fez muito inimigos. Era muito melhor como crítico do que como romancista, carreira que abraçou a partir dos anos 1970. Seus romances têm passagens confusas e enfadonhas e carecem da ironia e da contundência típica de suas análises na mídia. Carne viva foi concluído em 1996, pouco antes de sua morte. Ficou 10 anos na gaveta até que a viúva, a jornalista Sônia Nolasco, resolveu publicá-lo. O livro conta a história, a partir dos anos 1950, do banqueiro Guerra – que frequenta a classe alta carioca – de sua mulher, suas amantes, amigos e desafetos. Diferentemente dos comentários críticos e às vezes divertidos em suas aparições na TV e nos jornais, o que vemos na obra é um Paulo Francis amargo na pele do protagonista e de outros perso- nagens. A trama inclui poder, dinheiro, sexo, traições e muita hipocrisia no cotidiano de uma elite mesquinha e vazia, sexualmente liberada e preocupada com fuxicos, que se acha no topo moral da sociedade com seu consumismo desenfreado em detrimento da grande maioria da população. Em meio a essa hipocrisia burguesa, Francis põe como pano de fundo os governos populistas de Getúlio e JK e também a Paris conturbada de 1968.

Um trecho dá o tom da obra: “Banqueiros são discretos. Guerra não emitia opiniões, exceto aos íntimos confiáveis. Mas muito se ressentia dessa turba toda, que vinha do Oiapoque ao Chuí carcomer a cidade. Antigamente, mineiros, maranhenses, cearenses, capixabas e até piauienses e paulistas migravam para o Rio. Em semana estavam integrados (….) Guerra era, como os rivais, sobrinho de Temístocles Soares [dono do banco], de uma família antiga, tradicional, mas sem nenhuma distinção especial, que tinha dado o nome a várias instituições culturais, às quais doou dinheiro, e isto e aquilo. Não era esse o caso de Temístocles, cuja unha de fome não tinha tamanho e cujos únicos assuntos sociais eram: como seria bom que fosse restabelecida a escravidão; melhor para os próprios negros, que teriam sua vida reorganizada, em vez de andarem ao léu fedendo pela rua; e o vagor temor de que os judeus estivessem tomando conta de tudo”.

Carne viva passou  por mudanças que Francis chegou a programar como sugestões da Companhia das Letras, embora não concordasse com todas. Mas morreu, e sua viúva engavetou a obra por 10 anos. Ela foi lançada em 2006. Os próprios amigos de Francis, principalmente do programa Manhattan Connection, do canal GNT, no qual ele era figura carimbada, dizem que o jornalista não fez muitos comentários sobre seu último livro.

O jornalista Lucas Mendes, por exemplo, companheiro de bancada de Francis, deu entrevista dizendo que achou os romances  do jornalista “muito confusos”. “Aqueles Cabeças (dois primeiros romances de Francis) eu lia fazendo anotações, porque em três páginas ele já tinha citado cem autores e filósofos, e tinha personagens que se chamavam Alice Maria ou Maria Alice que apareciam na página 20, por exemplo, e reapareciam, sem maiores explicações, 70 páginas depois. De vez em quando, apareciam alguns parágrafos geniais, mas acho que [Francis] não vai ser lembrado como romancista”, disse. Em Carne viva também há grande número de citações.

Seja como for, Carne viva pode ser encontrado a R$ 6 em BH e os próprios leitores podem tirar suas conclusões, se Paulo Francis era melhor como crítico ou como romancista. O crítico, com certeza, faz muita falta nestes tempos bicudos.

(foto: Editora Landscap/Francis/Reprodução)
(foto: Editora Landscap/Francis/Reprodução)

CARNE VIVA
• De Paulo Francis
• Editora Landscap/Francis
• 262 páginas
• R$ 6 (312 gramas) 
• Até R$ 49 (sebos)


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