Alagoa Grande (PB) – Jackson do Pandeiro esmaece a fronteira entre música regional e nacional com sucessos que foram muito populares. “Jackson pode ser percebido como figura que vai mesclar, amálgama mesmo, o que é música nacional e o que é música regional. Ele elucida, coloca as cartas na mesa: a cultura popular e a música popular não têm como ser cristalizadas em conceitos criados academicamente. Ela é múltipla, ela é caleidoscópica nesse sentido. Ela foge das categorias”, afirma a pesquisadora Manuela Fonseca Ramos, que fez a dissertação “Na levada do pandeiro: a música de Jackson do pandeiro entre 1953 e 1967”.
A trajetória e a obra de Jackson são apresentadas na exposição Jackson do Pandeiro – 100 anos, em exibição no Museu dos Três Pandeiros, um imponente prédio planejado por Oscar Niemeyer, em Campina Grande. As músicas dele encantam quem as ouve e a sua obra se apresenta por si só. No entanto, Jackson tem a seu favor defensores de peso. Músicos geniais tanto quanto ele devotam reconhecimento ao paraibano e destacam como foram influenciados por ele: João Gilberto (1931-2019), Gilberto Gil, Lenine e João Bosco, entre outros.
Jackson era artista inquieto: com obra vasta, gravou 435 músicas, passeou por 25 ritmos. “Era um artista inquieto em questão rítmica, mas essa inquietude é muito boa. Ele passeou desde ritmos como o twist, o samba – foram mais de 100, marchinhas de carnaval, maracatu, toadas. Ele deixou um legado muito grande”, afirma.
E essa descoberta ocorre no Brasil todo, destaca Sandrinho. “BH tem uma cena de forró fortíssima, quando vou lá, encontro jovens que estão descobrindo coisas, estão trocando ideias, que tocam as músicas, que eu penso: nossa, esse pessoal conhece isso. Como paraibano, conterrâneo de Jackson, a gente vê que a música dele chegou muito longe e rompeu barreiras”. Jackson também é reverenciado por jovens músicos, como os que integram o grupo vocal e autoral Quadrilha, formado por Elon, Guga, Pedro Índio Negro e Amorim.
Jackson do Pandeiro será o homenageado da edição de 2019 do Rootstock, um dos maiores festivais de forró do Brasil. O evento, que ocorre entre 14 e 16 de novembro, na Serraria Souza Pinto, confirma Belo Horizonte como uma das capitais nacionais do ritmo. “Belo Horizonte tem forró todo dia há 20 anos”, conta o DJ Vhinny, especialista em forró, dono de uma das mais respeitadas coleções de vinil.
Inspiração em múltiplas fontes
Até os 35 anos Jackson não sabia ler nem escrever. Aprendeu com a segunda mulher, Almira. Mas era genial em termos musicais. Tocou diversos instrumentos e inovou na divisão rítmica. “João Bosco deu um exemplo bem feliz: falava, para o leigo entender, que o cantor normal era um passageiro que estava na estação. O trem chegava, ele entrava e seguia a viagem.
Jackson buscava inspiração em múltiplas fontes e a religião era um manancial para ele. A sonoridade dos terreiros de candomblé ou a filosofia do Universo em desencanto. “A fase racional foi momento bem importante. Momento que teve interação maior com religiosidade, assim como Tim Maia e vários artistas no Brasil tiveram. Ele participou desse momento e podemos perceber nas letras: falava da salvação, mãe natureza. Fica bem evidente no disco Alegria minha gente, que também é título de uma música”, diz Betinho Lucena, do grupo Os Fulanos.
Jackson e Gonzaga: os dois reis
A Região Nordeste deu à música brasileira Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, e Jackson do Pandeiro, o Rei dos Ritmos. Mas como foi a convivência entre dois reis nesse território? Como cada um participou da criação desse Nordeste imaginário? Há quem diga que não eram amigos. Mas a melhor posição sobre a relação dos dois é definida pelo secretário de Cultura e Turismo de Alagoa Grande – terra natal de Jackson –, Marcelo Félix: há um pouco de verdade e há um pouco de lenda sobre a desavença dos dois.
Por coincidência ou não, os dois são autores de música que tem o mesmo título: Forró em Caruaru. Nessa música, Jackson retrata uma briga dele e um cabra-macho: 'Por causa de uma danada que veio de Itaguaratu, matamos quatro cabos, dois soldados e um sargento'. Cumpadre mané Bento, só faltava tu. Era Jackson se exaltando, dizendo: 'Eu sou macho'. Algum tempo depois, Luiz Gonzaga grava música que começa assim: 'Matamos dois soldados, quatro cabos e um sargento, mas rapaz tu tá querendo acabar com a polícia de Caruaru? E aí, Gonzaga diz: “Tu anda se gabando que mataste dois soldados, quatro cabos e um sargento em Caruaru, mas eu me alembro bem no forró de Zé Tatu, quando o pau comeu, só quem correu foi tu”.
Marcelo Félix completa: “Estima-se que esse mito da disputa midiática entre Jackson e Luiz Gonzaga, os dois reis da época, também tinha um 'quezinho' de ciúme pela grandiosidade de um e pela grandiosidade de outro. Essa música, Forró em Caruaru, traz muito disso”.
Carlos Marcelo e Rosualdo Rodrigues, em O fole roncou! Uma história do forró, narram o encontro de Jackson com Gonzaga no programa de rádio que Jackson apresentava com Adelzo Alves. O Rei do Baião chegou de maneira inesperada, trazendo frisson ao auditório, onde estavam Abdias, Zé Calixto, Nelza, Cícero e Tinda. O encontro foi descrito assim:
“Chegou para o operador de áudio e avisou:
– Bota todo bloco comercial pra frente e deixa o maior espaço para o Gonzaga.
Jackson então virou-se para Adelzon e perguntou:
– E quem é que vai apresentar Gonzaga?
– Você! Não te falei que o programa é teu e que eu sou só a escada? Eu só levanto a bola, você que faz gol!
Jackson demonstrou preocupação. Mas chamou o Rei do Baião, que, do alto de sua majestade, já entrou no ar munido de sua sanfona e gritando o nome do anfitrião:
– Jaaaaaackson!”
‘‘Convidei a comadre Sebastiana/Pra cantar e xaxar na Paraíba/Ela veio com uma dança diferente/.
E pulava que só uma guariba/E gritava: a, e, i, o, u, y....’’
Sebastiana
‘‘A ema gemeu/ No tronco do jurema/ Foi um sinal bem triste, morena/ Fiquei a imaginar
Será que o nosso amor, morena/ Que está pra se acabar...’’
A ema gemeu