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Estado de Minas

ALMAS FEITAS DE SILÊNCIO E FÚRIA

Novo romance do jornalista e escritor mineiro Maurício Lara faz bela e profunda reflexão sobre os encontros e os desencontros existenciais ao contar a história de um fazendeiro


postado em 12/07/2019 04:08

O jornalista e escritor mineiro Maurício Lara lança Réstia de alho, seu décimo livro. Natural de Esmeraldas, Lara trabalhou como repórter, editor e produtor em rádio, jornal e televisão, assessorou instituições públicas e privadas, atuou como professor de jornalismo e atualmente é diretor do Instituto Ver Pesquisa e Estratégia. Carlos Herculano Lopes, escritor e também jornalista, que assina a orelha da obra, chama a atenção para a fina sensibilidade do ficcionista e do repórter para compor o romance. O próprio autor explica: "Talvez possa ser dito que valho-me da experiência de repórter e das vivências para criar as histórias do romance".

Influenciado por nomes como Jack London, João Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Fernando Sabino, José Saramago e Franz Kafka, entre outros, Lara conta a história de um fazendeiro, Joca Ferrão, um homem rude (dono de uma ternura tensa conjugada a uma brutalidade nata), que tem dois postos de observação em sua vida: a janela da sala da casa simples, de onde ele vê o curral, o pasto, suas vacas (ali ele vê seu mundo externo); e o porão de sua fazenda, com cheiro de alho que ele colhe e armazena. Ali ele tem um saxofone, comprado clandestinamente de um caixeiro-viajante, que Ferrão sopra sem conseguir tirar nenhum acorde.

O porão é seu mundo interno, ou subterrâneo, onde estão suas dúvidas, desejos, fantasias, dores e perguntas. Ali ele vive fantasias, reencena frustrações, enquanto convive com um terrível segredo, que Maurício vai revelando aos poucos, como só sabem fazer os melhores ficcionistas.

Dentro da casa, o que restou da família, depois que a maioria dos filhos foi viver a própria vida: a mulher, Joana, uma filha solteira, Isabel, com um filho aleijado, Dito, cujo pai ninguém conhece, e que trota de quatro pela casa e pela fazenda “feito um bicho, misturado a cavalos, vacas, galinhas e passarinhos”. Ganha destaque o silencioso cão Tarugo, “qual um Cérbero, a guardar há décadas portas que não devem ser abertas.”

“O que é ser feliz?”. É a grande pergunta que se fazem os personagens, que ainda esperam pela grande resposta. Maurício não procura, não é seu intento sugerir ao leitor nem um tipo de verdade, ele não busca explicações. Se elas existem, cabe unicamente ao mesmo leitor descobri-las, aos poucos, aos trancos, diante dos absurdos e dos abismos que se abrem diante dos cenários idílicos.

O escritor monta um jogo, um labirinto de claros e escuros, de sins e nãos, mais nãos do que sins, diga-se. Nada neste belo romance é mediano, morno, o estilo de Maurício transita dentro de paradoxos. Eles mais sugerem que afirmam.

RECURSOS
LITERÁRIOS

Maurício tem seus recursos literários, domina o seu ofício e os utiliza de forma contundente e clara, sem perder nunca uma certa leveza, uma fluidez e a inteligência. Maurício parte do desentendimento para montar o enredo do livro e coloca o leitor numa trilha feita de sombras. O escritor embaralha e “desexplica”, mas não à maneira do poeta Manoel de Barros, que privilegia o simples acima de tudo; a trama de Réstia de alho, as colunas que lhe dão suporte são feitas de volutas barrocas, de vertigens que envolvem o leitor numa teia de mil direções. A epígrafe do livro, de Guimarães Rosa, lança luzes sobre esse processo: “Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.”

Os poucos encontros e os inevitáveis e assombrosos desencontros são sempre toscos e mal-arranjados. Nenhuma peça se encaixa nesse jogo estranhamente belo, contudo. Joca Ferrão tinha “os olhos fracos e cansados”. O seu saxofone representa, talvez, com o seu formato único (as tais volutas barrocas), a própria estranheza da existência, que fascina e mete medo. Os fatos, através da memória, nunca se reordenam da maneira que queremos.

O silêncio, se isso é possível, é o maior e mais importante protagonista do livro. A trama oscila entre acordes dissonantes (mudos) de um saxofone. Maurício nos leva a um desfecho feito de mistérios, um desfecho surpreendente. O escritor parece sugerir que é preciso maestria para encontrarmos o equilíbrio quando lidamos com ingredientes poderosos e marcantes como a solidão, o medo, o desamparo que nos serve, que nos achincalha de forma nada sutil, e sempre desorienta. O coração humano é mais complexo e indecifrável que pensamos. Abrir as portas, abrir os porões deste “palácio”, desta Babel de labirintos, pode trazer consequências e suscitar mais perguntas que respostas.

André di Bernardi é jornalista e poeta


TRECHOS DO LIVRO

“Joca olhou para o instrumento com a pouca luz que entrava por frestas das toras de madeiras que sustentavam o paio e formavam as paredes do porão. Pegou-o novamente nas mãos. Encantou-se com os botões, com o bocal, com a delicadeza das curvas. Alisou a peça como se fosse o corpo tenro de uma mulher, mesmo usando seus dedos de pele grossa e pouco delicada. Ele nunca tivera o sonho de possuir um objeto tão especial. (…) Sob a guarda do fiel Tarugo, protegido como sempre pela penumbra e pelo silêncio, Joca empunhava seu saxofone como se fosse uma arma e atirava para matar. Em cada raio de luz que entrava pelas frestas das toras que faziam as vezes de paredes, via um alemão e sobre ele todo seu ódio era descarregado. Em suas horas de solidão no porão com cheiro de alho, Joca matou muitos alemães em sua guerra particular.”


RÉSTIA DE ALHO
• De Maurício Lara
• Editora Quixote+Do 
• 186 páginas
• R$ 49,90
• Lançamento: amanhã, às 11h, na livraria Quixote – Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, BH 


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