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Estado de Minas

DE EUCLIDES A GLAUBER

Edição especial do Pensar apresenta a Festa Literária Internacional de Paraty, que este ano homenageia o escritor e o cineasta, dois ícones da cultura brasileira. a Programação principal conta com 33 escritores de 10 nacionalidades


postado em 05/07/2019 04:09

"Um dos caminhos da curadoria da Flip desta edição foi entrelaçar as linguagens artísticas. Literatura, música e encenação surgem aqui entremeadas ou fundidas, seja na forma da canção, do slam, da performance, do cinema ou da poesia de cordel", diz Fernanda Diamant, curadora da Flip 2019 (foto: HELVIO ROMERO/ESTADÃO CONTEÚDO)

Euclides da Cunha (1866-1909) autor da obra clássica Os sertões, é o homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), nesta 17ª edição do evento, de 10 e 14 de julho. Publicado em 1902, Os sertões tem origem no trabalho de cobertura jornalística da revolta de Canudos (1896-97), ocorrida no interior da Bahia, que opôs o Exército e o novo governo republicano ao movimento de cunho social, político e religioso liderado por Antônio Conselheiro. Cuidadoso observador tanto do território geográfico quanto da alma humana, Euclides atravessa, nessa monumental obra clássica e fundacional da nacionalidade brasileira, a história do Brasil desde a chegada dos portugueses, passando pela exploração dos bandeirantes, até se deter na violência e na barbárie da campanha contra Canudos que dizimou cerca de 25 mil pessoas. 

Mais do que nunca atual, Os sertões traça o retrato da violência e do autoritarismo ainda tão característicos do cotidiano brasileiro. “Ele tem um ponto de vista muito fundador no Brasil e que é anterior a toda discussão política atual, mas toca em todos os pontos que a gente precisa discutir”, explica Fernanda Diamant, curadora da Flip. “Está na fundação da República, é anterior à ditadura, à esquerda e à direita, e faz uma avaliação e uma denúncia da barbárie que aconteceu que reverberam até hoje. Ele segue fazendo muito sentido, porque muita coisa não mudou no país”, diz a curadora.

Em articulação da obra literária com a arte cinematográfica, a Flip também homenageará os 80 anos de nascimento do cineasta Glauber Rocha (1939-1981) com a exibição, no  dia 11, do longa-metragem Deus e o diabo na terra do sol (1964), na íntegra e legendado em inglês. Embora rodado há 55 anos, o longa se mantém como bússola do cinema e da interpretação crítica do país. Filmado em Monte Santo, na Bahia — referência geográfica e religiosa da região de Canudos e de Os sertões, de Euclides da Cunha. Ao narrar a vida de um sertanejo, em seu conflito com latifundiários, agarrado à esperança das promessas messiânicas e caminhos de elevação ao paraíso, Glauber Rocha marca o Cinema Novo da chamada “Estética da fome”. Além de ser um retrato da violência e do autoritarismo característicos do Brasil, o filme investiga o cangaço e o misticismo, guardando diversas aproximações com a obra do autor homenageado, Euclides da Cunha.

“Um dos caminhos da curadoria desta edição da Flip foi o de entrelaçar as linguagens artísticas. Literatura, música e encenação surgem aqui entremeadas ou fundidas, seja na forma da canção, do slam, da performance, do cinema ou da poesia de cordel”, assinala a curadora Fernanda Diamant, ao discorrer sobre a programação principal, desenhada para retomar temas euclidianos e, em muitos casos, atualizá-los. “Não podemos ignorar, por exemplo, sua visão preconceituosa com relação às raças. Nesta edição, reunimos convidadas e convidados num debate amplo, que oferece perspectivas novas para questões atuais e antigas, na literatura de ficção, na de não ficção, na poesia e em outras formas de arte”, acrescenta.

A programação principal da Flip 2019 terá 33 escritores – sendo 17 mulheres – de 10 nacionalidades. Serão 21 mesas com formatos distintos, incluindo conferência, entrevista e performance artística. Os títulos das mesas fazem referência a pontos geográficos e elementos de Os sertões. José Murilo de Carvalho, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que este ano completa 80 anos e é considerado um dos maiores historiadores em atividade no Brasil, integrará a Mesa 10, Tróia de Taipa, para debater, no dia 12, às 15h30, as questões sobre nação, cidadania, justiça e liberdade. Além de aspectos de sua carreira intelectual, ele dará especial ênfase à pesquisa sobre a revolta de Canudos e o Exército brasileiro.

DEBATES COM AUTORES MINEIROS

Na Mesa Poço de Cima, prevista para dia 13, às 15h30, a mineira de Belo Horizonte Grace Passô, atriz, dramaturga e diretora, terá participação na Flip dividida em duas partes: uma performance seguida de um bate-papo sobre a carreira da artista – que propõe reflexões sobre a relação entre corpo e linguagem. Entre os autores, Ailton Krenak, do Vale do Rio Doce, escritor, roteirista, porta-voz e pensador indígena integrará a mesa 13, Vaza – Barris (O Irapiranga dos Tapuias) ao lado do dramaturgo José Celso Martinez Corrêa para conversar sobre liberdade e “re-existência”: terras férteis para arte, valorização da cultura e convivência com a diversidade.

Além do destaque à literatura internacional, nacional e produzida em Minas Gerais, a Flip 2019 trará editoras independentes em programação paralela nos eventos na Off Flip, na Casa Paratodxs, que este ano completa três anos em Paraty e homenageará Chico Buarque, contando, entre outras, com as presenças de Bárbara Paz, Martinho da Vila, Yuri Al'Hanati e Walnice Nogueira Galvão. Além de ocupar lacunas deixadas pelas grandes companhias, a editora mineira Relicário estará presente na Casa Paratodxs com várias de suas publicações.

No dia 12, às 14h, o tema será “O que dá nervo ao poema? Pode a poesia filosofar e a filosofia poetizar?”, em conversa com os poetas e professores de filosofia Patrícia Lavelle (autora de Bye Bye Babel e organizadora de O nervo do poema – antologia para Orides Fontela, Relicário, 2018), Daniel Arelli (autor de Lição da matéria e tradutor do livro de poemas de Hannah Arendt a sair em 2020 pela Relicário) e Rafael Zacca (autor de Mini Marx, MegaMao e A estreita artéria das coisas).

No dia 13, às 15h, Patrícia Lavalle retorna à conversa sobre autoria feminina na poesia contemporânea: de Orides Fontela aos nossos tempos, com Simone Brantes (Quase todas as noites), Mônica de Aquino (Fundo Falso, Relicário, 2018) e Stephanie Borges (Talvez precisemos de um nome para isso). No dia 13, às 19h, o tema será “Escrever sem escrever: literatura e apropriação no século 21" com lançamento do livro (Relicário e Ed. PUC-Rio, 2019) e bate-papo sobre autoria, escrita não-criativa e sampler literário com o autor Leonardo Villa-forte, Flávia Péret (escritora) e Gustavo Silveira Ribeiro (professor do curso de Letras/UFMG).

(Colaborou Nahima Maciel)


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