Continue lendo os seus conteúdos favoritos.

Assine o Estado de Minas.

price

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Utilizamos tecnologia e segurança do Google para fazer a assinatura.

Assine agora o Estado de Minas por R$ 9,90/mês. Experimente 15 dias grátis >>

Publicidade

Estado de Minas

"Que a literatura converse com o mundo"

João Gilberto, Machado de Assis e a finada Taça Jules Rimet se encontram no novo livro de Sérgio Rodrigues


postado em 14/06/2019 04:09 / atualizado em 10/07/2019 16:04

(foto: Renato parada/divulgação)
(foto: Renato parada/divulgação)

‘‘O sólido analfabetismo literário brasileiro ajuda a explicar o beco sem saída apavorante em que estamos hoje, como sociedade’
Sérgio Rodrigues

“Por onde andará João? Tocando violão e jogando futebol num sítio com os Novos Baianos?”

Quatro décadas depois, as indagações de Sérgio Sant’Anna, expressas em 1982 no conto que batiza o livro O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, foram respondidas pelo homônimo do autor de Senhorita Simpson. Mineiro de Muriaé, radicado no Rio de Janeiro, Sérgio Rodrigues reúne sua produção mais recente de contos em A visita de João Gilberto aos Novos Baianos (Companhia das Letras).

Dividido nos moldes dos antigos LPs (“Lado A”, “Lado B”) e acrescido de uma empolgante novela folhetinesca publicada originalmente no jornal francês Le Monde (Jules Rimet, meu amor), o novo livro do autor de O drible (2013) é formidável. Com argúcia e destreza, Rodrigues estabelece diálogos profícuos (e o autor de Viva a língua brasileira, defensor incondicional da clareza vocabular, certamente reprovará o clichê empolado) com personagens da música (na faixa-título, ops, no conto que intitula o livro) e da literatura (no surpreendente e saboroso A fruta por dentro).

Rodrigues também ironiza as idealizações e idiossincrasias dos habitantes do mundo das letras com conselhos de antiajuda que deságuam, inesperadamente, em uma das mais belas definições para o fazer literário (“Agarrar a miragem e trabalhar dia e noite para fazer da fresta um caminho, da centelha uma rota de fuga para um mundo de coisas que existem antes das palavras ou à margem delas”). A visita... é, antes de tudo, o livro de um homem apaixonado pelas palavras – e pela estranha força que elas ainda são capazes de emanar, quando trabalhadas por Machado de Assis, Sérgio Sant’Anna e outros mestres. Ou quando cantadas, em ho-ba-lá-lás e outros murmúrios transcendentais, por João Gilberto.

Confira, a seguir, uma entrevista com Sérgio Rodrigues.

Além do primeiro nome e da cidade que habitam, quais outras conexões enxerga do seu livro com Sérgio Sant’Anna, formalizadas na epígrafe de A visita de João Gilberto aos Novos Baianos?
Sou um grande admirador do xará. Fui aluno e monitor dele na Escola de Comunicação da UFRJ. Escrevemos de forma bem diferente, eu acho, mas este livro é aquele em que eu dou mais trela para o gosto pela metalinguagem que o Sérgio cultiva como ninguém no Brasil: isso de deixar claro que a história é uma história, é construída. Não para abrir mão da narrativa, da fabulação, mas para acrescentar a ela uma camada conceitual ou reflexiva. Bom, esta é a resposta ponderada à sua pergunta. Tem uma outra resposta menos politicamente correta, mas verdadeira também, que é a minha necessidade de botar João Gilberto no título de um livro e eu pensar: mas já tem O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, o que fazer? Renomear o livro? Não: melhor citar, transformar em homenagem. No caso de Sérgio Sant'Anna, um dos grandes nomes da literatura brasileira em nosso tempo, vai ser sempre uma homenagem merecida. Aliás, mais ainda em 2019, quando ele completa 50 anos de carreira.

Ainda em O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, Sérgio Sant’Anna constata, em 1982: "Está difícil, hoje em dia, não escrever em fragmentos. Porque a realidade, cada vez mais complexa, também se estilhaçou". O que mudou desde então?
Nesse sentido, o quadro só se agravou. Sérgio Sant'Anna já estava falando do tempo atual, do nosso tempo, o começo dele. Aliás, perceber isso àquela altura, início dos anos 1980, era precoce e só comprova a sensibilidade da antena do cara. A diferença principal entre aquele momento e o atual é que, uma vez completo o estilhaçamento da tal ‘realidade’, já começa a ser possível perceber que o próprio estilhaçamento começa a desenhar padrões. Hoje conseguimos vislumbrar novas inteirezas feitas com aqueles pedaços. Não necessariamente boas inteirezas. As redes sociais são uma forma de inteireza feita de fragmentos, e são absolutamente assustadoras.  

‘Como outro mundo igual ao mundo, só que diferente, dentro do espelho, e que toda a vida restante lhe parecia insuficiente para explorar.’ A passagem do conto A fruta por dentro  também pode ser lida como uma definição para literatura?
Sim, não vejo por que não. Aliás, este conto é o meu preferido no livro. Não existe nada nem ninguém como Machado de Assis. Sentir que deu para conversar com ele sem pagar mico é um prazer danado.  

Os contos de A visita de João Gilberto estabelecem diálogos com personagens célebres da música, da literatura, da história, também com o fazer literário. A sua ficção nasce sempre de uma reação?
Não! Bom, pelo menos espero que não. A ideia de reação é incompatível com a literatura como eu a entendo. A escrita não deve ser só reativa, precisa propor alguma coisa. Penso mais em termos de conversa, da abertura de canais de troca simbólica. O que eu gosto de fazer é enfiar literatura nas frestas de tudo. Nas frestas da cultura, da história, das narrativas que compartilhamos socialmente. Eu não me conformo que a literatura, que é simplesmente a coisa mais bonita e confiável que eu conheço neste mundo depois do amor dos meus filhos, eu não me conformo que ela seja vista como marginal e irrelevante, gloriosamente ausente da cesta básica cultural do cidadão médio. Eu quero que a literatura converse com o mundo, que corrija injustiças, preencha lacunas de entendimento. Ou no mínimo brinque, dê rasteira no entendimento convencional, faça sorrir. Com sorte, pensar. Não há nada mais supérfluo e até inútil, e por isso mesmo há poucas coisas mais importantes no mundo. Tenho certeza de que, em alguma medida, o sólido analfabetismo literário que é uma marca do Brasil ajuda a explicar o beco sem saída apavorante em que estamos hoje, como sociedade.

Com quantas “gotas de verdade pessoal” são escritas as suas histórias?
Não muitas, mas espero que suficientes. Essa ideia da gota de verdade que, na ficção, dá uma aparência de verdade a um monte de mentiras eu ouvi formulada por Jeffrey Eugenides (norte-americano, autor de romances como A trama do casamento) numa mesa da Flip que eu mediei, em 2004. É a única coisa que eu lembro daquela mesa: a sabedoria contida na ideia me pareceu fulgurante. E bate com a minha experiência. A ideia é a seguinte: o personagem pode ser completamente diferente de você, puro exercício de imaginação, mas no momento em que você lhe der alguma coisa de seu, um chaveiro do Pikachu, uma verruga, uma preferência gastronômica, qualquer coisa, ele vai parecer imediatamente mais humano e verdadeiro. É uma alquimia estranha. Não acho que tenha nada de sobrenatural. Usar uma pitada de experiência própria ajuda você a afinar seu instrumento pelo timbre da história que está contando. Depois disso fica mais fácil achar o tom, a voz, o que é meio caminho andado para qualquer narrativa.

É possível enxergar o “Lado B” de A visita de João Gilberto como um desdobramento de seus Sobrescritos?

Sem dúvida. O conto Cenas da vida zooliterária, volume 1 é simplesmente uma seleção de 10 minicontos que eu publiquei na internet na coluna Sobrescritos, onde, durante muitos anos, fiz humor com o que há de ridículo na vida literária. Como o ridículo nunca está em falta na vida literária, foi um filão tão produtivo que um dia parei de contar, mas tenho bem mais de 100 textos. Da primeira safra, publiquei 40 histórias no livro Sobrescritos, de 2010. Mas continuei com a coluna na internet, outras dezenas de histórias, e agora em vez de 40 eu decidi subir mais o sarrafo e usar só as 10 melhores. Breve história de alguma coisa é outro conto que conversa com o trabalho diário que eu fiz em blogs e colunas on-line nos últimos anos, mas este é uma edição e um retrabalho, uma coisa nova. Senti que, depois de anos levando os livros e a literatura para a internet, no meu blog Todoprosa, eu precisava fazer o caminho inverso, trazer a internet para o livro. Tenho a impressão de que ela é um elemento crucial para entendermos o que está acontecendo e o que pode acontecer de agora em diante.

Quais conselhos literários você acatou? E quais ignorou?
Acatei todos e ignorei todos, alternadamente. No fim, o mais importante para mim é o número 7 do decálogo: “Não perca um minuto discutindo com quem prega a morte da narrativa’’. Deixe o cara falando sozinho e vá escrever aquele conto. A vida é curta demais para essas bobagens.

‘’Sentimentalismo é coisa de romance, também está morto.’’ Se o romance morreu, quem o matou? Ou as notícias da morte do romance foram um pouco exageradas?
Quem diz que o romance morreu é o personagem, não eu. É evidente que o romance não morreu, nem o conto, a ficção não morreu. Acho que não vão morrer nunca, a humanidade acaba antes. Claro que há uma indústria funerária em torno dessa ideia, mas os arautos da morte da literatura - inclusive os da morte da literatura brasileira, um subgênero especialmente nefasto - têm perna curta, como todos os mentirosos. Acabam se dando mal porque o romance é capaz de transformar com facilidade a própria indústria funerária ao seu redor em tema de romance, e aí é xeque-mate.

“Desista se for capaz.” Você é capaz de desistir de escrever? Já cogitou?
Cogitei demais. Houve um tempo em que eu cogitava todo dia. Escrever é, em certa medida, uma maldição. Digo isso com algum pudor, porque não gostaria de romantizar nada. Escrever é uma maldição na medida em que condena você a se sentir um fracassado caso não escreva, o que é uma tirania e um pé no saco muitas vezes. Sim, já pensei em não ter que pagar esse preço. Mas não há muito que possa ser feito, na verdade. Um dia eu flertei com a ideia de que seria possível zerar a dívida, escrever alguma coisa que eu finalmente julgasse suficientemente boa para me autorizar a requerer a aposentadoria. Mas acho que isso não vai acontecer. A insatisfação permanente é parte da síndrome.

Como foi o processo de escrever um folhetim? Consegue enxergar pontos em comum entre Jules Rimet, meu amor e livros anteriores como O drible e Elza, a garota?

Escrever um folhetim foi, em primeiro lugar, corrido. Em segundo, uma diversão enorme, especialmente porque a encomenda veio da terra de Balzac. Jules Rimet, meu amor tem em comum com Elza, a garota apenas o fato de ter sido um texto encomendado, no caso pelo Le Monde. Já com O drible a história conversa de uma maneira bem mais explícita. Rogério Limoeiro é de alguma forma uma versão minha, dentro daquele espelho que comentamos ali atrás. 1970 razões para morrer, o livro de sucesso dele, é O drible numa dimensão paralela. O tom agora é mais ligeiro e mais farsesco, mas estamos falando de uma novela curta, não de um romance.

‘’O país da incompetência atávica era também o do semianalfabetismo’’, você escreveu em 2014 no Le Monde. Cinco anos depois, o que mudou?
O que mudou pode ser resumido num único evento trágico: o país da incompetência atávica e do semianalfabetismo ganhou as eleições.

A visita de João Gilberto aos Novos Baianos
De Sérgio Rodrigues
Companhia das Letras
144 páginas
R$ 44,90


Publicidade