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Estado de Minas

Qual o valor real de encenar uma ópera nos dias de hoje?

Maestro da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais conta a trajetória de 500 anos do gênero artístico, que saiu dos palcos, influenciou cinema e TV e segue como expressão viva dos sentimentos humanos


postado em 19/04/2019 05:08 / atualizado em 19/04/2019 11:06

Cena de 'O elixir do amor', em montagem da Fundação Clóvis Salgado(foto: Marcos Vieira/EM/D.A PRESS)
Cena de 'O elixir do amor', em montagem da Fundação Clóvis Salgado (foto: Marcos Vieira/EM/D.A PRESS)

Esta semana estreia em Belo Horizonte, e pela primeira vez no Palácio das Artes, a ópera O elixir do amor, de Gaetano Donizetti. Esta é a 86ª ópera realizada pela Fundação Clóvis Salgado em seus quase 50 anos de vida. Mas o que isso significa de concreto? Qual o valor real de encenar uma ópera nos dias de hoje? O que ela traz de relevante para a nossa sociedade? A ópera nasceu há quase 500 anos, no final do século 16, baseada no teatro grego. Surgiu como necessidade de expressão artística de uma sociedade. A música realizada naquela época não era suficiente para expressar todos os sentimentos humanos que aqueles artistas tinham urgência de externar e o povo de ouvir. Rapidamente, cada país fez suas adequações ao gênero. Na Itália a ópera foi dividida em ópera séria e ópera cômica, e na França nasce a opéra comique, intercalando textos falados aos cantados, atendendo assim aos desejos do povo.

Sim, o povo! Pois nada foi tão popular quanto a ópera. Desde seu nascimento tornou-se uma febre, as pessoas lotavam os teatros e salões buscando as emoções humanas colocadas no palco por cantores e amplificadas pelo poder da música. Com o passar do tempo, a ópera deixou as histórias mitológicas e falou do homem. Desnudou-o psicologicamente e emocionalmente diante dos nossos olhos. Falou de nossos medos, das nossas mazelas, da nossa capacidade de sermos bons e maus, da nossa capacidade de amar, odiar e perdoar.

Foi usada como hino para a liberdade durante a luta pela unificação da Itália. O nome de Verdi ou “Viva V.E.R.D.I.!” (abreviatura para Vittorio Emanuele, Re D’Italia – futuro primeiro rei do país unificado) era escrito pelos muros de todas as cidades e seu Va Pensiero, era, e ainda é, considerado por muitos o primeiro Hino Nacional Italiano, em uma correlação direta entre o domínio do babilônios sobre os hebreus, como acontece na ópera Nabucco, e o domínio do Império Austro-Húngaro sobre os italianos naquela época.

Ao mesmo tempo, ela foi a voz artística de tiranos. Hitler assistia a apresentações exclusivas das óperas de Wagner em Bayreuth e fazia uso da força da sua música para inspirar seus seguidores. Além disso, apoiava-se na mitologia germânica contida em suas obras para fortalecer ainda mais a crença de que pertenciam a uma raça superior.

De lá para cá, a ópera saiu dos palcos e entrou na vida moderna de forma indelével. Influenciou o cinema e a televisão. Nada mais operístico que Vivian Leigh, no personagem de Scarlet O’Hara dizendo: “Com Deus como testemunha, eu nunca mais vou passar fome na vida” e o tema de E o vento levou... sendo tocado pela orquestra em fortíssimo, enquanto a câmara somente se afasta. É mãe dos musicais, gostem ou não, e influenciou a música popular de vários países, inclusive a nossa, principalmente no início do século 20. É a arte mais completa, alia música ao teatro, à literatura, ao canto, à dança. E, porque não, à moda e às artes plásticas também? Versace, Valentino, Lacroix e Picasso são exemplos disso.

Mas será que tudo isso por si só justificaria fazer, em pleno século 21, uma ópera? O que faz com que um gênero que tem tão pouca renovação de repertório, seja ainda levado aos palcos de nossos teatros? De forma mais pragmática, poderíamos afirmar que este gênero emprega centenas de trabalhadores, pois obviamente não existe uma ópera sem solistas, coro e orquestra. Mas também não se leva ao palco sem costureiras, marceneiros, pintores, figurinistas, cenógrafos, técnicos de palco, e uma grande quantidade de profissionais que fazem com que ela aconteça.

PÚBLICO SUPERIOR
AOS CONCERTOS


Poderíamos dizer também que a ópera é ainda, do gênero dito “erudito”, o mais popular e que tem uma média de público muito superior aos concertos, sejam eles de câmara ou sinfônicos. Ou que as atividades artísticas de uma cidade, entre elas a ópera, são um parâmetro de grande peso na avaliação do índice de desenvolvimento social e qualidade de vida de uma população, e que todos os países que investiram em educação e cultura de forma sistemática e séria tiveram melhora em vários outros pontos como a saúde e a segurança, somente para dar um exemplo.

Tudo isso, com certeza, poderia justificar a realização de mais uma ópera, mas tem outro ponto que não pode ser esquecido. A mesma necessidade que deu origem à ópera, há mais de 500 anos, continua viva – a de expressar os nossos sentimentos. Vamos a uma ópera porque queremos nos ver. Sentimos e compadecemos das mesmas emoções. Nada mais real e ao mesmo tempo fantástico que a ópera. Ela nada mais é que um reflexo do que somos. E mais: ela é feita ao vivo, sem recursos tecnológicos de última geração para dar mais volume a uma voz ou evitar possíveis tropeços. Quando os artistas entram no palco, eles estão despidos de qualquer muleta. Eles se jogam em um vazio, esperando encontrar ao final, nada mais que serenidade de ter se entregado de corpo e alma e ter feito o seu melhor. É o momento de maior verdade para um cantor. E quando ele nos dá a sua verdade e imediatamente a reconhecemos. É impossível ir a uma ópera e sair indiferente. Vai amá-la ou odiá-la, pois ela é a representação da vida. Aos ver uma ópera, nos reconhecemos e ao nos reconhecer, nos tornamos mais humanos!

Vivemos em um país com mais de 200 milhões de pessoas, em um estado com mais de 21 milhões, em uma capital com cerca de dois milhões e meio de habitantes. Fazer 86 óperas em 49 anos ainda é muito pouco. Somos um estado do tamanho da França e temos gerações que nunca viram um Barbeiro de Sevilha, de Rossini, ou uma Flauta mágica, de Mozart, somente para citar títulos extremamente populares e já realizados pela FCS. Nunca foi levada ao palco de um teatro em Minas Gerais uma Salomé, de Strauss, um Otell, de Verdi, ou uma, Manon, seja de Puccini ou Massenet, títulos que figuram quase anualmente nas casas de ópera mais tradicionais. Temos um teatro preparado para a ópera, um coro e orquestra que conhecem o gênero e o fazem com grande competência, solistas brasileiros e sul-americanos do mais alto nível, técnicos e produtores que conhecem a área. O que falta então?

O governo de Minas Gerais tem sob seus cuidados dois organismos fantásticos, a Sala Minas Gerais e a Orquestra Filarmônica por um lado, a Fundação Clóvis Salgado e seus corpos artísticos por outro. Se cada organismo tiver o apoio necessário para desenvolver suas próprias habilidades, teremos aqui a maior orquestra de concertos do Brasil, uma das mais importantes casas de ópera da América do Sul, com somente um vencedor: o povo!

* Silvio Viegas é maestro da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

O ELIXIR DO AMOR

Ópera de Gaetano Donizetti: Montagem da Fundação Clóvis Salgado
Récitas: 22, 22, 24 e 26 de abril: 20h; 28 de abril (domingo): 19h.
Local: Grande Teatro do Palácio das Artes: Avenida Afonso Pena, 1.537,  Centro (31) 3236-7400.
Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)
Vendas: bilheteria e pelo site www.ingressorapido.com.br


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