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A arte como antídoto ao atraso

Em artigo exclusivo para o Pensar, o regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais defende a relevância da produção cultural em tempos de crise econômica e de obscurantismo


postado em 12/04/2019 05:07

(foto: ANDRÉ FOSSATI/DIVULGAÇÃO)
(foto: ANDRÉ FOSSATI/DIVULGAÇÃO)
Sem entrar no mérito e nos fatos específicos que marcam e definem a vida de hoje, creio que exista um certo consenso no reconhecimento de que vivemos um período de grandes incertezas, marcado por uma crescente polarização, desconfiança e uma certa resignação de que pouco podemos fazer para mudar as coisas.

A isso, soma-se a crescente desigualdade entre as camadas sociais, o desemprego, a alienação de muitos membros de nossa sociedade, o que leva à crescente violência e ao conflito de classe que se descortinam diariamente à nossa frente. As crises econômicas, políticas e sociais acabam por definir a vida das pessoas, mesmo que não esteja nelas a origem do problema.

Nesse ambiente confuso de início de milênio, onde se busca um norte sem bússola, e esperamos pacientemente que a política venha a resolver os problemas da sociedade – embora a história não fundamente esse argumento –, existe espaço para uma orquestra sinfônica, um balé, uma companhia de teatro ou um museu de arte? Afinal de contas, Cultura não é "essencial". (Uso propositalmente Cultura com C maiúsculo para diferenciar da interpretação mais assumida da palavra como sinônimo de entretenimento.) Com tantas prioridades mais importantes, cabe às manifestações Culturais qualquer papel relevante na confecção civilizatória de uma sociedade que se vê ocupada em suprir necessidades básicas de sobrevivência?

Por vários ângulos essa posição pode ser contra-argumentada. Do ponto de vista econômico, por exemplo, em abundantes pesquisas feitas em vários países, onde a força da cultura é coadjuvante do processo produtivo, conclui-se que a cada centavo investido na Cultura, produz-se um impacto até quatro vezes maior do que o valor originalmente investido. Os fatos comprovam que a Cultura exerce um papel muito além da pura fruição de suas atividades por um público que busca nela certo retorno pessoal. Ela impulsiona a cadeia produtiva, criativa, educacional e, acima de tudo, ela participa de forma plena na formação de uma sociedade mais crítica, mais preparada, mais curiosa, mais engajada em atuar para a resolução de problemas.





Caminhos alternativos


Esteticamente, a música dita erudita, e as artes em geral, têm por função refletir e propor caminhos alternativos a serem perseguidos por aqueles que ainda acreditam na emancipação da sociedade. Os grandes avanços na história da humanidade vêm da contribuição da ciência, do engenho, da indústria, da criatividade advinda das ideias artísticas e filosóficas, e muito pouco de propostas políticas.

Um concerto sinfônico, de música e execução de qualidade, não é apenas uma oportunidade de as pessoas relaxarem depois de um intenso dia de trabalho. Ele simboliza e inspira, de forma clara e visceral, a própria estrutura de uma sociedade ideal: o trabalho em equipe, o foco no bem comum e no resultado que vem a transformar as experiências das pessoas ali envolvidas. Ele exemplifica o esforço individual, acumulado por anos de experiência, produzido por pessoas de única competência, talento e ética de trabalho, em benefício do todo.

As grandes revoluções que impulsionaram o desenvolvimento humano vêm daqueles que, com suas visões criativas, abrangentes, às vezes até quixotescas, enxergaram o mundo como ele deveria ser e não como ele é. Exemplos marcantes disso vêm, por exemplo, de uma personalidade idealista como a de Mozart dizendo: "Vivemos neste mundo para aprender industriosamente e iluminar uns aos outros através do diálogo, e buscar promover vigorosamente o progresso da ciência e das artes". De outro lado, temos a experiência pragmática de Steve Jobs concluindo que: "A razão pela qual a Apple cria produtos como o iPad é porque sempre tentamos estar na interseção entre a tecnologia e as artes liberais". Em que outra esfera o idealismo e o pragmatismo utilitário se unem de forma tão coerente e complementar senão naquilo que as artes têm a oferecer?

Os países desenvolvidos não esperaram enriquecer para depois investir em cultura, educação, conhecimento. Eles cresceram enquanto nação, econômica e socialmente, ao confiar no papel que essas atividades representam na formação de suas sociedades. Não há como negar o crescimento vertiginoso e a influência geopolítica que países como Coreia do Sul, Japão, Cingapura e China tiveram e continuam tendo ao investir massivamente nessas áreas.

É na qualidade e na força da inteligência brasileira que o Brasil se tornará um país de melhor qualidade, não no combate àquilo que forma e define essa inteligência. Temos a opção de, como país, aprender com o comprovado sucesso de outras nações e passar a valorizar e investir mais, e não menos, naquilo que a Cultura pode oferecer.

A relevância das artes nos dias de hoje toma força e importância cada vez maior, ao entendermos que elas atuam não como analgésico às atribulações pelas quais passamos no dia a dia, mas como antídoto às tendências do obscurantismo e do atraso.  Os países acima citados entenderam que quanto mais educação, mais emprego; quanto mais ciência, mais desenvolvimento; e quanto mais Cultura, menos violência e mais igualdade.

 
Fabio Mechetti é diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais


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