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Estado de Minas

As ferramentas da criação

O escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil condensa os ensinamentos da mais longeva oficina literária do país no livro Escrever ficção


postado em 15/03/2019 05:08




Luiz Antonio de Assis Brasil é um mestre. Exerce a técnica narrativa com eficiência e profusão, basta ler Concerto campestre ou outros dos romances escritos pelo gaúcho ao longo de décadas de trajetória ligada às letras. Mas também domina os ensinamentos da criação literária. Que o digam os seus alunos na oficina que ministra na Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), a mais longeva e tradicional do país. Os princípios de sua atividade estão, pela primeira vez, reunidos em um livro: Escrever ficção (Companhia das Letras) chega às livrarias na próxima semana. "É de ficcionista para ficcionista", avisa Assis Brasil. No manual, o escritor defende o protagonismo do personagem em relação à história, estabelece as diferenças entre conto, novela e romance, explica o porquê de destacar o inglês Ian McEwan ("exemplo de escritor competente e profissional") e cita trechos de romances de autores nacionais contemporâneos, como Michel Laub, Carol Bensimon, Rodrigo Lacerda e Daniel Galera, para reforçar sua principal convicção: "Ser ficcionista é exercer nossa humanidade."

Como foi o processo de adaptação das oficinas de criação literária para um livro?

Não foi extraordinariamente complexo, dado que, hábito de professor, sempre registrei minhas aulas, primeiro em cadernos, depois no PC, depois no tablet, e assim formei um volume considerável de arquivos físicos e digitais. A questão foi escolher o que era mais relevante nesse conjunto e, ao mesmo tempo, selecionar minhas reflexões mais recentes que, suponho, são as melhores. E minhas aulas se transformaram muito, no decorrer dessas mais de três décadas, o que significou escolhas. Desde logo, afastei a ideia, por certo sedutora, de dividir o livro em aulas, "aula 1", "aula 2"..., optando em dividi-lo em temas: o personagem, o conflito, o tempo, o espaço, a focalização etc.  Por outro lado, tive de suprir, no livro, o que, nas minhas aulas, são meus gestos, minhas expressões faciais, meu tom de voz, minhas dúvidas instantâneas e, até, os recursos tecnológicos de que utilizo – e, em especial, tive de suprir a presença física dos alunos, com suas dúvidas, seus olhares reativos, até suas respirações. Depois foi preciso escolher a perspectiva do texto: algo que ensinasse, mas sem subestimar o leitor. Depois, o tom: coloquial sem ser banal, breve sem ser incompleto. Houve, também, a decisão sobre a natureza e a dimensão dos textos exemplares. Enfim, uma série de escolhas prévias à escrita e agora, a obra pronta, penso que não poderiam ser diferentes.

 "É um livro de ficcionista para ficcionista", é o aviso nas primeiras páginas. Qual o motivo?

É para justificar a ausência de referenciais teóricos, com os quais nem sempre os ficcionistas têm intimidade e, quase sempre, os abominam. Tentei me aproximar das genuínas interrogações de quem escreve narrativas, que, por vezes, parecem tão aterrorizantes. Por isso chamo Escrever ficção de manual, algo que pode ser consultado em caso de pânico. Coloco-me ao lado do iniciante, ou nem tão iniciante, compreendendo suas perplexidades perante a tela em branco, e minha qualidade de ficcionista – um colega, portanto – pode ser útil. Este é o tipo de livro que eu gostaria de ter lido nos meus primeiros passos de autor, mais do que os compêndios que versavam sobre teoria literária, que não me teriam ajudado em nada. Não que eu despreze a teoria – também ensino isso, e com muito gosto~ mas penso que em Escrever ficção – a teoria seria mais um estorvo do que uma ajuda.

 Como o professor Assis Brasil contribuiu para o desenvolvimento do escritor Assis Brasil?

Sempre procurei separar as coisas. Meu trabalho de ficcionista é uma coisa; de professor é outra. Mas nestas alturas do jogo, posso dizer que muitas vezes faço descobertas em aula, aquelas de que eu preciso para resolver alguma questão da minha própria escrita. Sem nenhuma demagogia, posso dizer que aprendo muito nos debates com os alunos.  

 Você ministra aulas de criação literária há 34 anos. O que notou de mudanças em seus alunos ao longo de três décadas? Quais dúvidas continuam as mesmas?

Além da média etária dos alunos, que diminuiu drasticamente, uma mudança notável foi no plano das intenções. Há três décadas, eles vinham para a oficina com a ideia amadorística de "melhorar" o texto e fazer sucesso no bairro; hoje, não: querem ser escritores, mesmo que isso signifique abrir mão de emprego e assumir gastos - refiro-me em particular àqueles que se transferem para Porto Alegre, enfrentando o frio do cão do inverno gaúcho, apenas para cursar a oficina. Isso custa dinheiro. Isso me assusta. Recai, sobre mim, uma tremenda responsabilidade, que nem sempre me sinto capaz de enfrentar com leveza. Mas tentando responder à pergunta: hoje, muito diferente de ontem, o aluno está à busca do profissionalismo da escrita, e a competência técnica tornou-se um novo, inesperado e bem-vindo valor.  
 
Que caminhos os ficcionistas devem seguir para estabelecer uma ponte entre o leitor e os personagens e a história?

O ficcionista deve escrever de tal forma que o leitor acredite nos personagens e, em consequência, na história. E esse é o caminho: relativamente à personagem, a história não tem tanta relevância. É o personagem que desencadeia a história e a justifica e a sustenta. Tendo o personagem como o epicentro da trama, a adesão do leitor está assegurada. Ele seguirá o personagem até o fim do mundo. Ou da história. É o que digo no livro: não pense na história – não no primeiro momento – mas no personagem que vai provocá-la. Isso é mais do que meio caminho andado. Não por outra razão uma quantidade inumerável de obras inclui o nome de seu personagem central no título: Mme. Bovary, A morte de Ivan Ilítch, Tom Jones, Quincas Borba, O amanuense Belmiro, Hamlet, Bartleby, o escriturário, Os sofrimentos do jovem Werther – um catálogo telefônico inteiro.

Há citações de romances contemporâneos brasileiros de autores como Rodrigo Lacerda, Carol Bensimon, Julián Fuks e Daniel Galera. Como vê o desafio de escrever ficção no Brasil no século 21, diante do número cada vez mais reduzido de leitores?

É uma questão complicada. Mas temos de persistir acreditando no que fazemos. Ter muitos ou poucos leitores é uma circunstância exógena, que nada significa perante a boa ou a má qualidade de uma obra literária. O que me anima é que este tempo passará - e a literatura irá sobreviver a ele.

"Mesmo os romances ruins podem nos ensinar algumas coisas." De que forma?

Em primeiro lugar, eles nos ensinam o exercício da paciência; mas a sério: os romances ruins nos dizem o que devemos evitar na nossa própria literatura. Meu livro mostra, em certos momentos, alguns exemplos de má escrita. O leitor inteligente saberá ajustar tudo isso às suas possíveis deficiências. Com um mediador – e o livro pretende essa mediação – a tarefa pode ser facilitada.

Por que a hesitação antes de escrever o capítulo "Roteiro para a escrita de um romance linear"?

Havia uma questão preliminar: o capítulo seria o roteiro da escrita de um romance, algo limitante relativamente à pretendida abrangência do meu livro, o qual fala  apenas em "ficção", sem cercaduras de gênero. Por outro lado, eu não poderia ser dogmático, não poderia indicar caminhos rígidos para criadores literários. Podemos traçar uma sugestão de trilha numa floresta – mas isso é muito delicado quando se trata de um romance. Uma terceira causa de hesitação: eu necessariamente deveria retomar e articular vários aspectos tratados no mesmo livro [personagem, tempo, espaço, conflito etc.,] o que poderia causar uma espécie de déjà vu. Assim, houve momentos em que o capítulo ficava; depois caía, depois ficava. Depois, em diálogos com o colaborador do livro, meu ex-aluno, escritor e agora professor de escrita criativa Luís Roberto Amabile, o capítulo permaneceu. Os leitores prévios, todos eles, gostaram da inclusão. Vamos ver o resultado perante o público.

Ian McEwan (autor de romances como Reparação, Sábado e Na praia) e é citado em diversas passagens de seu livro. Quais as virtudes do romancista inglês? O que o diferencia de outros escritores contemporâneos?


McEwan é um autor que consegue equilibrar a introspecção com os fatos externos, articulando-os com muita competência. Além disso, ele possui um domínio espantoso das estruturas de suas novelas e romances e, ainda, maneja uma linguagem exemplar, que persiste nas traduções. Ele entende o que é a essência da narrativa: personagens consistentes e episódios que se sucedem com ligeireza, mas sem superficialidade. Não digo que McEwan seja o melhor, porque há muito abdiquei desses critérios de hipódromo. O que posso dizer: ele, em vida, já é um clássico e um exemplo de escritor competente e profissional.
 
Quais as ferramentas indispensáveis deveriam ser incluídas em um livro chamado Ler ficção? Escreveria um livro destinado a leitores?


Penso não ter a necessária vocação para tal; prefiro tratar disso no corpo a corpo das minhas aulas. Há excelentes autores que ensinam a ler melhor, que vitalizam a leitura, e que eu recomendo, como Francine Prose, por exemplo. E mais Umberto Eco, Ricardo Piglia, Vila-Matas, entre tantos.

Quais as mais recentes leituras de ficção que o entusiasmaram?

Flores, de Afonso Cruz, O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer e Os meninos de Nápoles, de Roberto Saviano.




Escrever ficção: um manual de criação literária
De Luiz Antonio de Assis Brasil
Companhia das Letras
400 páginas
R$ 79, 90




Sobre o autor

Gaúcho de Porto Alegre, Luiz Antonio de Assis Brasil nasceu em 1943. É autor de mais de 20 livros, entre eles Cães da província, Bacia das almas, Videiras de cristal, Música perdida e O inverno e depois. Um de seus romances mais conhecidos, Concerto campestre, foi adaptado para os cinemas em 2005 pelo diretor Henrique de Freitas Filho. É professor universitário e foi secretário de Cultura do Rio Grande do Sul. Em 1985, criou a mais antiga oficina literária do país, que originou os cursos de mestrado e doutorado em escrita criativa na PUC-RS.

Estante


Outros livros importantes sobre o fazer literário

A coisa mais próxima da vida e Como funciona a ficção. De James Wood. Editora SESI-SP.

Sobre a escrita – A arte em memórias. De Stephen King. Editora Objetiva.

A aventura do estilo – Ensaios e correspondências. De Henry James e Robert Louis Stevenson. Editora Rocco.

A arte do romance. De Milan Kundera. Companhia das Letras.



Diante das palavras dos outros

Assis Brasil comenta passagens de livros que refletem sobre o ofício de escrever

 "As pessoas acham que situações memoráveis ou bons diálogos são obtidos a partir do estudo da vida; não conseguem entender que essas coisas são obtidas por meio do artifício deliberado e realçados por dolorosas supressões"
Robert Louis Stevenson, em A aventura do estilo

Concordo com Stevenson. Ele destaca a predominância do trabalho sobre a inspiração. Eu digo na abertura do meu livro: antes de pensar em sucesso, pense em ser competente. Ser competente não é empecilho para a conquista do Nobel. Mas com relação ao trecho de Stevenson, talvez eu não concorde apenas com o adjetivo "dolorosas".

"A história e o romance, a ideia e a forma, são a agulha e a linha; jamais ouvi falar de uma agremiação de costureiros que recomendasse o uso da linha sem agulha, ou da agulha sem a linha." Henry James, em A aventura do estilo.

A imagem é perfeita, que remete à ideia do tecido que é a trama de um romance, em que tudo é essencial: personagem, depois história, depois linguagem. É esse conjunto, na sua organicidade,  que tem condições de encantar o leitor.  

"Nas narrativas, é o universo que o autor construiu e os eventos que ali ocorrem que regem o ritmo, o estilo e até mesmo a escolha do vocabulário. Conheça o assunto, e as palavras irão fluir." Umberto Eco, em Confissões de um jovem romancista.

Concordo em parte. Eu substituiria a última frase por: conheça o personagem, e tudo isso ganhará sentido.

"O romance vai desaparecer? Nada sei sobre isso. Creio apenas saber que o romance não pode mais viver em paz com o espírito de nosso tempo: se ainda quer continuar a descobrir o que não foi descoberto, se ainda quer 'progredir' como romance, ele só pode fazê-lo contra o progresso do mundo." Milan Kundera, em A arte do romance.

"O romance é que pode se contrapor à irracionalidade brutalizada de nosso tempo. O romance é um resistente vestígio do Iluminismo humanista."

"Embora me custe muito trabalho e me faça suar a camisa e, como todo escritor, eu às vezes sinta a ameaça de paralisia, da estiagem da imaginação, nada me faz desfrutar tanto a vida quanto passar meses e anos construindo uma história desde o seu incerto alvorecer, aquela imagem que a memória armazenou de alguma experiência que se tornou um desassossego, um entusiasmo, uma fantasia que floresceu em um projeto e na decisão de tentar converter esta névoa agitada de fantasmas em uma história." Mario Vargas Llosa, em Elogio da leitura.

"De fato, o ato de criar uma obra literária é uma das mais espantosas experiências humanas, pois significa exercer uma espécie de ação demiúrgica, e nisso há um imenso e insuperável prazer."

"Se você quer ser escritor, existem duas coisas a fazer, acima de todas as outras: ler muito e escrever muito. Que eu saiba, não há como fugir dessas duas coisas, não há atalho"
Stephen King, em Sobre a escrita: a arte em memórias.

"Não há atalho. Ler e escrever são os principais meios para a formação de um ficcionista e, eu diria, são insubstituíveis, e isso acontece desde que a literatura existe; é inegável, porém, que atualmente há outros meios que podem ser coadjuvantes nesse processo, como os laboratórios de texto ou as obras que tratam da escrita como prática - o próprio Stephen King é autor de um texto muito interessante nesse ramo."

‘‘O excesso de vida em uma história está nos detalhes. Os detalhes representam aqueles momentos da história em que a forma é superada, eliminada, ignorada.‘‘ James Wood, em A coisa mais próxima da vida.
 
"Embora não seja exatamente a operação intelectual de Wood, o assunto me levou a uma ideia com a qual trabalho há muito tempo e nela acredito: os detalhes dão verdade a uma história. Coloque o nome e a safra de um vinho no meio de uma página. O leitor acreditará na página toda, no capítulo todo e, quem sabe, no livro inteiro.  "


Depoimento

“Uma oficina literária não dá talento a ninguém. Isso nasce de um modo que não sabemos bem qual é. Mas ela pode ajudar dando ferramentas para que o aluno melhore a expressão técnica desse talento, caso o tenha, ou fazendo-o queimar etapas num aprendizado que levará mais tempo se feito sozinho. A sensibilidade de um professor da área está em diferenciar o que é meio e o que é fim, em não tentar impor um modo de fazer ficção a alunos com vidas e repertórios literários muito diversos entre si, sem deixar de mostrar que existe uma história no uso desses recursos técnicos, e que conhecê-la não prejudica em nada na busca por uma voz própria, pelo contrário. O Assis Brasil é esse tipo de professor.”

Michel Laub, autor de romances como Diário da queda e O tribunal da quinta-feira


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