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Eterno e efêmero instante

Nuvens de algodão é a peculiar incursão do cineasta iraniano Abbas Kiarostami na poesia haicai, expressão que de várias formas está presente em seus filmes, que são "dramas desdramatizados"


postado em 01/03/2019 05:10

O cineasta Abbas Kiarostami (1940-2016) ganhou importantes prêmios internacionais, inclusive em Cannes e Veneza(foto: MAX ROSSI/REUTERS)
O cineasta Abbas Kiarostami (1940-2016) ganhou importantes prêmios internacionais, inclusive em Cannes e Veneza (foto: MAX ROSSI/REUTERS)

Costuma-se definir a obra de Abbas Kiarostami como “dramas desdramatizados”, paradoxo (na verdade um oxímoro) que nos ajuda a perceber o que faz este cinema ser algo tão distinto dos filmes de dramaturgia clássica, e também daqueles vinculados a diversas correntes da vanguarda e da cinematografia independente moderna.

Kiarostami, assim como Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi – entre outros do cinema iraniano contemporâneo –, é único. Sua ascensão como um dos diretores mais peculiares e interessantes do mundo fez com que o japonês Akira Kurosawa declarasse: “Quando Satyajit Ray morreu, eu entrei em profunda depressão. Mas, depois de ver os filmes de Kiarostami, agradeci a Deus por nos ter dado a pessoa certa para ocupar o seu lugar”. Kurosawa certamente percebeu a afinidade de seu colega com a tradição japonesa dos haicais e do teatro nô.

Nuvens de algodão nos ajuda a compreender a obra cinematográfica de Kiarostami, da mesma maneira que ela nos ajuda a compreender a transcendência de seus poemas. A paisagem é fundamental em ambos. São aspectos intercambiáveis. Um desvenda o outro e vice-versa, com o perdão aqui da tautologia um tanto quanto pueril.


CAMINHOS
DESOLADOS


Vejam por exemplo as imagens que ilustram Abbas Kiarostami, o esplendoroso livro editado pela Cosac Naify em 2004. Dezenas de fotografias em preto e branco do próprio Kiarostami retratam caminhos desolados que se perdem no horizonte. Essas estradas e trilhas em meio a terras aradas ou nuas cortam vales e montanhas que se desdobram na imensidão. Elas riscam um campo rarefeito, desprovido da presença humana. A natureza – ou a paisagem, se assim o quiserem – tem na poesia e no cinema de Kiarostami um caráter metafísico. “A árvore de marmelo/floresceu/numa casa abandonada. Um instante traduz a eternidade. O eterno instante, pode-se dizer. A compreensão de um universo em que inexiste o tempo e onde as circunstâncias são fugazes. “Aos olhos dos pássaros/ Em um templo o ocidente de mil e trezentos anos/é onde o sol se põe ou hora/e o oriente sete para as sete./onde o sol nasce,/apenas isso.”

O que parece complicado na verdade é muito simples. Tão simples quanto os poemas mencionados acima. Kiarostami vê na contemplação da natureza a essência de tudo e, a partir daí, propõe uma distinta “natureza da contemplação”. Para aquele que vê (ou contempla), seria como a revelação de uma experiência existencial nova a partir do olhar. O que se vê não é apenas o que se vê! Uma operação singela, quase dadaísta, enigmática, que teria o dom de conduzir a um assombro, à visão do invisível, a uma percepção mais transcendente das coisas.

O observador teria a possibilidade de experimentar uma visão múltipla da realidade. Em essência, no que diz respeito ao poeta/realizador, o real é uma fina seda translúcida que conduz à incerteza, ao pasmo gerado pelo instante fugaz. O real, portanto, é subjetivo. Mas essa subjetividade, inicialmente incômoda, produz um estado de iluminação que alça o observador à compreensão de uma verdade superior. O que parece esotérico na verdade é o atributo fundamental do haicai, consequentemente dos poemas e do cinema de Kiarostami.




Centelha iluminadora do poema

Para Matsuo Bashô, o poeta que definiu o modelo do haicai ainda no período Edo (século 17), a poesia ultracondensada “deveria relacionar dois elementos básicos: de um lado a ‘permanência’ (por exemplo, a primavera), de outro a ‘transformação’, materializada numa ‘percepção momentânea do indivíduo’ que levaria a ‘centelha’ iluminadora de uma verdade ontológica.

Ainda antes, no século 14, os japoneses desenvolveram o teatro Nô, forma que pode ser entendida como um haicai estendido, já que a peça inteira gira em torno de uma única imagem (imagem unificadora), ponto de energia máxima, chamado “vortex”, de um drama que é apenas sugerido. No teatro Nô o enredo não tem importância. Alguns o chamam de uma “épica sem enredo”, plotless epic, conforme definição do poeta Ezra Pound. De uma certa maneira, podemos fazer uma analogia com os “dramas desdramatizados” de alguns dos realizadores iranianos modernos, incluindo, claro, Kiarostami.

O cinema de Kiarostami dá menos importância à tradicional progressão linear da narrativa. Essa progressão existe, mas o que deve ser levado em consideração são os vários “momentos de culminância” (diminutos haicais) que acontecem ao longo da história narrada desde o seu início. As cenas não conduzem a uma única revelação final. Em Dez, por exemplo, uma motorista recebe vários passageiros no seu carro. Os episódios com cada um deles são independentes e têm um valor em si mesmos.

Da mesma maneira em Gosto de cereja um homem de aparência cultivada vaga com seu carro pelas ruas de Teerã abordando as pessoas. Ninguém sabe o que ele quer. Seria o caso de uma paquera homossexual? Kiarostami joga com o imponderável da vida, com um tempo mítico e etéreo, com a essência ou a verdade que estaria por trás das aparências. No seu cinema/poema as verdades absolutas nunca florescem, sejam elas de natureza política, religiosa ou pessoal. (SM)


Sérgio Moriconi é professor, crítico e curador de mostras de cinema. Foi programador do Cine Brasília.



Um vira-lata
abana a cauda nas travessas desertas
a um caminhante cego nenhum pedestre
nem sequer um cachorro

Seis cadeiras de bambu
recordam juntas
a lembrança da última ventania
no canavial





O vento sibila
nas travessas desertas
nenhum pedestre
nem sequer um cachorro

Nem oriente nem ocidente
nem norte nem sul
Aqui mesmo
onde me encontro





NUVENS DE ALGODÃO
•  De Abbas Kiarostami
•  Editora Âyné
•  196 páginas
•  R$ 50
•  R$ 43,73 (e-book)


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