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DEPOIMENTO


postado em 11/01/2019 05:06

Na poesia de Nicanor Parra se articula uma revisão muito crítica do passado em todos os sentidos e, especialmente, em relação aos movimentos europeus e ocidentais que marcaram a construção do cânone cultural, social e político ao longo de séculos. Desde cedo, a obra de Parra se aproxima de uma abordagem das vertentes populares da cultura, aquelas que se conectam com o não sofisticado, o não refinado, tanto o humor “grosseiro” como as formas da ironia ou da paródia claramente carnavalescas.

Por isso, ele se interessa, de maneira significativa, pelos goliardos ou pelo Livro do bom amor (Juan Ruiz Arcipreste de Hita – 1284-1351), assim como pelas cuecas (gênero de música e dança tradicional chileno) populares, em particular em seu livro La cueca larga, de 1958, no qual se aproximava às formas do picaresco e do “prostibular” que satirizavam a visão da cultura chilena dominante na época. Constantemente, ele faz troça da “solenidade greco-latina” e demonstra interesse pelos aspectos mais “vivazes” e “verdadeiros”, menos codificados.

Já nos anos 1990, ele se declara mapuche (etnia indígena originária chilena) “por direito próprio”. Não é por acaso que, em 1991, deu ao discurso de agradecimento do Prêmio Juan Rulfo, recebido no México, o título de Mai mai peñi. Discurso de Guadalajara, cujas primeiras palavras são uma saudação mapuche.

Para Parra, reconhecer as formas ancestrais de conhecimento dos mapuches ou de outros povos originários, muito menos valorizadas ou diretamente rechaçadas pelo sistema cultural de seu país e de tantos outros significava se conectar com seu forte compromisso ecológico. Parra se declara um “alfabetizador ecológico” e, em diversas ocasiões, deixou claro seu apoio ao movimento ambientalista.

Na década de 1980, já é muito palpável em sua obra a preocupação pela sustentabilidade do planeta, o que o leva a apoiar a causa mapuche em seu conflito com o Estado chileno. Como repetiu em várias ocasiões, “muitos os problemas/ a solução é uma:/ economia mapuche de subsistência”.

Sem dúvida, por meio da antipoesia e dos numerosos desafios que sua obra instala para a cultura contemporânea, Parra propõe a conexão com elementos populares e ancestrais, o que confere à sua poesia uma profunda singularidade e a projeta para o presente mais vivaz e verdadeiro.

* É poeta e escritora espanhola, especialista em poesia hispano-americana, professora da Universidade de Salamanca e autora de Mecanismo animal (Ediciones del 4 de agosto, 2018), entre outros.


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