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Ponto de fuga


postado em 04/01/2019 05:03

É o tempo

um sol explícito se escancara às 13h
aqui em cima

embaixo o corpo imenso
retesa músculos
nesse instintivo movimento inútil
de defesa

buracos e buracos ao sol
depois dos granizos das pistolas
ponto 40
graus à sombra


Nos apartamentos

inútil lamentar as coisas, as lâminas
vivas. o jeito, talvez, seja cegá-las. se
ontem cortaram nosso membro, por que não
espancá-las com a outra perna manca? Mas certos:
elas são lâminas – e vivas – e a carne
é sempre pedra de amolar a vida.

talvez eu tenha me excedido na medida e, por isso,
aflorem as dores que aprendi na solidão dos utensílios
e móveis com que vivi meus anos turvos, e desculpo-me
ao rapaz que fuma, com quem divido o quarto e em quem
remonto os danos e rio pra mulher, a companheira preta,
profissão: comerciária, idade: 20 anos, minha flor,
com quem partilho a cama, o coração, a barra, o canivete (inútil)
só guardo pras laranjas


algo no metrô
deixa brilhante o muco
na narina dela
a narina do rosto bonito maquiado dela

a luz brilhosa
que inibe a fotografia
dispositivos eletrônicos mudos

não sei se a luz de onde viemos
não sei se a luz para onde vamos

o brilho onde estamos


O poeta, o lugar

Mandaram ao poeta que saísse
de debaixo de minha pele
pra curtir um torcicolo e um par de cãibras
na seção de bagagens
entre as cuecas, as meias e umas fotos
de mulher nua e um revólver carcomido
de ferrugem (comprado em camelô de contrabando).

Vou ao seu lado no trem, meu amor,
no espaço que sobrou entre seus dois amantes,
amontoado em seu ombro
com medo de que alguém me apanhe pra tapete


desejo que

não se anuncia

rasga
na armadura
e diz

corpo
eu te crio

*Wir Caetano
Nasceu em João Monlevade, em 1960. Graduado em jornalismo, é escritor, jornalista e fotógrafo. Realizou a exposição Fragmento de lugar (Galeria de Arte da Assembleia Legislativa de MG, 2016). Como escritor, publicou Paixões e atrofias (poesia, 1982), Morte porca (ficção, 2002) e Fragmentos de poesia toda (poesia, coleção “Leve um Livro”, 2017). Os poemas publicados no Pensar foram extraídos de Essa substância chamada infinito (Clãdestina Cartonera, 2018)


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