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Uma missão de toda a vida

Os historiadores Pablo Diener e Maria de Fátima Costa lançam Martius, a mais completa coletânea de gravuras e informações sobre o botânico bávaro que percorreu 14 mil quilômetros no Brasil no século 19


postado em 21/12/2018 05:03

América tropical (1828), litografia realizada a partir de croqui do cientista bávaro incluída em Viagem pelo Brasil
América tropical (1828), litografia realizada a partir de croqui do cientista bávaro incluída em Viagem pelo Brasil

“Se trazeis algo útil para as ciências e para a humanidade, minhas expectativas ficarão satisfeitas. Honrai o nome da Baviera e ide com Deus!”, declarou Maximiliano José I, rei da Baviera (atualmente um estado do Sul da Alemanha), aos dois jovens cientistas Carl Friedrich Philipp Martius (1794-1868) e Johann Baptist von Spix (1781-1826). O encontro fortuito ocorreu numa hospedaria em Lambach, quando os dois viajantes cruzaram com a comitiva do monarca, em 6 de fevereiro de 1817. Era o início de uma expedição que percorreria 14 mil quilômetros pelo Brasil e duraria três anos.

A empreitada em caráter oficial do reino da Baviera tinha o objetivo de “coletar dados dos três reinos da história natural, produtos das artes e manufaturas, descrever e desenhar pessoas, usos, vistas pitorescas e fenômenos peculiares, e também fazer investigações astronômicas, geológicas, cosmológicas, meteorológicas, além de recolher dados sobre a história antiga e recente do continente e também dos seus povoados”. Apesar da formação médica e de serem especialistas em ciências naturais – Spix em zoologia e Martius em botânica –, a tarefa dos dois viajantes era de abrangência ímpar e pressupunha uma visão universalista da ciência, assim como habilidades em ofícios bem diversos.

Martius cumpriu com louvor a missão que lhe foi designada, coletando e catalogando espécies da flora brasileira, descrevendo costumes, registrando músicas indígenas e até criando um sistema de classificação das línguas dos povos originários. Os dois cientistas se referiam ao material como “tesouro natural”. Quando deixou seu país, tinha apenas 22 anos. Ao retornar a Munique, dedicou-se a sistematizar e publicar as descobertas feitas no Brasil até a morte, aos 74 anos. “Posso afirmar sem hesitar que foi sobretudo aquela viagem ao Brasil que deu um conteúdo e um rumo à minha existência científica”, disse ele numa conferência em 1860.

Sua obra representou um marco na divulgação de conhecimento sobre o Brasil na Europa. Escreveu diversos livros e artigos sobre suas descobertas, incluindo o famoso Viagem pelo Brasil (1823-1831), editada em três volumes no Brasil pela Itatiaia e há muito esgotado (a Biblioteca Brasiliana Guida e José Mindlin disponibiliza na internet os originais em alemão). Porém, a mais grandiosa realização de Martius foi a publicação de Flora brasiliensis. O trabalho levou 66 anos para ser publicado integralmente e contou com patrocínio brasileiro (do Império e caso único mantido pela República) e bávaro. Foram 40 volumes ilustrados catalogando 22 mil espécies da flora nativa nacional, esforço concluído bem depois da morte do autor, por estudiosos que seguiram suas instruções.

A vida e a obra notável deste viajante ganha agora edição em livro que faz jus à grandeza de seus feitos. Martius, em primoroso volume da Capivara Editora, é resultado de longa pesquisa de Pablo Diener e Maria de Fátima Costa, professores de história da Universidade Federal do Mato Grosso e pesquisadores de longa data sobre os viajantes estrangeiros que desbravaram o Brasil no século 19.

A pesquisa para essa publicação começou em 2012 e incluiu visita à Academia das Ciências da Baviera. “Aí estava toda a documentação da expedição: ordens de serviço, instruções para a viagem, relatórios de trabalho, rendição de contas, etc. Foi então que percebemos que a riqueza do material era gigantesca. E nos propusemos a oferecer um quadro geral sobre a expedição, com base em documentos contundentes”, afirmam os pesquisadores.

Trata-se de uma ampla coletânea a respeito do viajante, com 240 gravuras – 150 delas inéditas –, mapas e textos didáticos que fornecem informações até agora dispersas. Para Pablo e Maria Fátima, este trabalho “representa uma primeira etapa para as investigações documentais” e afirma que “há um mar de assuntos que ainda aguardam para ser explorados”. A intenção é abrir portas para este universo vasto que possibilita abordagens de muitas perspectivas e áreas. Os pesquisadores pretendem publicar no próximo ano o livro Relatórios ao rei, com os informes que Spix e Martius enviaram a Maximiliano José I durante a viagem pelo Brasil.

Em entrevista ao Pensar, respondida coletivamente por e-mail, os historiadores abordam alguns aspectos desse personagem, da incrível viagem empreendida por várias regiões do país e o legado do botânico bávaro.


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