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Estado de Minas

"Nenhum ser humano foi posto no mundo para ser escravo"


postado em 23/11/2018 05:05

(foto: Amaranta Cesar/Divulgação)
(foto: Amaranta Cesar/Divulgação)
A conversa que se segue aconteceu no dia 19 de outubro, quando a manhã ainda estava fria, aos pés de um abacateiro do Nzo Onimbyá, terreiro fundado pela família Pinto, no Engenho Velho da Federação, bairro de maior concentração de terreiros de candomblé de Salvador e do Brasil. A desfiar o Mário (Mariwo), Valdina Pinto, Makota Zimewanga ou, como e mais conhecida, Makota Valdina (conjunção do nome de batismo com o cargo que exerce no candomblé) estava ali, como de costume, trancando as atividades religiosas com a história e a política, num elo sofisticado que ela trama como ninguém. Makota Valdina dedicou seus 75 anos a perseguir, em todos os campos da vida comum, aquilo que, segundo ela, é a vocação de todo sujeito: a liberdade. E, assim, construiu uma reconhecida e notável trajetória como liderança religiosa do candomblé angola, militante negra e ativista ambiental. Mas é como “professora primaria aposentada” que ela gosta de se definir. Suas lições, por sua vez, amplificam- se nas dimensões do cosmos, são para ler o mundo em seus complexos enlaces entre o visível e o invisível.

Dez dias depois de conversarmos, no momento em que finalizávamos a edição desta entrevista, nos chega a notícia, pelo grupo de WhatsApp do Nzo Onimboyá, de que a Casa de Oxumaré, um dos tradicionais terreiros de candomblé do Engenho Velho da Federação, teve seu muro pichado com as palavras “Jesus é o caminho”. Diante da notícia, no grupo virtual, a comunidade do Nzo debate a necessidade de criação de uma Frente de Resistência da Religiosidade Africana para enfrentar os ataques que, supomos, serão intensificados a partir de agora. As lições de nossa mãe Zimewanga explicitam- se na urgência da violência que se institucionaliza e da luta contra o racismo religioso: nosso trabalho e cuidado espiritual não se separa de uma tarefa política, assim como no presente há sempre passado; de uma perspectiva histórica mas também cosmológica. Porque, como ela diz, “o tempo é o vento”, aquilo que nos antecede e sem o qual não podemos respirar, viver.

Como foi o surgimento do espaço Nzo Onimboyá? O que ele significa na sua história e como ele atravessa suas memórias?

O Nzo Onimboyá tem a ver com minha história familiar, porque esse espaço foi a primeira casa que meus pais construíram na década de 1940. Minha mãe era de candomblé, foi iniciada, e quem realmente deu caminho e falou que minha mãe precisava cuidar da vida espiritual dela no candomblé, fazer o santo, foi o caboclo, o Caboclo Onimboyá, porque era o caboclo que minha mãe recebia. Então, o Nzo tem a ver com a família. Fui a primeira dos filhos a me iniciar, a entrar no candomblé, já adulta. Depois, foi minha irmã caçula, Maria Angélica, Vulassese, que hoje é a mãe desse terreiro, porque ela que é a “rodante”, a Mona Nkisi – que recebe o nkisi. Depois foi que a gente começou a cuidar, fazendo uma obrigação mais séria, começou a utilizar o espaço, modificar o espaço, para criar uma estrutura, ainda que seja tudo pequeno, mas criar uma estrutura para iniciar pessoas. E assim é que o Nzo está aí, quer dizer, é um terreiro, uma casa de santo nova. Sim, nova porque a gente está tocando agora, mas as coisas que nós cultuamos, os santos, já vêm desde que minha mãe fez santo no final de década de 1940 e início de 1950, vem de longe. E hoje não é só da família, tem pessoas que não são da família que se cuidam aqui, é um espaço de cura, um terreiro que a gente cultua os nkisis, os caboclos, mas também os orixás, os voduns, que a gente tem consciência que a gente não é puro, a gente tem influência de várias vertentes africanas, sobretudo dos caboclos. E leva o nome de Onimboyá porque ele é o mentor da nossa família.

Como foi exatamente a construção desse espaço num bairro densamente povoado, e a relação do culto nesse bairro com a urbanidade?
Quando eu era criança, a gente tinha muito mais espaço, o quintal era muito mais amplo. Todo mundo aqui tinha quintal. Hoje em dia, a gente é privilegiado por ter um, pequeno, mas a gente tem quintal. E aí foram construindo casa e avançando na terra. Mas, quando eu era criança, na década de 1940-1950, era muito mato, muitas fontes d’agua existiam aqui no bairro, a gente tinha muito mais verde. Eu me lembro de muitas espécies de Mata Atlântica, a gente não precisava ir para lugar nenhum buscar, aqui por perto mesmo a gente conseguia as folhas. A relação da gente com o mato era muito forte, a gente brincava nos quintais, se embrenhava por aí para catar fruto no mato. O mato era espaço de lazer, mas para a gente tinha também uma influência, a sabedoria, o conhecimento, a aprendizagem de se relacionar com o mato. Quando a gente resolveu mesmo utilizar o espaço para fazer o culto, a gente começou a fazer algumas interferências no quintal, que estava jogado. Então, a gente começou a mexer. Tinha que ampliar um pouco, teve que cortar algumas bananeiras. Aí, a gente já enfrentando essa dificuldade de encontrar as plantas, as folhas que a gente precisa, a gente começou a intervir, começou até a replantar algumas coisas, algumas folhas. Porque hoje em dia está muito difícil, estão desmatando muito aqui em Salvador, e a gente já não encontra mais as plantas que encontrava naturalmente, que a gente precisa no culto, fica cada vez mais difícil. Por outro lado, a gente também, agora, fica na preocupação de como cuidar desse mato que era mais denso, que tinha também os animais, os bichos. Aqui no Nzo, a gente tem essa preocupação: o que colocar no mato, como colocar no mato, porque o mato de hoje não é mais o mato de antes, que consumia aquela oferenda. Então, aqui a gente tem essa preocupação, estou chamando sempre atenção para isso. Quando a gente vai para o mato que precisa tirar a folha, sempre falo: vamos tirar a quantidade que a gente precisa, porque outros vão precisar também. Se tem um galho que está ali florescendo, deixa aquele galho, vamos tirar de outro. Se impedir daquela semente cair, a gente vai ficar com cada vez menos folhas. São essas preocupações que a gente aqui tem, porque a gente precisa da natureza, e a gente tem que tomar conta da natureza.

Como é essa relação desse candomblé, cultuado e praticado aqui, com a natureza?

Ah, tem muito, porque índio não vive sem terra e sem folha, e o africano tradicional também não... Porque tudo bem que a África hoje é como qualquer lugar do mundo, mas os tradicionais na África precisam também da terra e do mato, da mesma forma que o índio. E aqui a gente tem uma relação muito forte com os caboclos, que são os ancestrais indígenas, justamente por causa do Caboclo Onimboyá. Então, a gente cultua as entidades africanas, mas o caboclo é muito forte, sobretudo porque é o dono, é que dá nome ao nosso terreiro. É muito forte a questão da natureza, é muito importante para a gente. A gente precisa, a gente não tem candomblé de prateleira nem de gaveta, a gente tenta ter um espaço no nosso terreiro. Hoje em dia, até crítico muito, eu vejo muito na internet esses megabarracões, essas megafestas, com muita coisa, muito consumismo, e isso não é o que os caboclos querem, os nkisis, os orixás. Eles querem coisas mais simples. Hoje, vejo uma verdadeira aberração. Vejo na internet os barracões de candomblé, parecem casas de show. E quando a gente está cultuando um nkisi, um orixá, um caboclo, tudo é mais simples, não precisa de brilho, não precisa de roupa, é o mais simples possível. A gente é quem cria essas coisas, acho que, às vezes, é muito consumismo, e a gente tem que valorizar mais o que é natureza.

E essa relação entre o nkisi e a natureza na filosofia e na cosmologia Angola?

Natureza é nkisi, Nkisi é natureza. Eu me confirmei em 1975. De todos os antigos que conheci, com quem convivi, eu não me lembro de nenhum contar lenda nenhuma de nkisi, mas me lembro sempre de falar da importância das folhas, da água, dos fenômenos da natureza, da importância disso. No final da década de 1980 ou início de 1990, conheci um africano do Congo que vivia nos Estados Unidos. Aprendi muita coisa com ele e tive a oportunidade de ver que muito das coisas que a gente fazia, ainda que as pessoas não explicassem para a gente, tinha um fundamento, tinha uma anterioridade, tinha um pé lá na África. Ele era Fu-Kiau. Quando tive acesso aos escritos, aos ensinamentos de Fu-Kiau, vi que a gente do Candomblé Angola, apesar de não ter lendas, não ter mitos, não ter essa coisa toda que tem na cultura iorubá, dos orixás, a gente tem a nossa própria cultura, porque quem formou e forjou o Candomblé Angola foram as culturas que, linguisticamente, são hoje classificadas como bantu. Muita gente diz que candomblé é bantu, não tem esse negócio de candomblé bantu, é candomblé angola ou congo angola. Esse é o termo. Agora, tem influência dessas várias culturas bantu, porque não foi, como no ketu, só uma cultura, a iorubá: tem a cultura dos bakongo, dos luba, dos lunda, dos kioko, dos nlele e tantos outros que são agrupados linguisticamente como bantu. Aprendi com Fu-Kiau algumas coisas sobre essa visão desses povos bantu. São culturas que, em vez de lendas, são muito ligadas a provérbios, que servem para explicar a vida na comunidade, a visão de mundo, os fenômenos da natureza e por aí vai. E aí, uma das máximas, de ditos que aprendi com Fu-Kiau, é quando ele nos ensina sobre o que é que o povo bantu – aliás, não, os bantus, porque bantu é povo, é plural de muntu. Muntu é ser humano, pessoa, bantu são pessoas, seres humanos... Ele, pra explicar o que é a terra, o que é esse planeta Terra, que é a casa comum de todos os seres humanos, diz que a Terra é futu dya nkisi dya kanga kalunga mu diambo dya moyo. Futu é como um sachê, um pacote, a terra é um pacote de essências curativas. Então, na verdade, o que a gente cultua, que é o nkisi, é isso. Não é um rei, uma rainha, uma coisa. Nkisi é uma coisa que está no mundo para todo mundo, ainda que não acredite, não saiba, não cultue. Essa química que está aí nesse planeta, no ar, na terra, em tudo que está aí, que foi selado, que foi codificado, que foi amarrado, foi enlaçado por Kalunga (Kalunga é o mesmo que Nzambi, o mesmo que Deus, o mesmo que Olorum), selado com intenção de vida, mu diambo dyamoio, para a vida. Então, tudo que está nesse pacote foi colocado por Kalunga, por Nzambi, por Deus, Jeová, Javé, Alá, não importa o nome que queira dar, para dar vida na Terra e ao ser humano. Então, todo ser humano, branco, preto, gordo, magro, rico e pobre, que conheça e que não conheça, depende disso. Porque todo mundo precisa de água, todo mundo precisa de ar, precisa da química do remédio, do alimento que está na terra. Vai para o laboratório, mas o laboratório tem que tirar a matéria que taí, que foi e é colocada o tempo todo por Nzambi. Então é isso, então nkisi é isso. E o nkisi vem de um verbo, tem um verbo que chama kinsa, que quer dizer cuidar, curar, tomar conta, tomar cuidado. Nkisi é isso, é essa essência, essa energia, que está aí para tomar conta da gente, para cuidar da gente; é essa essência que está na natureza. Então, se é isso, a gente precisa do nkisi e a gente precisa cuidar da natureza. Cada vez que a gente deixa poluir fontes de água, cada vez que a gente contribui para que as águas no mundo sejam poluídas, a gente está fazendo com que a gente fique sem nkisi. Como o ar, quem é que vive sem ar? Todo mundo precisa do vento, de tempo, do ar, todo mundo precisa.

Como a senhora se tornou ativista, uma ativista ambiental, mas também uma ativista política num sentido amplo?
A década de 1970 foi muito importante para a gente, aqui no Brasil, aqui na Bahia, de um retomar… Porque o negro, desde quando foi trazido para aqui na condição de escravo, ele nunca parou. Mas a década de 1970 foi muito importante, porque a gente reorganizou formas de lutar contra racismo, contra a discriminação. E aí eu me tornei ativista. E naquela época, justamente, acho que foi um chamado deles, acho que me chamaram para, através da minha crença, do candomblé, eu fazer meu ativismo negro, meu ativismo enquanto ser humano. Comecei primeiro a reivindicar o direito que os angoleiros tinham. Comecei a falar dos angoleiros, do Angola, não a falar em fundamentos, como muitos pesquisadores, antropólogos, etnólogos fazem, mas mostrando que a gente tinha uma visão de mundo, e também reivindicando ser sujeito dessa fala, porque a gente era objeto de pesquisa. Hoje, graças a Deus, a coisa tem mudado, mas até aquela época estudavam muito sobre a gente e achavam que a gente não tinha que falar porque era de dentro, quem tinha de falar era quem vinha de fora. Ninguém pode falar melhor de mim do que eu própria, entendeu? E aí comecei a fazer meu ativismo negro, daí veio o ativismo político. E comecei essa coisa de meio ambiente por defender o Parque São Bartolomeu, comecei a lutar como ambientalista. Sou ambientalista, qualquer um que é de candomblé tem de ser, porque a gente precisa. Ah! negócio de ecologia, não sei o quê. Isso a gente já era, índio já era, negro já era. Ficam inventando um bocado de nome pra coisa que a gente sempre fez, porque é da nossa essência. A gente precisa fazer. Qual é o índio que não é ambientalista, qual é o índio que não está ligado à ecologia? Se ele precisa, se o jeito de ele viver, de ele morar, de ele ser é mato, é natureza? Quem bota o nome são os caras da universidade, mas, naturalmente, todo índio, todo negro é ambientalista, é ecologista e sabe de ecologia. E sabe mesmo, mais do que, às vezes, quem inventou o nome. Porque é parte da vida da gente. E político por que? Quem é que não é? Todo ser humano tem de ser político. Se ele está vivendo no mundo, se ele é consciente, ele tem de fazer política. Necessariamente, não política partidária, mas tem que fazer política. Qual é o ser humano que está articulado, que está vivendo, que está consciente, que não é político? Tem que ser, tem que fazer política. Quando eu luto contra racismo, quando eu luto por direitos humanos, quando eu luto contra a falta de respeito, a intolerância, quando eu luto por isso tudo, eu estou fazendo política. É porque eu quero viver num mundo em que eu tenha deveres, mas em que eu tenha meus direitos garantidos, enquanto ser humano, enquanto cidadão. E eu acredito que os orixás querem isso pra gente. Porque nenhum ser humano foi posto no mundo para ser escravo, para ser oprimido, para ser submisso. Minha vocação é a vocação para a liberdade, eu tenho que ter liberdade. Liberdade de pensar, liberdade de agir, liberdade de falar. E, hoje em dia, eu fico muito triste, porque na década de 1970, a gente, negro, tinha às vezes muito mais disposição para lutar, para falar, para dizer essas coisas do que hoje. Hoje eu vejo muita gente que diz estar livre, mas está alienado, muito negro hoje alienado. Porque pra mim a pior escravidão é a escravidão da mente. Você pode estar todo amarrado, todo cheio de grilhão, lá vendo o sol nascer quadrado, mas se você tem liberdade no seu pensar você é livre, você não é escravo. E você pode estar andando cheio de coisa, com liberdade, mas se você é escravo do que os outros pensam, isso é a pior escravidão para mim. E eu não tenho vocação pra isso, e eu não ensino essa vocação para ninguém. Eu ensino vocação para se libertar. Você tem direito de pensar, dizer o que você acha, o que você pensa, o que você quer e ser diferente do que querem que você seja, porque a gente vive numa sociedade racista, numa sociedade babaca, elitista, que não vale nada, que sempre nos sugou, sempre roubou.

Como que a senhora vê a relação do cinema, das imagens, com o sagrado, com as religiões de matrizes africanas?
Acho o seguinte: tem um ou outro ligado a cinema que é diferente, mas ainda fica muito aquela coisa de estereotipar, aquela coisa dos efeitos. Muita gente faz essa coisa de filmar orixá e mostrar festa. Não é por aí. Sempre fui contra o que sempre fizeram com a nossa religião, de mostrar o exótico. Não ajudou em nada, porque a gente continuou por nossa própria conta. O que ajuda agora é ver o que aflige o povo de santo. O que atinge o povo de santo? Vai fazer cinema pra falar sobre isso. Porque nos atinge o que faziam antes: impedir que a gente faça o nosso culto, impedir que a gente tenha a nossa crença do jeito que a gente acredita. Vai fazer cinema sobre isso, fazer filme sobre isso. Vá defender, vá falar do meio ambiente e mostrar nossa posição, a importância disso para a gente. Tem que tirar o foco daquela coisa da magia e mostrar essa realidade, porque isso tem a ver com a gente. Isso é candomblé. Em vez de querer a imagem, bota essas realidades, faz filme sobre essas coisas, porque eu acho que vai ajudar muito mais a gente do que o que vêm se fazendo, que é botar o santo dançando, botar não sei o quê... não! Chega, já era isso, muito pobre. Vai falar de natureza, vai mostrar como estão derrubando árvores, como o poder público, em vez de plantar árvores, está derrubando árvores. Fala sobre isso que nos ajuda.




* Amaranta Cesar é professora e pesquisadora de cinema e audiovisual da UFRB, doutora em estudos cinematográficos pela Universidade de Paris 3 – Sorbonne Nouvelle, idealizou e é curadora do CachoeiraDoc – Festival de Documentários de Cachoeira (BA).


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