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Estado de Minas

BH consolidou tradição no gênero


postado em 15/11/2018 05:05

Belo Horizonte teve registrado seu primeiro LP com trabalhos de MCs em 1992, na coletânea Fábrica ritmos, produzida pelos DJs Joseph e A Coisa. Flávio Pereira, MC Pelé, Black Soul e Evandro MC eram alguns dos nomes presentes neste primeiro registro. Mas o primeiro álbum inteiramente dedicado ao rap foi Tráfico, morte e corrupção (Black White Discos), lançado em 1993 pelo grupo Black Soul, cujos integrantes eram, em sua maioria, moradores do Morro do Papagaio, Zona Sul da cidade. O disco, também produzido pelo DJ A Coisa, apresentou uma linguagem bastante particular, que não trazia semelhanças com o rap do Racionais, Câmbio Negro, ou Gabriel, O Pensador, mas teciam as críticas à sua maneira: “Falam em pena de morte, mas quem pode julgar se a lei aqui é do mais forte, só o pobre sofrerá injustiçado num país onde o negro nunca teve sorte, o sistema à frente é negligente, protege os ricos e que se dane a gente”.

O trabalho contou com uma musicalidade muito própria e uma construção textual que deixava muito nítida a identidade do grupo, evidenciando, já naquele momento, muito do que seriam os caminhos seguidos pelos MCs da capital. Dois anos depois, com o lançamento do álbum Efeito moral, essa linha ficou ainda mais perceptível e o grupo, formado por MC Lili, Rodrigo Pelé, Regis e Evandro MC, se tornaria um dos mais populares de Minas Gerais, evidenciando toda uma produção “periférica” que dava sinais perceptíveis de que ocuparia outros espaços.

Retrato Radical, um dos mais importantes grupos da história do rap mineiro, em seu segundo disco, O barril explodiu, também abordou o tema da periferia sob o ponto de vista de quem vive sua realidade, legado inegável do Racionais, que construíram sua base a partir de histórias e abordagens que, a princípio, só seriam compreendidas e aceitas por quem vem dessa mesma realidade. Radical Tee, MC do grupo, versa sobre essa escolha nas linguagens e abordagens na letra de Epidemia: “Aí maluco, é som de vagabundo, o lado sujo que ninguém ouviu”.

O rap produzido em Belo Horizonte também foi se abrindo, se renovando e apontando outros caminhos. O rapper Renegado já indicava sua busca por outras linguagens quando lançou o seu Do Oyapoque a Nova Yorque (2008), com produção de Daniel Ganjaman e participações de Funk Buya e Max B. O. O trabalho passeia pelo reggae e pelo rock, apostando numa roupagem mais orgânica, o que possibilitou a circulação de Renegado por palcos do mundo, literalmente. O tom, no entanto, é mais descontraído, embora seja firme no questionamento. “Conservadorismo, isso sim e bobagem, fala sério, o que é que te faz rapper de verdade. Fama, mulher, colete, platina, as quadrada, us ladrão! Cadê a ideologia? Não faço rap click, blá, blá, blá. Só mando ideia certa e pra quebrada melhorar.”

Ao lançar o álbum Heresia, em 2017, o também mineiro Djonga, fruto direta ou indiretamente de toda essa bagagem cultural que o estilo acumulou, ganhou espaço nas listas de melhores discos do país, estabelecendo um momento de reconhecimento ímpar na história do rap desenvolvido em Belo Horizonte. Nesse mesmo ano, o rapper belo-horizontino Matéria Prima lançou 2 Atos, o álbum em que apresenta sua faceta de cantor para além da desenvoltura como MC. O trabalho sinaliza a busca por outros espaços musicais e de circulação, como faz o grupo Família de Rua (com Ontem, hoje e sempre) e Neghaun (com Outro efeito).

Tamara Franklin, MC de Ribeirão das Neves, Região Metropolitana de Belo Horizonte, apresentou em 2015 o álbum Anônima, trabalho que lhe rendeu destaque no meio, sendo o primeiro trabalho de uma MC mineira a ganhar notoriedade dentro do estilo. “Mais uma preta marrenta, vinda das ruas barrentas, dos versos sujos e puros, melhor que as letra limpa e nojenta, caligrafia feia, rabisco nas pautas, normal, as folha voa cheias de rebarba da espiral. Em meio a tanta ideia, vivo por um triz, mas não tô na de crescer, tô na de firmar raiz, feliz quem diz e prediz as diretriz. Cicatriz dos meus desafetos, entre filial e matriz”, canta em Anônima.

É simbólico o ano de lançamento do disco, justamente num período em que as discussões sobre o papel da mulher da sociedade ganharam força. A música, claro, reflete essas lutas. Ainda sem álbuns gravados, mas já apresentando muita consistência, há outros nomes – Bárbara Sweet, Paula Ituassú, Kainná Tawá, Ohanna, Sarah Guedes, entre outras – que representam essa nova frente de inserção do rap na cidade, num cenário nacional em que os álbuns de artistas mulheres, como Flora Matos, Tássia Reis e Karol Conká, ocupam posições de destaque, trazendo novas construções e debates para o contexto do rap. (Roger Deff)


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