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Estado de Minas

Fabricador de mentiras

Em Corpo sem cabeça, pesquisador Bruno Guimarães Martins analisa a vida e a obra de Francisco de Paula Brito, editor negro do século 19 que fundou a Sociedade Petalógica


postado em 19/10/2018 07:00

Retrato de Paula Brito publicado em seu livro Poesias, de 1853, de autoria desconhecida(foto: Acervo Real Gabinete Português de Leitura)
Retrato de Paula Brito publicado em seu livro Poesias, de 1853, de autoria desconhecida (foto: Acervo Real Gabinete Português de Leitura)
Em tempos de pós-modernidade, quando a verdade é um assunto caro, contar a história de um mentiroso é essencial. No entanto, não é narrativa de um loroteiro qualquer que o professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG Bruno Guimarães Martins conta – mas de um notável. No livro Corpo sem cabeça, fruto de sua pesquisa de doutorado em estudos literários na PUC do Rio de Janeiro, Martins investiga a vida e a obra de Francisco de Paula Brito, conhecido como o primeiro editor brasileiro. Além disso, o pesquisador traz a história inédita da Sociedade Petalógica, cujos membros notáveis, além do próprio Paula Brito, são Machado de Assis e Visconde do Rio Branco. O grupo buscava “contrariar os mentirosos, mentindo-lhes”, como define o professor, e se organizava a fim de disseminar, no debate público da época, um ceticismo que, se não beira a beleza de um cinismo consciente de si, se vale da comédia para retratar o Brasil. O legado de Paula Brito apresenta dilemas bem contemporâneos, apesar de terem sido formulados no século 19. Em entrevista ao Pensar, Bruno Guimarães Martins fala sobre a mentira, a história e sobre a obra que publicou.

Como foi o seu contato com a história?
Uma coisa que, às vezes, é um ponto cego na nossa historiografia é o fato de que a imprensa é muito recente no Brasil. No início, isso me fascinava, de tentar entender como as coisas funcionavam antes, na época da colônia. E, principalmente, como essas formas de comunicação anteriores à imprensa interagiram no momento em que foram instaladas no país. Nesse contexto, há a figura de Paula Brito e, curiosamente, a Sociedade Petalógica. Uma das coisas fascinantes na figura dele é ele ser um intelectual negro e, outra, é a Petalógica – que vem de peta, mentira, relacionada às conversas do cotidiano. No meu mestrado, estudei a tipografia popular e essa experiência estética como escrita do povo e não exatamente a relação com a literatura. Então, esse tema me interessou. A pesquisa seguiu nessa veia de um editor num momento em que a imprensa se instaura pela primeira vez, pensando que ela poderia ter infiltrações desse sistema comunicativo não impresso e a própria Sociedade Petalógica.

A figura de Paula Brito desperta muito fascínio, principalmente, pela complexidade. Ele é uma pessoa que emana liberalismo, mas foi ligado a partidos conservadores. Como você  o entende?
Gosto mais de pensar o Paula Brito como uma pessoa um pouco mais liberal do que alguns pesquisadores determinam. Nos primeiros momentos, ele se denominou um “impressor livre” – justamente depois de ter sua tipografia atacada por uma facção a que desagradou, ao fazer uma publicação contrária a ela. Na época, existia um momento político muito exaltado, como há hoje. Paula Brito, no fim da vida, alinhou-se a um pensamento conservador, mas antes de tudo ele era um editor. Especialmente nos primeiros momentos, ele editou jornais de orientações políticas opostas. Penso ele mais como um mediador, de uma pessoa que conseguiu criar, de fato, isso que se chama de esfera pública literária. Um lugar em que as ideias pudessem ser debatidas. Ele não se filiava, em termos editoriais, a uma ou outra facção política, mesmo quando foi sócio do imperador, quando se alinhou aos conservadores, o mais importante é que ele publicava coisas que tinham críticas ao próprio império. É uma figura bem complexa e eu não gostaria de estabelecer, no final das contas, que ele tivesse uma identidade política X ou Y, mas que ele foi uma pessoa que transitou por tudo. Principalmente, ele criou condições para certos discursos meio jocosos, humorísticos, que têm muita identidade com uma fala popular, serem introduzidos na imprensa. Isso não é uma postura conservadora, apesar dos vínculos institucionais que ele teve com o Partido Conservador.

Dos jornais que editou, qual você citaria como exemplo disso?
Há um jornal, A Mulher do Simplício, ou A Fluminense Exaltada, cuja facção é mais identificada com o que chamamos de liberais. É certo que ele era, também, o redator dessa folha. Entendo que ele não era uma pessoa exatamente conservadora, pois direcionou essa folha para as mulheres. É uma formação completamente transgressora para a época, visto que a mulher, quando estava na política, ocupava os bastidores, mas nunca a esfera pública. Ao publicar esse tipo de periódico, ele estava, de alguma forma, incorporando uma personagem que estava fora do debate. Além disso, ele assinava as quadras do jornal como “a autora” ou “a redatora”, sempre no feminino. Paula Brito é uma figura bastante ambígua. Em termos da época, isso está sintetizado quando diziam que ele era um “mulato letrado”.

Como a imprensa nacional, pensada e feita no Brasil, foi importante e qual o papel de Paula Brito nisso?
O que marca o nosso problema identitário, que ainda é contemporâneo, é a dependência de um olhar externo – um problema de autorrepresentação. A imprensa coincide com a modernidade e, enquanto isso ocorria na Europa, no Brasil ela não existia. Um dos entraves dessa herança é que, quando olhamos para os historiadores da imprensa brasileira, todos estão obcecados com uma certa linearidade. Algo como “uma vez que nossa imprensa é tardia, tudo mais que ocorreu no Brasil é atraso”. Não quero contar uma história da literatura que seja feita a partir de cabeças, de uma árvore genealógica, mas penso em outro tipo de história possível – que precisa incorporar toda essa tradição que está fora da escrita, na história oral, de um saber tradicional. Isso, de alguma forma, acaba interferindo na maneira de pensar a literatura no Brasil. Se pensamos nessa lógica linear, seremos eternamente atrasados.

O que era a Sociedade Petalógica?
A Sociedade Petalógica é uma das novidades que meu livro traz. Penso que a forma de organização e a informalidade eram uma coisa meio anárquica, que não tinha um líder, um presidente. É uma coisa que brota e se apropria sem critério, que mistura coisas em procedimentos incomuns à época de articulação discursiva, de performance. Paula Brito publicou o primeiro romance brasileiro e, sendo o romance uma forma aberta, querendo ou não, vários comentaristas dizem que ele tem uma unidade. A petalógica é uma coisa que não pode ser categorizada como nada, mas, na verdade, é um lugar onde articula todos esses discursos artísticos. É um modo como faria um jornal, por exemplo, que é uma colcha de retalhos. Mas, enquanto o jornal tem uma hierarquização, na petalógica não existia uma busca por algo – era sem hierarquia, sem cabeça. Há registros das reuniões, alguns textos que foram lidos nas sessões, o tipo de polêmica que ocorria ali, que estão no final do livro.

Como você enxerga o conceito de verdade, ficção e essa busca de “contrariar os mentirosos, mentindo-lhes” que os petalógicos tinham?
Para os petalógicos, assim como no mundo contemporâneo, ficção e realidade caminham juntas. São indiscerníveis. Para eles, os mentirosos, bacharéis e todo esse discurso cientificista são aqueles que negam a ficção, a imaginação. Acredito que, ainda hoje, a ficção e a imaginação são formas de acessar a verdade e de contrariar esses mentirosos – que afirmam ter acesso ao verdadeiro, único. A aproximação da verdade por esses meios tem uma potencialidade infinita. Essa é a função da literatura, no final das contas. A petalógica é uma forma de debate com o discurso institucionalizado, seja ele o rei, o cientista, o padre, o deputado. Contra toda cabeça que quer comandar o discurso, a petalógica, a ciência da mentira, vai questionar.

Como é possível pensar isso no contemporâneo?
Em palestra recente, o historiador britânico Peter Burke falou sobre como falsear os acontecimentos é uma constante na história e não um fenômeno novo. Se você entende que, de alguma forma, isso não é só fruto da tecnologia, ou de um novo tempo, cria-se um padrão comparativo valioso para entender o contemporâneo. Em segundo lugar, a petalógica tem a ver com isso. Um exemplo é o site Sensacionalista, que traz notícias com um tom cômico, de exagero, mas que, de alguma forma, dialogam com o cenário político atual. A sociedade funcionava nessa mesma chave. Na primeira metade do século 19, a imprensa no Brasil era muito jovem e era muito mais provável que notícias falsas corressem livremente, um paralelo que se pode fazer com a tecnologia digital, que também é recente. Ainda temos, nesse meio, a possibilidade de boatos correrem soltos. Na época, a petalógica dava uma solução via humor. Há nela um grau de autorreflexão muito interessante, que falta hoje. Para combater a mentira, é preciso mentir também – no sentido de assumir a possibilidade de que aquilo que você diz não é a pura verdade. Hoje, há uma bandeira contra a corrupção, por exemplo, sem a menor autorreflexão. Não quer dizer que as pessoas tenham que ser corruptas, mas elas nem mesmo desconfiam de que podem ser parte disso. Essa situação gera um problema. A literatura, o ceticismo em relação à verdade e a própria petalógica podem, de alguma forma, conduzir uma reflexão e permitir que saiamos desse buraco em que estamos. As contradições precisam encontrar uma solução um pouco mais inteligente.


CORPO SEM CABEÇA –  TIPÓGRAFO-EDITOR A PETALÓGICA
•  De Bruno Guimarães Martins
•  Editora UFMG
•  430 páginas
•  R$ 54

Estagiário sob a supervisão de Pablo Pires Fernandes


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