Andreia Donadon Leal*
Mariana – MG
“Adolescentes brincam na rua encharcada de chuva. Algo atrai os aventureiros a chutar a água empoçada. Não há fila de carros na rodovia que passa ali perto. Não se escutam buzinas impacientes de motoristas estressados. A meteorologia prevê para os próximos dias: estiagem; tempo sem chuva e inundações. Dois deles batem a campanhia de uma casa. Saem correndo às gargalhadas. Finjo que não vi, e que nem conheço os coautores. Brincadeira antiga de criança: bater campainha na casa dos outros, e sair correndo.
Na nossa época não tinha câmera. Hoje tudo é denunciado pelos olhos de águia da tecnologia. Os adolescentes voltam correndo. O mais alto joga pedras nos vidros de uma casa. Os moradores estão viajando. Conheço-os de vista. O outro ri dizendo: ‘É isto aí, véi. Joga mais pedras!’. Não há qualquer possibilidade de haver desavenças destes com os vizinhos! Aventura gratuita? Por isso, quebraram os vidros? Preciso pensar no que vou fazer.
A imagem que mostra a previsão do tempo está coberta de nuvem. Vai continuar a chover amanhã, depois de amanhã e mais outros amanhãs. Minha roupa não secou! As toalhas e os cobertores têm cheiro de mofo. Abro as peças. Ligo o secador de cabelos. Esguicho um pouco de amaciante com água. O cheiro sobe às minhas narinas. Dobro as peças. Deixo-as sobre a cama. Salvo o vídeo dos adolescentes jogando pedras no vidro da residência vizinha. Não ficarão impunes. Os proprietários da casa danificada tomarão conhecimento do crime. Não se pode depredar o patrimônio de ninguém. Não se pode depredar seu patrimônio. Não se pode depredar!
Não se pode generalizar, mas há grupos de adolescentes que falam palavrões; brigam na escola, na rua e com os pais; fumam e bebem; mal sabem ler e escrever; matam aulas; respondem aos professores, aos pais, aos vizinhos; fazem gestos obscenos; falam que vão comprar armas e que agora é permitido porte de arma; falsificação de documentos; golpe em contas. Não sei o que será desses adolescentes! Penso na lei. Penso nos pais deles, que saem para trabalhar todos os dias. Não seguiram o exemplo deles, por certo.
Há uma expectativa de que a vida seja assim: filhos seguem os pais, filhos superam as ações positivas dos pais, filhos conquistam vitórias, filhos superam derrotas... Mas, há quebras de expectativas: filhos saem do caminho, vão pelas veredas da criminalidade; saem da escola; andam com más companhias; adquirem vícios. São presos ou morrem, prematuramente. Ligo a televisão. Vejo depredação nos palácios dos três Poderes, na capital federal. Desligo a TV. Só pode ser influência de minha mente assustada com a quebradeira dos vidros da casa ao lado.
Ligo o celular. A rede social está infestada de imagens dos ataques insanos em Brasília. Estouro de boiada! Loucos por todos os lados quebram vidros, mesas, armários, computadores, obras de arte; cospem palavrões; roubam, deitam e rolam. Vivíamos no porto seguro da democracia, em que sabíamos respeitar a vitória dada pela vontade da maioria! Parece que parte da memória social já se esqueceu da luta pela redemocratização, que pôs fim a 30 anos de brutal ditadura, e promulgou a conquista da Carta Cidadã de 1988, cujo artigo 5º traduz o que vem a ser os direitos do cidadão brasileiro no seu exercício de liberdade – verdadeiro tratado de direitos humanos.
Mas um pequeno grupo de fanáticos quer impor uma vontade através da força bruta! Depredar o patrimônio? Ferir, xingar, danificar, mentir, deturpar o ato criminoso? Que liberdade clamam diante do mau exemplo? Os pais dos adolescentes, cientes das esponsabilidades dos filhos, assumiram o dever de pagar pelos vidros quebrados, notificados por autoridades competentes, na aplicação da lei. O verdadeiro conceito de liberdade ao longo da história da filosofia e do direito sempre esbarrou em sua relatividade, mas não é tão difícil compreender que a imposição, o arbítrio e a brutalidade não combinam com exercício de liberdade. Não estamos condenados à barbárie, em que cada um pode fazer o que bem entender, impunemente. Parece que estamos a reconquistar também a harmonia entre os poderes, pois os três Poderes, parece-nos, compreenderam que independentes se regulam por freios e contrapesos, para que nenhum queira ser mais que o outro, como o executivo vinha se arvorando nos últimos anos. A paz pede passagem; que assim seja!”
* Mestre em literatura e doutoranda em educação