Jornal Estado de Minas

Dia da Visibilidade Lésbica - A cor e a dor de ser negra e lésbica


Flávia Tambor
Ativista do feminismo negro e dos movimentos negro e LGBTQIAPN+, educadora social pós-graduada em gestão de política pública de gênero e raça e cientista social

Mesmo após 27 anos de sua criação, o Dia da Visibilidade Lésbica existe em razão das inúmeras tentativas de apagamentos e negação da existência e dos afetos de mulheres lésbicas. O dia 29 de agosto, para nós, é um momento de reverberar para toda a sociedade nossa ânsia por estratégias coletivas de respeito e de bem viver, além de ser dedicado para discutir políticas públicas de combate à lesbofobia e de destaque à comunidade lésbica. A data foi escolhida em razão do 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), em 1996.




 
Sou mulher, retinta e declaradamente lésbica. Sou um corpo político e, desde muito nova, compreendi que faço parte de um grupo minoritário que precisa combater duas opressões de uma só vez. Matar dois leões por dia: o machismo e a LGBTfobia. Por isso, integrei por muitos anos, coletivos e movimentos sociais, como a #partidA, Rede de Mulheres Negras, Coletiva Pretas no Poder e Brejo das Sapas – espaço de reconstrução da autoestima, cuidado físico, emocional, psicológico, artístico, estético e de empoderamento de mulheres negras e lésbicas.
 
E para entender a especificidade da mulher negra e lésbica, é necessário compreender o conceito de interseccionalidade – que nos diz que a mulher negra, lésbica, cisgênero sofrerá o dobro de opressões do que uma mulher, branca, lésbica, cisgênero. É importante construir uma política baseada na identidade como aspecto de autoafirmação e empoderamento. Gênero e raça são marcadores sociais que não devem ser generalizados e as vivências de cada mulher devem ser respeitadas individualmente.
 
Quando nos organizamos em discursos, marchas, manifestações ou atos públicos, é para que toda sociedade se mobilize a ouvir, refletir, discutir, propor ações, dar espaço, promover um maior acolhimento familiar e social, respeito, dignidade, diversidade, livre exercício de nossa orientação sexual e identidade de gênero.




 
Sofremos com nossas vidas impactadas por intimidações psicológicas, violências física e psicológica, discriminações, baixa tolerância e sub-representação nos espaços sociais, discursos de ódio, lesbofobia e fatalmente até a última instância da barbárie que é o lesbocídio – o assassinato específico de mulheres lésbicas.
 
Esses crimes ofendem, desestabilizam, restringem nossas existências e nosso direito assegurado no Artigo 3 inciso IV da Constituição, que versa: “Constitui objetivo fundamental do Brasil, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.
É imprescindível que o Estado nos reconheça, o quanto antes, sempre promovendo políticas públicas, que atendam nossas reais necessidades. O Dia da Visibilidade Lésbica serve como instrumento para impulsionar gestores públicos nos âmbitos federal, estadual e municipal a propor, implementar e colocar nas ruas ações que auxiliem na inclusão real e efetiva para cada uma de nós.




 
Pessoas da comunidade LGBTQIAPN precisam de respeito, mas também de acesso a políticas públicas específicas de educação, saúde, emprego, além de serem contempladas pelo orçamento público. Atualmente a sigla contempla lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, queers, intersexuais, assexuais, pansexuais, não binários e o símbolo de que significa todas as outras orientações sexuais, identidades de gênero e expressões de gênero que não são abarcadas pelas letras da sigla principal.
 
A luta é pesada, cansativa, violenta para nós mulheres negras e lésbicas, que temos nossa orientação sexual desrespeitada, rejeitada, fetichizada e objetificada. Mas para todas nós que tivemos a coragem de abrir nossos armários e corações para desfrutar de nossos direitos garantidos, exigimos também que tenhamos mais chances de legitimar o ato entre duas mulheres como amor e cumplicidade. Nossa luta é por diversidade, igualdade, democracia e direito de existir.