Tainá Rodrigues
Sócia da Koru
A série Black Mirror estreou sua sexta e última temporada, e sua visão provocativa da nossa era continua a ser elemento instigante de incômodo e curiosidade. Muitas vezes perturbadora, a aclamada produção de ficção científica narra de forma única como pode ser o impacto da tecnologia em nossas vidas. Enquanto a trama nos envolve em histórias intrigantes de futuros não tão distantes, ela também nos convida a refletir sobre os desafios que os líderes de tecnologia enfrentam à medida que avançamos em direção a um mundo cada vez mais digital.
Nos cinco episódios dessa temporada final, o criador Charlie Brooker escolhe retratar histórias radicalmente diferentes em relação à abordagem e ao tom dado. Apesar disso, todas elas se encontram no fato de estarem relacionadas de forma intrínseca aos desafios enfrentados pelas lideranças de tecnologia.
Nos vislumbres de um futuro onde a tecnologia permeia todos os aspectos da nossa vida, desde dispositivos inteligentes até implantes cerebrais, esse avanço implacável coloca pressão sobre as lideranças de tecnologia. A exigência do mercado é uma ordem constante para que líderes se mantenham atuais, saibam identificar processos e contextos nos quais a tecnologia consegue atuar como ferramenta de modo a impulsionar o time e adaptarem seus negócios a essas mudanças imediatas.
Intrigada (e até mesmo angustiada) pelas narrativas, eu me peguei buscando soluções para tantos dilemas que não me parecem mais tão surreais assim. O avanço implacável da tecnologia é um fato inquestionável que, em ritmo acelerado, traz constantes inovações que nos surpreendem a cada dia. E na minha empresa, como posso fazer para não ser engolida ou engolido por essa avalanche de multi informações? É importante criar ambientes propícios à colaboração e ao desenvolvimento do time que vá além e proporcione espaços emocionalmente seguros, para que as pessoas se sintam confortáveis para experimentar, errar, opinar e discordar.
Isso é fundamental porque o medo dos avanços tecnológicos é real e tratá-los como inimigos não agrega, pelo contrário, segrega. As histórias da última temporada nos levam a refletir sobre o impacto negativo da tecnologia em nossa privacidade, relacionamentos e até mesmo na nossa própria humanidade. O medo em relação aos avanços tecnológicos está enraizado na incerteza do que o futuro nos reserva e nas possíveis consequências indesejáveis.
Assim, enquanto Black Mirror explora o lado obscuro da tecnologia e as consequências não intencionais de seus avanços, as lideranças da área devem levar em consideração essas preocupações. Nesse sentido, é extremamente importante desenvolver a capacidade de avaliar de forma crítica as implicações éticas e sociais dos avanços tecnológicos, antecipando possíveis consequências negativas.
Boas formas de agir nesse sentido são construir times diversos que agreguem em opiniões e visões de mundo; desenvolver uma cultura de responsabilidade ética que permita minimizar os riscos associados; seguir regulamentações e criar os próprios regulamentos internos para utilização das novas tecnologias; e desenvolver práticas e comunicação transparentes que garantam que seus produtos e serviços sejam projetados levando em consideração o bem-estar dos usuários.
E se falamos de diversidade, a exposição das mulheres aos avanços da inteligência artificial é outro tema recorrente em Black Mirror. A série retrata com frequência como as mulheres estão mais vulneráveis. Por exemplo, pela discriminação de algoritmos e sistemas de IA nos quais mulheres enfrentam preconceito e injustiça.
Essa reflexão da realidade nos lembra que as mulheres são desproporcionalmente afetadas pelos avanços tecnológicos e que as lideranças de tecnologia devem se esforçar para criar ambientes inclusivos e equitativos em suas organizações, como, por exemplo, com processos seletivos justos, algoritmos de busca que não priorizem termos no masculino, reconhecimentos faciais que sejam treinados para diversos perfis de rosto, em forma, tamanho, tom de pele, e traços que incluam todas as pessoas. Afinal, infelizmente, ainda há muito a se avançar quando falamos da capacidade das inteligências artificiais interagirem sem vieses com pessoas diversas, como mulheres, pessoas pretas e pardas e outros grupos minoritários.
À medida que a tecnologia continua a evoluir rapidamente é essencial que as lideranças estejam preparadas para enfrentar os desafios éticos, as preocupações com a privacidade e as questões de igualdade de gênero que surgem com esses avanços. Ao adotar uma abordagem responsável e inclusiva, as lideranças podem ajudar a moldar um futuro mais seguro e benéfico para todos, no qual a tecnologia é uma ferramenta utilizada para gerar impacto positivo no mundo fazendo dele um lugar melhor para todas as pessoas.