Jornal Estado de Minas

O impasse do século e a liberdade

Sacha Calmon
Advogado, doutor em direito público (UFMG). Coordenador do curso de especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular das faculdades de direito da UFMG e da UFRJ. Ex-juiz federal e procurador-chefe da Procuradoria Fiscal de Minas Gerais. Presidente honorário da ABRADT e ex-presidente da ABDF no Rio de Janeiro. Autor do livro “Curso de direito tributário brasileiro” (Forense)

O século findo foi rico em homens de formidável peso intelectual, em quase todos os ramos do conhecimento humano, sem menosprezar o peso anônimo de cientistas e formuladores, aos milhares, em todas as partes do planeta, até agora sozinho com sua gente no incomensurável universo. 




Para não delongar muito o assunto, é melhor nos concentrarmos em poucas áreas. 
 
No respeitante às ciências humanas, ninguém foi maior do que Freud. Na pura ciência, a teoria da relatividade de Einstein é indiscutível. No campo da sociologia, o pensamento de Karl Marx e de Friedrich Engels, ainda que remontando a dialética de Heráclito, botou a filosofia de pé, superando as subjetividades de Kant e de outros filósofos de "espírito", como foi o caso de Hegel e gerou ideologias políticas opostas. 
 
A política definitivamente sepultou os "nacionalismos" e os "racismos" superados o "arianismo" de Hitler e a "supremacia branca", na África do Sul e no interior dos EUA, a mais antiga democracia, nem por isso livre de sérios problemas de desigualdade e tensões raciais, inexistentes na velha Grã-Bretanha, a pátria mãe, no ponto exemplar. 
 
Nem se pode esquecer que o socialismo modificou-se deixando de lado a propriedade coletiva-estatal, e se amoldando ao princípio da igualdade e a elevar povos com destaque para a China, com seus 1,4 bilhão de habitantes só no continente asiático, pois existem cerca de 119 milhões deles no mar do Sul da China, em Cingapura e na Malásia. 




 
E, por último, mas não menos importante, hoje todos os países, exceto Cuba e Coreia do Norte, adotam o capitalismo e o livre mercado. 
 
Em termos geopolíticos, não há a oposição entre capitalismo e socialismo, mas deve-se olhar a contraposição dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e o conjunto de países aliados da Rússia e da China – essa última, segunda e para logo a primeira potência mundial, pela incrível capacidade "de fazer tudo" (além de possuir, juntamente com a Rússia, todos os minerais estratégicos necessários ao futuro da humanidade). 
 
Isso se diz sem desconsiderar as vantagens bioceânicas e o fato de não estar geograficamente na Eurásia, dos Estados Unidos da América, fortemente armados e ricos economicamente falando. 
 
Entretanto, o mundo consciente e inconscientemente deseja ardentemente a superação dessa bipolaridade e tudo conspira em favor do multilateralismo nas relações internacionais. O mundo que surgiu da Segunda Guerra Mundial, finda em 1945, mas seguida da Guerra Fria entre EUA e a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, e logo a China) já não mais se sustenta, em que pese o desarmamento positivo de duas muito belicosas nações (atores da primeira e segunda guerras mundiais, quais sejam Alemanha e Japão). 
 
O mundo em que vivemos – é bom não esquecer – vive um equilíbrio precário e irracional, não consentâneo com o futuro da humanidade fraterna que o segundo milênio deseja, qual seja o equilíbrio de foguetes e ogivas atômicas transcontinentais entre os EUA e a Rússia, as superpotências nucleares, a tal ponto de vivermos sobre o perigo de uma hecatombe planetária. 




 
Urge uma reformulação da ONU. São 198 nações a refletir os quereres da humanidade, fora o impasse belicoso e político das potências dominantes, aos quais não tem o direito de arrastar o resto do mundo para os seus interesses estratégicos, políticos e econômicos. Vale a pena nomeá-los: EUA, Alemanha, França, Grã-Bretanha de um lado, e Rússia, Cazaquistão e China do outro. 
O Brasil, a Índia e a Indonésia, pelo tamanho geográfico e de suas populações devem ser ouvidos pela ONU, bem como reformulado o "comando dos cinco" que detém o poder de veto (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido). 
 
A ONU, o Banco Mundial, conselho de segurança da ONU, a OMC, o FMI são organizações de 80 anos atrás. O concerto das nações está exigindo novos mecanismos e novas instituições para o mundo que segue se modificando, de modo a conduzir a humanidade para um futuro melhor e mais inclusivo, sob valores éticos ao invés de nacionais ou de blocos geopolíticos. 




 
A humanidade já tão sofrida, as guerras são as expressões mais sombrias da espécie humana, deseja a Parusia, ápice da visão cristã: o dia em que o lobo e o cordeiro juntos viverão, em paz e harmonia. 
Mas a Parusia, ou a paz simultânea no orbe terrestre, bem como a melhoria das almas individuais (as penitenciárias estão lotadas no mundo inteiro) necessitam que todos nós meditemos sobre o significado de nossas existências. Se por um lado, nos assemelhamos aos mamíferos superiores anatomicamente, por outro, pensamos (cogito ergo sum) e a razão de existir, com ciência e consciência, certamente tem um significado. É justamente o que uma religiosidade despida de dogmas, nos impele a descobrir num processo único de aclaramento. Eis a descoberta da paz interior que admiramos nos monges budistas. A vida eterna e a morte eterna são equivalentes... 
 
É preciso saber viver e conviver em paz e fraternalmente. “Ama a teu próximo como a ti mesmo,” disse Jesus!