Andreia Malucelli
Pró-reitora de Operações Acadêmicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR)
Os anos de 2020 e 2021 foram os mais difíceis das últimas décadas não apenas para a educação, mas para todos os setores da sociedade. Nesse período complexo, a tecnologia foi uma grande parceira das escolas e universidades, possibilitando que estivéssemos próximos mesmo com a necessidade de distanciamento físico. 2022 marcou a retomada total da presencialidade, que seguimos em 2023.
Durante a crise sanitária, fizemos tudo o que estava ao nosso alcance, mas o retorno, como era de se esperar, tem nos mostrado alguns desafios que a pandemia exacerbou, em especial de engajamento cognitivo (querer aprender), emocional (sentimento de pertencimento) e intelectual (atitude e senso crítico). O que esse contexto nos indica é que hoje, mais do que nunca, precisamos superar a ideia de um ensino puramente técnico.
Os dados que vêm do mercado de trabalho vão ao encontro disso. Desde 2018, todos os anos, o PUC Carreiras, setor que atende às demandas de estágios, empregos e carreiras dos estudantes da Universidade, e o Alumni PUC-PR, comunidade de egressos da Instituição, elaboram o Observatório de Carreiras & Mercado, a fim de compreender a trajetória profissional dos “filhos da PUC-PR”. Não significa, porém, que a pesquisa não possa ser encarada a partir de um olhar mais amplo, servindo como referência para todos aqueles que já estão no mercado de trabalho ou que em breve irão ingressar nele.
O que o estudo aponta é que as habilidades técnicas – as hard skills, como saber mais de um idioma, ter conhecimento de análise de dados, etc, aprendidas em cursos, treinamentos e workshops – ainda são, sim, valorizadas, mas as soft skills têm ganhado cada vez mais importância. Estas se referem às habilidades comportamentais e socioemocionais ligadas ao modo como o indivíduo age com o outro e consigo mesmo. Saber trabalhar em equipe, inteligência emocional, resiliência, boa comunicação e resolução de conflitos são alguns exemplos de soft skills. Mas diferentemente das hard skills, facilmente mensuráveis e ensináveis, as soft skills têm características mais subjetivas.
Segundo o Observatório de Carreiras & Mercado 2022, o interesse pelo desenvolvimento contínuo é o principal atributo avaliado pelas empresas no momento do recrutamento e seleção (16,81%), seguido pelo relacionamento interpessoal (15,76%) e pelo alto potencial de desenvolvimento (15,55%).
Além da valorização das soft skills pelas organizações, esses dados destacam a importância do lifelong learning, o aprendizado ao longo da vida, pautado pela educação contínua. Assim, a educação formal seria apenasuma parte da qualificação, pois o desenvolvimento intelectual e profissional deve ser permanente, indo além da conquista do diploma. Isso ganha ainda mais relevância se considerarmos a projeção de que 85% dos trabalhos que existirão em 2030 serão novos (de acordo com o levantamento Projetando 2030: uma visão dividida do futuro encomendado pela Dell Technologies ao IFTF – Institute For The Future).
Diante dessa conjuntura, temos como desafio integrar as competências humanas aos currículos, de forma interdisciplinar, bem como fomentar oportunidades de educação continuada. Mais do que tecnologia, essa será a verdadeira inovação do ensino.