O primeiro trimestre de 2023 foi desolador para dois biomas de extrema importância para o Brasil e, por extensão, para o mundo. Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais revelaram que o cerrado, área ambiental que cobre 25% do território nacional, sofreu o mais grave desmatamento nos primeiros três meses do ano. O mesmo instituto também registrou a devastação na Amazônia – a segunda mais profunda desde o início da medição sobre as agressões ao patrimônio ambiental brasileiro.
No caso do cerrado, a destruição atingiu 1.357,38 km² de vegetação. É um clarão maior do que a cidade do Rio de Janeiro, ou o equivalente a 1,3 mil campos de futebol. Apenas no mês de março, o desmatamento retirou do mapa 357,68 km², uma área superior à de Belo Horizonte. A voracidade dos desmatadores é proporcional ao tamanho das maiores cidades brasileiras. Com a diferença de que essas “metrópoles” naturais desaparecem em questão de semanas.
O cerrado compreende uma área que se estende por dez estados. Corresponde a 1,8 e 2 milhões de km² nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso do Sul, sul do Mato Grosso, oeste de Minas Gerais, Distrito Federal, oeste da Bahia, sul do Maranhão, oeste do Piauí e partes de São Paulo. O avanço da fronteira agrícola e a ocupação humana constituem as ameaças mais sérias contra a integridade do cerrado, região de rica biodiversidade e de importante convergência hídrica para diversos estados.
No caso da Amazônia, o desmatamento no primeiro trimestre alcançou a marca de 844,7 km² destruídos. No mês passado, 356,14 km² de floresta tropical foram dizimados. Os estados do Amazonas, Pará e Mato Grosso concentraram os piores índices de desmatamento, em mais uma mostra de que o Brasil está muito longe de conter o avanço criminoso dos agressores do meio ambiente.
Desde antes de tomar posse em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou, em diversas ocasiões, o compromisso de conter a sanha exterminadora daqueles que promovem o desmatamento. A troca de comando no governo brasileiro teve efeitos imediatos. Países europeus que contingenciavam recursos em favor do meio ambiente, receosos das políticas conduzidas pelo governo Bolsonaro, anunciaram a liberação de investimentos a fim de contribuir pela causa ecológica. Mas essa boa vontade se mostrou insuficiente.
Passados 100 dias de governo, a situação crítica do cerrado e da Amazônia evidencia que o governo precisa fazer mais. Sabe-se que foram diversas e profundas as ações do governo anterior para desvirtuar as políticas ambientais no Brasil. O ex-ministro e deputado federal Ricardo Salles foi preciso ao resumir, em reunião ministerial ocorrida em 22 de abril de 2020, em plena pandemia. Vale a pena resgatar a célebre frase. “Precisa ter um esforço nosso aqui, enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID, e ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”. O resultado está aí.
É consenso entre especialistas que, nos últimos quatro anos, abateu-se uma tragédia no Brasil em relação ao meio ambiente. Cabe então a este governo procurar restabelecer um arcabouço capaz de conter a calamidade que atinge o cerrado, a Amazônia e outras regiões que formam o repertório ambiental brasileiro. Nota-se que há algum esforço nesse sentido, e que as primeiras ações já tiveram resultados positivos, particularmente na mudança de postura de nações engajadas na sustentabilidade global.