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A fé que salva

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Sacha Calmon
Advogado, doutor em direito público (UFMG). Coordenador do curso de especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular das faculdades de direito da UFMG e da UFRJ. Ex-juiz federal e procurador-chefe da Procuradoria Fiscal de Minas Gerais. Presidente honorário da ABRADT e ex-presidente da ABDF no Rio de Janeiro. Autor do livro “Curso de direito tributário brasileiro” (Forense)

O cristianismo coloca o Logos no corpo de Cristo – a partir da visão paulina –, mas só após a destruição do Templo de Jerusalém (ano 70 d.C.). Vale dizer, um deus encarnado ou o "Filho de Deus", ele próprio salvará – bastando ter fé — cada ser humano, cada pessoa. A salvação da morte e a vida eterna agora estão ao alcance da mão (Logos e Verbo são uma só e mesma coisa).




 
Para os estoicos na Theoria, o sujeito cognoscente, através da filosofia do conhecimento, desvela o monotheos (o divino) na ordem cósmica, daí a prática das virtudes e de uma vida reta, na linha do que é justo, belo e bom. Ora, na medida em que o Theo ou Theon se torna pessoa (um Deus pessoal e vivo), a razão deixa de ser o caminho das virtudes e do conhecimento, substituída pela fé. A inteligência e a lógica cedem lugar à contemplação confiante de Deus e à prática de seus preceitos, e a salvação não está mais no autoconhecimento e nas boas escolhas. A salvação vem da graça. Bastará ter fé. "Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado" (Marcos, 16:16).
 
Desde a Antiguidade, é comum, por toda parte, os magos e sacerdotes de quaisquer crenças religiosas oferecerem objetos, comidas, incensos e sacrifícios de animais e até de pessoas aos deuses e deusas ou a um Deus, para aplacá-lo e obter graças. A tanto resolveu-se chamar, na teoria das religiões, de "fenômeno apotropaico".
 
No cristianismo, as teses da teoria apotropaica estão presentes. Deus Todo-Poderoso oferece o sacrifício de seu filho, encarnado no corpo de um homem, para lavar os pecados do mundo. Em troca, os homens de fé serão salvos da morte para ter vida eterna.




 
O fenômeno apotropaico tem sido negligenciado pelos estudiosos do cristianismo. Na última ceia, tal como descrita, Jesus oferta seu sangue e sua carne em troca da salvação dos homens, instituindo a eucaristia. Para muitos estudiosos, não foi um evento crístico, tendo sido acrescida tardiamente. Jesus, seguidamente, se reunia com os discípulos para comer, e a bênção do pão e do vinho (que os cristãos tomam como a instituição da eucaristia) sempre fez parte do costume judaico (cabalat shabat). Mas Jesus jamais reivindicou para si natureza divina. Referia-se a Deus como "o Pai".
 
Teria sido um pregador popular, contestador do credo oficial praticado no Templo: “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”, abominou lei mosaica do repúdio das mulheres pelos homens (assim era porque duros      eram os vossos corações); suspendeu o apedrejamento das pecadoras com um repto irrespondível: "Atire a primeira pedra aquele que nunca pecou"; por fim, menosprezou a hegemonia do Templo: "Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles", como, aliás, pensavam os essênios, cujas crenças o influenciaram. Jesus conversou aberta e confiadamente com uma mulher samaritana, à beira do poço de Jacó, contrariando a lei judaica. A frase "a salvação vem dos judeus" menosprezava os samaritanos e galileus. Negou-se a condenar a mulher adúltera: "Vai, se eles não te condenaram, eles que te acusam, muito menos eu o farei". Foi além, contra as prescrições alimentares dos levitas: “Não é o que o homem come que o faz impuro, mas o que a sua mente pensa e a sua boca diz". A transformação da sua morte em prelúdio de ressurreição terá sido obra de judeus greco-romanizados. Eles construíram o Evangelho de João – diverso dos sinóticos (Marcos, Lucas e Mateus) –, bastando ver o seu início. É um texto apologético, em defesa da fé.
 
A gnose greco-judaica transformará Jesus no "Cristo", no salvador, no "cordeiro de Deus" (Agnus Dei), imolado para agradar ao próprio pai (Deus-Pai) e, com isso, salvar a humanidade do pecado e da morte, pelo fenômeno da ressurreição, sem o que inexistiria cristianismo! A força da ressurreição abria as portas da salvação para todos os crentes. E foi por isso que Constantino viu no cristianismo uma maneira de dar ao Estado romano uma religião compassiva, politicamente importante para pacificar seu império multiétnico e multicultural, territorialmente imenso.




 
A condenação da filosofia e do saber, ainda que virtuoso, é total. Santo Agostinho gostava de ridicularizar os "inteligentes", em prol dos crentes e da fé dos simples. Coube a Tomás de Aquino sistematizar uma doutrina, com rigor grego, para o cristianismo crescente que avassalou Roma e o Ocidente. Era necessário ter uma teologia e um clero para interpretá-la.
Paulo, todavia, captou a mensagem básica de Jesus de Nazaré: Existe apenas um Deus e esse Deus é de todos os viventes. Essa é a razão de ser do cristianismo. (E, por isso, o chamado “velho Testamento” é uma apropriação indevida da “Torá” judaica.) 
 
No “Velho Testamento” o Deus é Javé. Ele se quer um Deus de uma só nação, de somente um povo, mais especificamente do povo judeu, pelo qual peleja de todas as maneiras. É de forma exata o reverso do Deus universal da cristandade.