O Brasil, felizmente, está de volta ao debate internacional. Depois de quatro anos de isolamento, fará sua reestreia na COP-27, que começa neste domingo, no Egito, com um tema prioritário para o futuro do planeta, o meio ambiente. O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, terá a missão de resgatar o protagonismo que o país sempre teve nas discussões sobre mudanças climáticas, deixando o negacionismo de lado e encarando os desafios que estão colocados. Não há dúvidas de que as próximas gerações estão em risco. É preciso, portanto, conter os estragos antes que se chegue a um ponto de não retorno, como tem ressaltado o primeiro-ministro de Portugal, António Costa.
A questão ambiental, porém, é apenas um dos eixos aos quais o Brasil precisa se reinserir. O mundo vive um momento dramático, caminhando para uma recessão, com inflação alta, juros apontando para cima, pobreza se disseminando e uma guerra longe de acabar. O país, por sua importância estratégica, seja como grande produtor de alimentos, seja pelo enorme potencial para gerar energia limpa, deve se sentar com os principais líderes globais com propostas concretas para que os percalços sejam superados com rapidez. Não foi por acaso que os chefes de Estado das maiores economias do planeta correram para saudar o resultado das eleições brasileiras e ressaltar que esperam um Brasil mais cooperativo.
É de grande interesse que a liderança brasileira seja restabelecida pela América Latina. A região é estratégica para a Europa, pois agrega alguns dos principais investimentos fora do Velho Mundo. As turbulências que marcaram os países latinos nos últimos anos acabaram por criar fissuras nas relações dos dois lados do Atlântico, alimentando incertezas que prejudicaram negócios e limitaram o crescimento econômico. O primeiro e, talvez, maior passo, poderá ser dado com a aprovação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que tem no meio ambiente um grande empecilho. Grande parte dos líderes europeus já expressou o desejo de ver tudo resolvido ainda em 2023.
Para os Estados Unidos, a liderança brasileira na América Latina é bem-vinda. Ainda que, historicamente, o gigante norte-americano tenha se mantido de costas para os países vizinhos ao Sul do Equador, o atual presidente, Joe Biden, demonstrou forte interesse em mudar as relações. Não será tarefa fácil, mas a aproximação entre as nações do continente é vital para os EUA, não apenas do ponto de vista econômico, mas, também, como contraponto à China, que tem fincado raízes na região. É possível que, antes mesmo de tomar posse, Lula viaje para os Estados Unidos para reforçar as alianças.
Fóruns internacionais, como o G20 e o Brics, devem retomar a relevância. Num momento em que a globalização enfrenta um grande teste, contestada do ponto de vista político por meio do fortalecimento da extrema-direita, as principais vozes entenderam que, sem um diálogo franco e aberto, que contempla o Brasil, a radicalização vai se acentuar, dada a insatisfação de uma parcela crescente da sociedade, que se sente excluída e ressentida. O momento, então, não é de isolamento, mas de união de forças para que os retrocessos não prevaleçam.
As duas próximas décadas serão marcadas por fortes mudanças estruturais no mundo, sobretudo por causa do rápido envelhecimento populacional. As demandas da população vão aumentar. Políticas conjuntas tenderão a se tornar mais frequentes para responder aos anseios sociais. O país fará parte desse complexo contexto. Sendo assim, não há tempo a perder. O mundo está com saudades do Brasil, de sua diplomacia atuante e técnica. É hora de trabalhar.