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Em busca da reeleição

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Advogado, coordenador da especialização em direito tributário da Faculdades Milton Campos, ex-professor titular da UFMG e UFRJ

Bolsonaro não representa o conservadorismo consciente que apoia as instituições democráticas, eleições periódicas e uma ética sadia, mas os setores autoritários que odeiam as investidas do trabalhismo e do lulismo em busca de compensações sociais para alcançar uma igualdade maior em um país estruturalmente desigual. Fernando Abrucio, sociólogo e professor da USP, nos auxilia a demonstrar e concluir as premissas ora estampadas. 



Sua força está em representar um eleitorado conservador que congrega de 20% a 25% do eleitorado brasileiro. Para tanto, entrou fundo no discurso religioso mais do que em 2018 e fez alianças com importantes lideranças evangélicas, comprando a pauta delas e oferecendo benesses públicas, regulatórias e orçamentárias. 

Além disso, tenta mostrar como fez o sistema ser mais regido por valores tradicionais e conservadores, como pátria, família e ordem. Se o sistema ainda não é perfeito, é porque ainda não lhe deram poder suficiente. E assim pedirá o voto dos eleitores. 

Só que o contingente mais nitidamente conservador do eleitorado não será suficiente para garantir a reeleição. Por essa razão, Bolsonaro abriu os cofres da União num volume inédito e transformou-se num populista distributivista que procura conquistar os pobres, os eleitores da classe C e a classe média – neste último caso, com a redução do preço dos combustíveis... 



O presidente vai contra toda a sua história, batendo de frente contra o seu próprio discurso de 2018, quando falava que era mais importante dar trabalho para as pessoas e que transferências de renda eram formas de escravizar as pessoas e de comprar votos. Bolsonaro chegou a ser o único deputado a votar contra a institucionalização do Bolsa-Família, que chamava de “Bolsa Esmola”. 

A chegada ao poder mudou-lhe a cabeça, especialmente durante o momento mais duro da COVID-19, quando o Auxílio Emergencial o salvou de se tornar um governante extremamente impopular. 

A chave de Bolsonaro é o Centrão e seus líderes principais, Arthur Lira e, sobretudo, Ciro Nogueira, hoje os verdadeiros líderes políticos do governo, embora não do movimento social bolsonarista. Eles mudaram completamente o planejamento da política econômica de Paulo Guedes e conseguiram, em alguns meses, convencer o presidente (que rifou o Ministério da Economia) e depois o Congresso Nacional de que seria preciso mudar a lógica fiscal do país para distribuir, em tempo recorde e por prazo limitado ao período eleitoral, uma tonelada de dinheiro à população, a fim de evitar a vitória de Lula em primeiro turno e garantir uma disputa acirrada no segundo turno eleitoral. 

Ainda há incertezas sobre o resultado desse transatlântico de recursos, especialmente os que irão para grupos nos quais Bolsonaro tem uma votação menor. Isso vai depender de como o bolsonarismo vai propagandear essa medida e, muito mais, de como será o discurso dos candidatos oposicionistas para os mais pobres. Além das transferências diretas de renda, a campanha de reeleição espera se beneficiar do apoio dos parlamentares que receberam vultosas verbas do orçamento secreto. Eles têm capilaridade por grande parte do país e podem ser importantes cabos eleitorais! A traição, contudo, é possível e provável onde Lula é favorito. 



O sucesso eleitoral bolsonarista é possível, mas provavelmente será como a reeleição de Dilma, com agravantes. A vitória deverá ser também por pouquíssima margem de votos em relação ao segundo colocado, numa campanha ainda mais virulenta e marcada pelo ódio do que foi o pleito em 2014, deixando o país bem mais dividido do que naquela época e com um legado de problemas gigantescos para o segundo mandato. 

Se Bolsonaro conseguir o segundo mandato, ele tem um projeto muito claro: reforçar o poder presidencial frente aos outros Poderes, à Federação e à sociedade. O objetivo maior disso é estabelecer um projeto autocrático de prazo maior do que quatro anos. 

O segundo mandato geralmente é mais difícil do que o primeiro, só que dessa vez será tão ou mais complicado do que o dia seguinte da reeleição de Dilma. Primeiro porque, ao abraçar o populismo distributivista como fez agora, Bolsonaro não poderá parar: terá que continuar a pagar o Auxílio Brasil no valor atual e provavelmente será pressionado a aumentar o saco de bondades porque a economia no ano que vem cairá em recessão. Os juros continuarão altos por um bom tempo, o desemprego tenderá a aumentar, a situação internacional deve piorar e uma saída para continuar gastando seria aumentar impostos, algo bem difícil perante o eleitorado bolsonarista raiz. 

Há chances de a ressaca ser grande no ano que vem depois da esbórnia de 2022. É neste contexto que o Centrão cobrará a sua fatura: só interessará a esse grupo continuar como parceiro do bolsonarismo se ele for capaz de entregar um retumbante sucesso eleitoral nas eleições municipais de 2024.