Jornal Estado de Minas

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Unaí: em memória de nosso futuro




Túlio de Souza
Advogado e vice-presidente do Conselho 
Empresarial de Assuntos Jurídicos da ACMinas

Guimarães Rosa fez do sertão, lugar esquecido, uma representação dos universos e da humanidade. De seus personagens, ora sofridos, ora violentos, temos uma história de civilização, de choque de culturas e de usos, de tudo aquilo que resulta na formação de um povo, da gente brasileira.





A obra de Guimarães Rosa conta de maneira romântica, quase mitológica, como foi nossa “marcha para o Oeste”. A conquista do território pelo homem, deixando para trás o litoral em busca de um pedaço de terra onde prosperar, a exemplo do que se deu nos Estados Unidos 100 anos antes – há certa semelhança entre os bandos de jagunços roseanos e os bandos de foras da lei dos cultuados filmes de faroeste.

A apoteose de “Grande sertão: Veredas” é a luta de Riobaldo Tatarana e Hermógenes, o Cão, a fim de se restaurar não a lei, pois lei ali não existia – “Sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus, mesmo, se vier, que venha armado...” –, mas a dignidade daqueles que viviam ameaçados pela ira de Hermógenes.

E foi no sertão de Unaí, distante uns 200 quilômetros do Liso do Sussuarão – a travessia de Guimarães Rosa – que em 28 de janeiro de 2004 ocorreu um episódio infame da nossa “marcha para o Oeste”: quatro auditores do Ministério do Trabalho foram assassinados por conta do seu ofício, que era devolver a dignidade a trabalhadores para ali levados para trabalhar, e mantidos em condições análogas à escravidão.





Em pleno século 21, somos surpreendidos com fatos de séculos passados: pistolagem e escravidão. E o que pensávamos ter ficado para trás se colocava diante de toda sociedade, um paradoxo. A pistolagem sob o império da Constituição e do Estado de direito.

E o Brasil é assim: não faltam episódios onde nosso presente luta com o futuro, para permanecer no passado, e na maioria das vezes a violência e o desprezo pelas instituições são marca desses episódios.

Mas Unaí não deve ficar na memória pelo episódio nefasto, mas como o lugar onde se concretizou a obra de homens que pensaram o futuro do Brasil: Unaí representa a conquista do cerrado pelo homem brasileiro, aquilo que um dia foi projeto de João Pinheiro, Teófilo Otoni, Bias Fortes, Luiz de Queiroz e Alysson Paulinelli. Foi a agricultura do cerrado, projeto acalentado desde o final do século 19 e materializado em finais do século 20, em cidades como Unaí, que fez o Brasil a potência agrícola mundial e que definitivamente incorporou ao país o “Brasil Profundo”, há tanto esquecido.





Mas não adianta sermos uma potência agrícola à custa da dignidade alheia, e do desrespeito às leis. Vai mal o país onde poucos prosperam à custa da espoliação alheia, pior fica quando estes mesmos que espoliam fazem isso porque se acham a lei.

A Chacina de Unaí nos mostra que a civilização brasileira é uma obra inacabada, ainda somos travessia, e como tal devemos seguir com esperança e coragem: “E nisto, que conto ao senhor, se vê o sertão do mundo. Que Deus existe, sim, devagarinho, depressa. Ele existe – mas quase só por intermédio da ação das pessoas: de bons e maus. Coisas imensas no mundo. O grande-sertão é a forte arma. Deus é um gatilho?". (Guimarães Rosa)

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