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Estado de Minas EDITORIAL

Explicação incompleta


12/01/2022 04:00

A inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou o ano de 2021 com um índice duas vezes e meia maior do que a meta de 3,75% fixada para o ano e muito acima do teto de 5,25%. O índice de 10,06% é ainda o maior registrado desde 2015, ano de crise econômica aguda no governo da ex-presidente Dilma Roussef, que levou o país à maior recessão da história. Naquele ano, a inflação chegou a 10,67%.  Assim como em 2015, agora o presidente do Banco Central teve que enviar uma carta ao ministro da Economia para explicar o não cumprimento da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e a justificativa incluiu o fato de a inflação ser um fenômeno global, em função dos efeitos da pandemia de COVID-19 sobre os preços, e a crise hídrica 

Em parte, está certo, porque os desarranjos nas cadeias produtivas e o aumento da demanda com a retomada das atividades pressionaram os preços em todo o mundo e levaram países como Estados Unidos e Alemanha a registrarem as maiores taxas de inflação em décadas. Em parte, há razão na justificativa, mas não totalmente. A explicação para os aumentos de preços é tacanha diante de altas expressivas em produtos nos quais o país é grande produtor e/ou exportador, como etanol (alta de 62,23%), café moído (50,24%), frango em pedaços (29,85%) e em itens que têm preços administrados, como gasolina (47,49%), óleo diesel (46,04%), gás de cozinha (36,99%) e energia elétrica residencial (21,21%), para lembrar de alguns. Se em parte a explicação está num fenômeno global, há também uma parcela de responsabilidade do governo, que não adotou nenhuma medida para mitigar os reajustes expressivos de preços que corroem a renda da população, que não tem os salários reajustados na mesma proporção. A inflação empobrece a sociedade.

O Ministério da Economia deixou o combate à inflação a cargo exclusivamente da política monetária do Banco Central, que dispõe apenas da elevação das taxas de juros. Ao aumentar a Selic, deveria haver impacto sobre o câmbio e sobre a demanda, desaquecendo a economia por um lado e favorecendo a atração de dólares para o país, reduzindo assim a desvalorização do real frente à divisa dos Estados Unidos. O câmbio não cedeu e a gasolina e o óleo diesel vão ficar mais caros a partir de hoje. Ou seja, em 2022 a inflação continuará alta, embora com ritmo de aceleração menor. 

A inércia do governo diante dos aumentos de preços explica em parte o estouro da meta em quase 100% no ano passado. Não se advoga intervenção em preços ou travas na economia, mas é preciso lembrar que é do governo a responsabilidade de proteger os cidadãos, o que inclui resguardar o poder de compra da população. A maioria dos trabalhadores não conseguiu repor a renda, já corroída pela inflação. Para conter a alta dos alimentos, o governo poderia reativar estoques reguladores, que, sim, tem custo para os cofres públicos, mas seria esse um preço a se pagar para conter os aumentos de produtos agrícolas, mantendo parte da produção hoje destinada ao mercado externo nos armazéns do país para abastecer a demanda doméstica.

E no caso dos combustíveis, mais do que culpar outros governos ou estados pela alta dos preços, ou mesmo enxergar na Petrobras o problema, o governo do presidente Jair Bolsonaro e sua equipe econômica deveriam buscar uma alternativa para se amortizar a necessidade de reajuste dos preços nas bombas, o que pode ser feito com um fundo constituído com os próprios dividendos que a estatal distribui anualmente para o sócio majoritário. Esses recursos serviriam para amortecer as oscilações do preço do petróleo no mercado internacional e do dólar. Esse fundo permitiria a estabilização dos valores. É preciso que o governo se mova para frear a inflação, um imposto pesado para a parcela menos favorecida da sociedade.


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