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Doido ou doído demais?

"Errar é humano; já viver repetindo os mesmos erros... É doído demais!"


01/01/2022 04:00 - atualizado 31/12/2021 14:12

João Dewet Moreira e Carvalho
Engenheiro agrônomo

Criança é trem-doido demais! Expressão que soa apenas como mais um dos gracejos das Alterosas. Na verdade, é mineirice das boas! Aliás, inquestionável! Afinal, a cada instante, o inquieto espírito infantil de travessuras manifesta e se renova em artes nunca vistas ou imaginadas. Deixando todos maravilhados com a potencial capacidade criativa em seres tão “imaturos”, mas repletos de imensa fonte de energia sob o comando de neurônios nada discretos, ao contrário, transbordantes e explosivos, como os baianos trios elétricos ou os frevos pernambucanos.
 
No entanto, as furiosas reações repressivas que comumente se vê são tão somente ignorância nos fanáticos obscurantistas posando de sabedoria. E, assim, penalizando, com severas surras, tais traquinagens. Ao reprimir os sinais luminosos emitidos da localização das melhores perspectivas de futuro. Ao castrá-los com o uso de superstições pedagógicas arcaicas.
Afinal, eles não admitem essas “doidices” em seres ainda tão novos. Pois, entre a malta dos totalitários sobeja os filhos de chocadeira.  Ou seja, os criados como pintinhos de granja, nos claustros do materno calor das lâmpadas artificiais, cujas máscaras enganosas disfarçam a ferocidade atroz de suas faces fascistas, na defesa de insustentáveis ideologias e procedimentos sociais questionáveis.
 
Por isso, o “herege”(sic) escrevinhador aconselha aos dessa casta não seguir na leitura dos próximos parágrafos. Por quê? Pois trata-se de um causo grotesco ao cercadinho desses prisioneiros da falsidade. Inúmeros, inclusive, considerados donos de “renomados diplomas”, aliás, aos quais o inglês Samuel Jonhson relacionava como enganosas pílulas douradas vendidas para disfarçar notórios “micos” dos circos dos horrores humanos.

O causo se deu assim: Menino inquieto, Zé Mané era arteiro de primeira.
Veio morar na cidade aos 8 anos, a fim de cursar o primário. Tudo na esperança que “virasse gente”. Pois, na roça, desde a madrugada até o anoitecer, o bicho carpinteiro lhe comandava às traquinagens. Entranhou, no início, os modos do “povo da rua”, mas logo se adaptou. Para surpresa de todos, destacou-se na sala de aula, com uma curiosidade insaciável.
Pouco a pouco, sua companhia passou a ser disputada. Dois anos e meio depois, quando beirava os 11 anos, foi convidado por um coleguinha rico para estudar na casa dele. Assim que chegou, a mãe do colega, curiosa de tanto ouvir falar do inquieto roceiro, resolveu ter um dedo de prosa com ele. Enquanto conversava com a importante madame, Zé Mané admirava a rica decoração da sala. Algumas plantas penduradas no alto derramavam suas folhagens quase rente ao chão. À princípio, estranhou, pois, pensou ser mais uma das maluquices dessa gente citadina e rica. A anfitriã lhe esclareceu: “São samambaias choronas. Plantas decorativas, de difícil cultivo, estão na moda e caríssimas!”. Zé Mané, sem jeito, perguntou-lhe o valor. Quando ouviu o quanto valia cada uma, admirou-se de alguém dar tanto dinheiro por uma planta que “só tinha folhas.... nem fruto dava!”. No entanto, mais intrigado ficou quando, dias depois, tomou conhecimento que a moda das samambaias choronas havia se tornado uma febre naquele início dos anos 70. Muitos na cidade tinham várias delas. E as donas de casas que ainda não as possuíam, sonhavam comprá-las. “Povo besta”, pensava Zé Mané, “Nem fruto dá!”. Os dias se passavam e Zé Mané tornou-se carrancudo, vivia repetindo: “Nem fruto dá! Povo besta!”.
 
Vieram as férias. Zé Mané, ainda carrancudo, voltou para a roça. No trajeto, os balanços do carro, devido aos constantes buracos da estrada de terra, lhe iluminaram a mente. De repente, começou a rir e vocalizar: “Eu sabia que já havia visto aquela praga! Eu sabia!”. Parecia milagre, a partir daquele instante, a alegria havia retornado as faces.
 
Assim que chegou na roça, trocou a roupa da viagem. E chamando os dois filhos do vaqueiro, desceram para o brejo. Ao atingir o redor da represa, já havia contado aos parceiros de travessuras dos seus muitos feitos na cidade. E, por último, a ideia que acabara de ter, durante a viagem. O que deixou os dois amigos de Zé Mané desconfiados, pois custavam acreditar que o povo da rua era de fato tão besta a ponto de comprar caro aquelas plantas que ninguém na roça dava o mínimo valor. Antes, considerava pragas e vivia capinando-as, pois, provocavam abortos nas vacas prenhas.
No entanto, nada demovia o obstinado Zé da recente ideia comercial.
Principalmente, ao visualizar e comprovar a abundância de samambaias na área. Zé Mané, encantado com a riqueza até então desperdiçada na roça, ergueu suas mãos e agradeceu aos céus a imensa bênção recebida, que a deusa fortuna lhe havia presenteado, colocando-a no seu caminho ainda infantil.
 
Anos depois, no fim da adolescência, volta e meia Zé Mané quedava-se quieto, ao olhar as profundas cicatrizes das tantas surras recebidas por ter convencido inúmeras madames da cidade de que suas samambaias do brejo, vendidas por ele pela metade do valor, eram de fato as caríssimas choronas e que logo suas folhas desceriam do alto ao baixo. Mas que o tempo – senhor de todas as provas – revelaria ser apenas parentes pobres e totalmente sem valor, pois não cresciam quase nada, bem diferentes das samambaias choronas. Sem contar da imensa vergonha que passou por ter que devolver, meses depois, cada centavo ganho na negociata.
 
Há práticas próprias dos tempos de criança que devem ser evitadas na maturidade, pois deixam de ser sinais luminosos de melhores perspectivas futuras, tornando-se sinais de enganos de pessoas a serem evitadas. E, quando não identificadas a tempo, o preço a ser pago pelo engodo sofrido é alto demais.
A pejorativa acepção do termo mané não deveria “caber” em ninguém. Muito menos em 215 milhões de “Zés e Marias”, honrados e trabalhadores, deste imenso Brasil. Afinal: “Errar é humano; já viver repetindo os mesmos erros... É doído demais!”.


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