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Dar conta de si

A busca pelo autoconhecimento precisa ser cotidiana, pois contribui para qualificar desempenhos e, assim, bem cumprir missões e responsabilidades


19/11/2021 04:00 - atualizado 18/11/2021 23:03

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte.Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Dar conta de si é dom e tarefa que remete ao alicerce sustentador de cada pessoa, no exercício de suas muitas responsabilidades e, particularmente, na competência de ser elo da fraternidade solidária e universal. Sabe-se que, em qualquer etapa da vida, a capacidade para dar conta de si é determinante nos êxitos ou fracassos. Compreende-se, assim, que essa competência é substrato indispensável para o adequado exercício da cidadania. Quando o ser humano não consegue dar conta de si são ampliados descompassos relacionais, em diferentes âmbitos e níveis. Eis, pois, uma causa da crescente violência e da aridez existencial dos que não conseguem encontrar sentido na vida. Não dar conta de si é caminho para descompassar relações familiares, institucionais e sociais. Por isso mesmo, é preciso cultivar essa competência, a partir de experiências relevantes com força de modelagem. Reconhecer que dar conta de si é dom remete o ser humano a Deus e, consequentemente, ao cultivo da espiritualidade.
 
Sem experiências relevantes e o adequado cultivo da espiritualidade prevalecem os muitos vazios existenciais, responsáveis por patologias que incidem muito negativamente na vida humana. É preocupante o nível de adoecimento da humanidade, na contramão do desenvolvimento científico e tecnológico. A multiplicação dos cenários vergonhosos de desigualdade social, provocados por interesses egoístas que desconsideram cláusulas pétreas essenciais ao bem comum, comprovam esse adoecimento. Os prejuízos são ainda mais graves quando aqueles que têm responsabilidade na defesa do bem comum não dão conta de si e, consequentemente, não conseguem desempenhar adequadamente as suas tarefas. No horizonte da saúde, na vida em sociedade, dar conta de si é essencial e urgente. Uma prioridade que pede investimentos na educação, no humanismo integral, em legislações apropriadas e, especialmente, na espiritualidade.
 
Capítulo essencial na busca pelo dom de dar conta de si é a sabedoria sintetizada na expressão filosófica “conhece-te a ti mesmo”. A busca pelo autoconhecimento precisa ser cotidiana, pois contribui para qualificar desempenhos e, assim, bem cumprir missões e responsabilidades. A carência de autoconhecimento gera descompassos e irracionalidades que tomam o lugar de entendimentos e de ações que promovem o bem, a verdade e a justiça. Entre esses descompassos está a mistura confusa e prejudicial de escolhas ideológicas com a vivência da fé. E a avalanche de adoecimentos se avoluma, criando um verdadeiro caos. Torna-se urgente buscar referências capazes de promover o autoconhecimento e capacitar cada pessoa a dar conta de si, sublinhando a importância da espiritualidade nessa tarefa.
 
A espiritualidade, embora possa ser, equivocadamente, considerada um campo específico da vida social restrita ao âmbito religioso, é caminho indispensável para alcançar o equilíbrio e a saúde. Não é, pois, uma exclusividade dos que professam uma confissão religiosa. Sem a vivência da espiritualidade não se alcança a essencialidade de cada ser humano. Consequentemente, torna-se mais difícil o exercício da tarefa de dar conta de si. Cada pessoa, na sua singularidade, tem uma dimensão profunda que remete à sua origem, ao fundamento de sua razão de existir, onde é possível encontrar o sentido de seu viver. A vivência da espiritualidade oferece a cada pessoa a oportunidade de voltar-se para essa dimensão existencial, aprendendo a enxergar as circunstâncias do cotidiano a partir da luz que vem de Deus, fecundando-se pela força do seu amor maior. Viver a espiritualidade, que requer o indispensável engajamento social e político, se torna prioridade para qualificar o ser humano que precisa dar conta de si. Buscar autêntica espiritualidade, para além de “devocionismos” e superstições, é compreender e experimentar o que sabiamente diz Santo Agostinho: “Não há ninguém neste mundo que não seja viajante. Durante a viagem sofre-se as consequências das ondas e tempestades. Mas o importante é não sair da barca”. Para dar conta de si, o segredo é encontrar a bússola no coração de Deus.


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