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Estado de Minas

Somos negros e negras o tempo inteiro. Não só em novembro


16/11/2021 04:00

Ricardo Castro
Professor de psicologia e serviços sociais da Estácio Belo Horizonte, pesquisador do Núcleo Conexões de Saberes da Fafich/UFMG
ilustração sobre racismo
(foto: Quinho)

Qualquer um que se encontra dentro do debate e das práticas acadêmicas antirracistas, bem como do conhecimento e da ação política do movimento negro, no Brasil, sabe que novembro é um mês em que nossas agendas se lotam de pedidos e demandas para o debate do (anti) racismo no país. Fato é que, no Brasil, intelectuais e militantes antirracistas se movimentam há mais de 500 anos e ao longo do ano inteiro para combaterem o Mito da Democracia Racial e, ao mesmo tempo, construírem saídas às desigualdades sociais brasileiras cujo elemento racial se mostra inequívoco.

Com isso, quero dizer que onde há desigualdade no Brasil, habita a ideia de que determinados corpos, saberes, experiências, fenótipos, religiões e cosmovisões são inferiores. No caso da colonização e da escravidão luso-brasileira, povos ameríndios e populações afro-brasileiras foram associados ao que há de pior e mais degradante na experiência de ser gente nesse mundo e, por isso, seus corpos e conhecimentos puderam servir a um projeto econômico-político de invasão, expropriação, estupro e violação de todo e qualquer direito civil e político. Paralelamente, todos esses povos sempre recusaram o extermínio como horizonte de vida e se colocaram sempre contra a naturalização desse sistema racista que os desumanizava em prol da acumulação do capital europeu. O que não esqueçamos: aconteceu com a anuência da Igreja Católica e de Estados Modernos ditos liberais. Liberdade pra quem?

O importante, aqui, é pensarmos que o racismo ao modo brasileiro não foi uma aleatoriedade. Foi um projeto orquestrado para um modelo econômico e cultural em que a Europa se tomava como centro do mundo e toda diversidade e diferença, no globo, foi desvalorizada e transformada numa desigualdade mundial que nos acompanha até hoje. Esse sistema brutal, mas, extremamente, sofisticado em seu propósito, acompanha a história de formação nacional do Brasil, no entanto, institucionalmente, a nação brasileira demorou a se responsabilizar por esse projeto de morte das populações não ocidentais. A partir dos anos 2000, em função de uma série de pressões e acordos do movimento negro e de políticas internacionais, o Brasil assume o racismo como um problema público e uma série de políticas de ações afirmativas começam a tomar corpo no campo legislativo, cultural e educacional.

Esse histórico que, durante muito tempo nem sequer foi considerado pelo Estado brasileiro um problema público e de responsabilidade de toda a população, hoje encontra um terreno mais legítimo nas instituições do Estado e nas organizações privadas. No entanto, precisamos estar atentos a algo: a quem serve um discurso de diversidade e inclusão racial que se inicia 1º de novembro e se finaliza quando avançamos para dezembro? 

O racismo, no Brasil, é um trauma subjetivo, social, econômico e cultural que atravessa todas as instituições e as relações cotidianas. A semântica racista brasileira não dá sossego e não consegue ser pausada nem por um segundo sequer. Somos racistas o tempo inteiro e a todo segundo. É preciso recusar, nesse sentido, o antirracismo como prática “humanitária” ou como um favor, ao final do ano, e compreendê-lo, pelo contrário, como uma prática constante, inesgotável e radical de reconstrução de um novo projeto de Brasil. Isso só será possível quando assumirmos que não há como falar de Brasil sem se referir à violência endereçada aos negros e às suas lutas por uma vida mais digna nesse território. Um mês de conscientização por ano é incapaz de fazer o Estado brasileiro se responsabilizar por esse projeto de degradação que ele sustentou por tanto tempo.

Isso exige de nós, portanto, um enegrecimento do Brasil como um todo. De um Brasil profundo de séculos de humilhação racial e, ao mesmo tempo, de revoltas antirracistas. O que, definitivamente, não pode jamais ser resolvido em um mês. O Brasil é negro há mais de cinco séculos e durante o ano todo. Novembro é muito pouco. É preciso mais. 


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