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Estado de Minas editorial

Mais uma esperança

Após o Nobel de Gurnah, é importante destacar a força da literatura no mundo real


13/10/2021 04:00



A concessão do Nobel de Literatura ao escritor tanzaniano Abdulrazak Gurnah, de 72 anos, é mais uma esperança no horizonte de tragédias e incertezas da crise migratória de populações africanas para a Europa. Mesmo em caráter simbólico, espera-se que o prêmio tenha alguma influência para provocar mudanças nesta triste realidade no enfrentamento das políticas xenofóbicas e supremacistas brancas. Afinal, Gurnah não vive na África, aposentou-se recentemente como professor de literatura inglesa e pós-colonial na renomada Universidade de Kent, no condado homônimo, perto de Londres, e vive em Brighton, no sul da Inglaterra.

É o primeiro autor negro africano a vencer o mais importante prêmio da literatura mundial depois do nigeriano Wole Soyinka, agraciado em 1986. E é justamente reconhecido como especialista na obra de Soyinka e do queniano Ngugi wa Thiong'o, que era considerado um dos favoritos este ano. As premiações de autores africanos indicam reconhecimento da academia sueca à importância do debate sobre a questão migratória, o grande foco dos seus livros.

Após receber a honraria, Gurnah pediu à Europa “outro olhar” sobre os imigrantes africanos. “As questões que apresento não são novas. Mas se não são novas, são fortemente influenciadas pelo particular, pelo imperialismo, pelo deslocamento, pelas realidades do nosso tempo. E uma das realidades do nosso tempo é o deslocamento de tantos estrangeiros para a Europa”, afirmou ele em entrevista ao The Guardian.

O escritor vive na Inglaterra desde os 21 anos, para onde se mudou nos anos 1960. Foi quando iniciou sua carreira de romancista, para expressar o que passou a sentir na própria pele. “Comecei a escrever casualmente, com uma certa angústia, sem um plano em mente, mas com pressa e vontade de dizer algo mais. Em grande medida, teve relação com a sensação esmagadora de estranheza e diferença que senti ali (Londres)”, disse ele também ao diário britânico. Seus três primeiros livros (“Memory of departure”, “Pilgrims way” e “Dottie”), inéditos no Brasil, tratam exatamente das experiências dos imigrantes no Reino Unido daquela época.

O cerne do universo literário de Gurnah trata de ficção construída com base em dura realidade de séculos: o colonialismo e a escravidão. E chama muito a atenção um trecho da entrevista dele quando afirma que os migrantes “não chegam com as mãos vazias”, são “pessoas com talento e energia”. Essa afirmativa põe por terra um preconceito enraizado há séculos, que inclusive se perpetua no Brasil até hoje: os africanos que para cá vieram serviam apenas para trabalhos braçais, eram pouco melhores do que animais.

Essa não era a realidade. No segundo volume da trilogia “Escravidão – Da corrida do ouro em Minas Gerais até a chegada da corte de dom João ao Brasil”, o escritor e jornalista Laurentino Gomes também derruba esse preconceito persistente ao mostrar com documentos que muitos africanos que para cá vieram, trazidos sobre chibata e correntes, tinham qualificação para muitas atividades, na mineração, na agricultura e outras áreas nas quais já atuavam em suas terras de origem, e os próprios portugueses sabiam disso e faziam essa distinção no momento de distribuí-los pelo Brasil.

Passados tantos séculos, entretanto, a ignorância e o racismo seguem alimentando essa percepção limitada. Daí a importância da declaração de Gurnah ao chamar a atenção de que os imigrantes africanos não são meros desqualificados, precisam, sim, de oportunidades e muito podem contribuir para a economia europeia.

Ademais, após o Nobel de Gurnah, é importante destacar a força da literatura no mundo real. Como disse o escritor português José Saramago (1922-2010), também vencedor do Nobel em 1998, ao receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte, em 1999: “Toda literatura é engajada. Não há literatura inocente. E ser engajado não significa sair à rua com uma bandeira ou manifesto, mas ter uma presença na vida, na sociedade”.


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