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Estado de Minas editorial

Uma parte do país definha em silêncio

Sem cerrado, falta água; sem água, definha a produção de energia, não há agricultura nem pecuária. Não há vida


15/09/2021 04:00 - atualizado 14/09/2021 22:37

O Brasil enfrenta a fumaça de mais uma temporada de queimadas, que novamente faz arder os olhos do mundo e dos brasileiros que têm consciência da gravidade da situação. Porém, enquanto os focos no Pantanal e na Amazônia despertam maior mobilização e alertas – mais do que justos – de entidades conservacionistas e do próprio mundo científico, um bioma de dimensões gigantescas e importância proporcional arde e vira cinzas sem fazer tanto barulho.

O cerrado estende suas características por quase um quarto de todo o território nacional, segundo o ICMBio. São 2 milhões de quilômetros quadrados com áreas de influência que chegam a ocupar unidades da Federação praticamente inteiras, como Tocantins, Goiás e o Distrito Federal, e grande parte de outras, caso de Minas Gerais. É o segundo maior bioma do país, atrás apenas da Amazônia. E queima em proporção bem parecida.

Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), enquanto 42,6% dos quase 110 mil focos de calor observados no Brasil este ano devoraram partes da floresta amazônica, nada menos que 35,3% deles se alastraram engolindo porções de cerrado. Assustador, nos dois casos, mas o bioma de árvores retorcidas e mais esparsas, com uma secura que parece um convite ao fogo e ciclo de certa forma adaptado às chamas – de origem natural – parece despertar menos comoção. Não deveria.

Além da área que ocupa no mapa e de abrigar população humana estimada em 46 milhões de pessoas, o cerrado tem importância ecológica fundamental para todo o país – e para o planeta. Sua aparente aridez disfarça um dos hábitats de maior biodiversidade do globo, segundo o ICMBio. Especialistas apontam que pode abrigar até 5% da fauna mundial, e cerca de um terço da brasileira, sem contar a estimativa de cerca de 12 mil espécies da flora.

Paradoxalmente, apesar da aparente secura, suas entranhas geram um verdadeiro tesouro hídrico, o que valeu ao bioma a qualificação de pai das águas do Brasil mencionada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Berço de grandes rios, suas nascentes, segundo a mesma fonte, alimentam oito das 12 regiões hidrográficas brasileiras, com destaque para três: respondem por 78% das águas da bacia dos rios Araguaia/Tocantins, por 70% da Bacia do São Francisco e por 48% da Bacia do Rio Paraná. É muito para um ecossistema tão negligenciado.

É tudo isso que está em jogo cada vez que o fogo se alastra consumindo vastas áreas da savana mais biodiversa do planeta. Associadas ou somadas à expansão da fronteira agrícola, as chamas colaboraram para que praticamente um quinto (19,8%) da cobertura vegetal desse ecossistema se perdesse em três décadas e meia, segundo estudo o projeto MapBiomas, iniciativa que envolve universidades, empresas de tecnologia e ONGs.

Todos esses indicadores apontam para um alerta urgente: é preciso salvar o que resta do cerrado – não muito mais que 50% da vegetação original. É imperioso aprender a lidar com o ciclo de estiagens, que vêm ficando mais longas e tornam o bioma mais suscetível ao fogo, ao mesmo tempo em que queimadas mais severas prejudicam a disponibilidade hídrica, ao afetar a vegetação, a permeabilidade do solo e, por consequência, fazer minguar nascentes e cursos d'água.

Ainda que a urgência da situação não seja despertada pela necessária conscientização ambiental, que ela venha ao menos da lógica econômica: sem cerrado, falta água; sem água, definha a produção de energia, não há agricultura nem pecuária. Não há vida. A sobrevivência do ecossistema, em si, já tem importância inestimável. Mas não é apenas ela o que está em risco.


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