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Estado de Minas

Não me vacinem!

Vacinem a minha filha. Vacinem Roberta. Ela é mais importante. Ela vale mais


26/06/2021 04:00 - atualizado 25/06/2021 23:45




Gladston Mamede
Bacharel e doutor em direito pela UFMG,
membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais

Dia 24 de junho de 2021.

O céu escandaliza um azul indecente sobre a capital das Alterosas e são 11h. Seria um dia lindo. Um sol sorridente, uma brisa que circula o perfume da Serra do Curral del- Rei. Perfume de minério de ferro que é tão Minas Gerais. Nasci aqui, em Santa Efigênia. Vivo aqui por 55 anos.

Acordei amuado, afogado em poucas palavras, agindo lento. E foi assim até que estourei num choro convulsivo, choro ridículo para um homem com a minha idade e, se me perdoarem a honestidade: com a minha história. Não é melhor do que a história de ninguém, mas é a minha história e outros homens e mulheres de todas as idades carregam histórias que, sim, podem ser jogadas fora sem mais nem menos, à custa da ignorância alheia.
 
 
 
 
Hoje é o meu dia de vacinar. O dia da primeira dose. Choro lembrando de centenas de milhares de mortos. Gente que poderia estar viva. Choro lembrando de milhares que ainda morrerão. Gente que poderia continuar viva. E não consigo parar. Vivemos tanta ignorância no último ano e tanto. Tanta ignorância. O mundo se revelou boçal. O país se revelou estúpido, cretino, canalha. E escolhi cuidadosamente estas palavras: estúpido, cretino, canalha.

Eis que tenho uma oportunidade: a primeira dose de uma chance de sobreviver à peste que, mundo afora, já teria ceifado a vida de 3.824.357 pessoas, em números oficiais, embora a Health Data Covid-19, do Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME), instituição ligada à University of Washington (http://www.healthdata.org), estime que o número real de mortos seja muito, mas muito maior: 8.227.152 de seres humanos.

A doença é, até aqui, a primeira grande lição que o planeta dá à humanidade no terceiro milênio. E o mundo é um grande professor, conta-nos a história, essa fofoqueira tão amiga. Mas somos alunos rebeldes, pouco afeitos ao ensino da sabedoria e, por guerras, poluição, ganância, ainda temos aulas semeadas por nossa imbecilidade. Uma desgrameira da moléstia, um sofrimento desesperador. A humanidade não é racional. É cruel. Ela não afirma a razão, mas usa-a para negá-la. Orgulhamo-nos de nossa ignorância grosseira e rude, em tacapes, espadas, pistolas, bombas. O pior vírus do mundo se chama ser humano.

Ninguém vai me entender. Tenho a chance de ser vacinado e estou assim? Estou fulo porque chegou a minha vez? Não deveria estar radiante? Não deveria estar lá na fila, braço ansioso, gozando minha oportunidade? Não se preocupe, eu vou. Estou indo. Só vou acabar de escrever isto aqui e vou. Antes do almoço. Não se preocupe.

Só preciso parar de chorar. Só preciso parar de me lembrar de todos os que conheci e estão mortos. Lembro-me deles vivos, entende? E são algumas dezenas, não os milhares daqui e os milhões de tudo em que é canto. E eu tenho uma chance. Uma chance que poderia e deveria ter sido dada há muito, a todos, sem mesquinharia. E houve mesquinharia. Muita. E há mesquinharia. Muita.

Não é um texto bom. É o texto de um homem que se pergunta, aos 55 anos de idade, se realmente tem esse direito. Porque há os de 54, 53, 52, 51. Porque há gente que mais merece, que mais deveria. Porque morro de medo do que será viver se perder ainda mais conhecidos. Porque chorei de alívio quando vacinaram minha filha, estudante de medicina, que trabalha como voluntária num ambulatório. Porque chorei de alívio quando vacinaram o meu filho, que é professor. Mas porque ainda tenho uma filha, de 20 anos, que sabe Deus quando será vacinada.

Não me vacinem! Vacinem a minha filha. Vacinem Roberta. Ela é mais importante. Ela vale mais. Talvez não para quem diz: você de 55 anos. Mas vale mais para mim. E isso é quanto me basta. Não é justo dizer a um pai que ele deve se vacinar e deixar os seus filhos sem vacina. Não é justo. Mas aprendemos nestes dois anos a duvidar de justiça, né?

No fim das contas, este é um texto sobre um fato simples: sim, todos os brasileiros já poderiam estar vacinados. Eu não precisaria estar com um medo de pai – medo? um pavor! – na hora em que receberei minha primeira dose.

Meu coração está com todos aqueles que perderam alguém. Deus acolha as almas que partiram. Deus console os corações que ficaram. Deus nos livre e guarde dos sofrimentos que a ignorância nos impõe.


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