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Estado de Minas editorial

O custo da imprevidência

Governo e empresas do setor elétrico esperam as chuvas; cidadãos e segmentos diversos arcam com o custo


18/06/2021 04:00









Os brasileiros, mais uma vez, vão ter que arcar com o custo da imprevidência do governo e agências reguladoras e com a falta de planejamento e senso de responsabilidade dos gestores dos recursos hídricos do país. O país vive sim a pior seca em 91 anos, mas a estiagem não pode servir de desculpa, uma vez que há vários anos as chuvas têm ficado abaixo da média no Sudeste/Centro-Oeste, região responsável pelo maior volume de geração de energia no país. O Brasil não corre risco de desabastecimento, segundo asseguram órgãos reguladores e operadores do sistema de energia elétrica, mesmo com os reservatórios das hidrelétricas no segundo pior nível de armazenamento no início do período seco. Só perde para 2001, ano do racionamento que derrubou o PIB do país.

Depois de 20 anos, era de se imaginar que não mais teríamos uma situação como a atual, com risco de se chegar ao período chuvoso, em novembro, com os reservatórios das usinas na bacia do Rio Paraná com o menor nível de armazenamento de água da história. Como essas usinas respondem por 70% da capacidade de armazenamento dos reservatórios do Brasil, não é preciso ter muita imaginação para prever que, com a fonte hidráulica representando ainda mais de 60% da energia gerada, o país terá problemas também no ano que vem se não contar com a generosidade da natureza em mandar chuvas em abundância. Por sorte, as temperaturas estão baixas. O calor faz a água evaporar.

E enquanto o governo contava com a chuva que não veio, os reservatórios foram esvaziando. E foi isso o que ocorreu, uma vez que desde outubro de 2020 sabia-se que o quadro poderia se agravar. É certo que desde essa época o governo acionou térmicas e liberou importação de energia, mas não acionou as bandeiras tarifárias de imediato. Em outubro, a expectativa era de que as chuvas até abril deste ano fossem suficientes para elevar o nível das hidrelétricas do Sudeste/Centro-Oeste, que estavam com 20% da capacidade no início de novembro. Mas a chuva não veio nos níveis esperados (ficaram 29% abaixo da média) e este ano esses reservatórios, com as medidas do governo, devem chegar ao fim do período seco com apenas 10%. E novamente o país precisará contar com chuvas acima da média para recuperar os reservatórios. Do contrário, teremos mais problemas em 2022.

Governo e as empresas do setor elétrico esperam as chuvas; cidadãos e segmentos diversos arcam com o custo. E um custo alto com a bandeira tarifária hoje vermelha no nível 2 e a cobrança de R$ 6,43 a mais a cada 100kWh consumidos. Não bastasse essa situação, a perspectiva é de que esse valor passe para algo entre R$ 7 e R$ 7,50 nos próximos meses para custear os R$ 9 bilhões que devem ser gastos com o acionamento de termelétricas este ano. E os reajustes devem ficar em 7% em 2021 e 5% no ano que vem, apenas em função do uso intensivo das térmicas.

É custo extra para empresas e consumidores e injeção direta nos índices de inflação. Sem contar que o transporte fluvial e atividades turísticas ficarão prejudicados. É um absurdo se chegar a esse quadro, mesmo diante da maior seca da história, e será inaceitável que este cenário se repita em 2022, porque se esperou chuvas acima da média e elas não vieram. Um quadro de escassez hídrica no próximo ano será fatal para as expectativas de crescimento mais acentuado da economia e para as pretensões políticas dos governantes.


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