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Somos todas Dona Hermínia


08/05/2021 04:00 - atualizado 07/05/2021 23:01

Ana Vitória Lopes
Jornalista
 
Esta semana perdemos o ator Paulo Gustavo, que lutou pela vida por quase dois meses em um hospital no Rio de Janeiro. A COVID-19 não levou mais um número e Paulo representa os mais de 400 mil brasileiros que tiveram suas vidas ceifadas pelo vírus, cada um com sua história particular, que deixou a família, amigos e filhos sem aviso. A morte é assim, ela não manda recado, mas, quando temos a consciência de que ela poderia ser evitada, nos revoltamos, não conseguimos acreditar em como é possível perder alguém que amamos desta forma. Por que o Paulo, a Maria, o João? Por quê? Por que a vacina não chegou em tempo hábil para todos? Por que as aglomerações continuam? Todos estão surdos ou não entendem o que está acontecendo? A resposta eu não sei. Só sei que dói, angustia, traz desesperança. Não é falta de fé em Deus, mas nos homens.

Não é preciso ser mãe para sentir a dor de Déa Lúcia, mãe do ator e inspiração para a personagem mais famosa que o filho interpretou brilhantemente. Não é preciso ser mãe ou pai para pensar nos filhos que ele deixa, no marido, nos pais e na irmã. Quem não se comoveu com a perda de Paulo Gustavo?
 
(foto: Lelis)
(foto: Lelis)
 
Esta semana ouvi de uma prima que Paulo Gustavo é dessas pessoas que temos a impressão que não vai morrer. E é isso mesmo. O carisma, a graça, o humor simples e ao mesmo tempo inteligente fizeram e ainda vão fazer muita gente chorar de rir. Mas, além disso, o que você enxerga através de Dona Hermínia, a personagem inspirada na mãe de PG? Se me permite responder, eu enxergo uma relação de mãe e filho de dar inveja. Uma relação de amor, cumplicidade e orgulho mútuo nítidos, que deve ter tido seus altos e baixos como em qualquer família, mas que no final das contas coloca o amor e a importância de um na vida do outro acima de tudo.

Que mãe não se identificou com Dona Hermínia? Esqueça os rolinhos e o lenço no cabelo. Ou não. Feche os olhos e me diga se você não se viu naquela fala da personagem da vida real sobre a bagunça dos filhos, o traste do ex-marido, a preocupação em levar o agasalho ao sair de casa, afinal, vai que o tempo vira e você pega um resfriado? Aposto que você também tem uma irmã predileta, pechincha na feira, acha a grama do vizinho mais verde, tem uma tia solteirona, tem medo da filha engravidar ou do filho “virar” gay. Ou, em um contexto mais atual, mais século 21, diz que seu filho não vai ter acesso a televisão, celular ou tablete antes dos 5 anos de idade, mas está aí, diante da tela, mais uma mãe pagando língua. Vida de mãe é assim e, às vezes, dá vontade de sumir e não voltar mais, né? Pois é, eles tiram a gente do sério. Um dia, não querem tomar banho, no outro, desafiam e questionam a nossa autoridade. Depois, decidem que vão dormir tarde e acordam atrasados para a escola ou começam a se trancar no quarto e colocam música ruim em alto e bom som.

Mãe é tudo igual, não é verdade? Sonhamos em ser a melhor mãe do mundo, mas a maternidade real nos mostra que contos de fada só existem nos livros de história. Fazemos de tudo pelos filhos e na adolescência, na maioria das vezes, nos presenteiam com a indiferença, sentem vergonha da gente. Como pode? Depois, o jogo inverte, eles voltam a pedir colo, conselho, dizem que nos ama e nos elegem como a melhor mãe do mundo. Essa é a Dona Hermínia. Esta sou eu e você. Quando uma mãe perde um filho, todas as mães perdem um pouco também. Por isso, sentimos tanto a perda de Paulo Gustavo. Por isso, ele estará sempre em nossos corações.
 


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