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Estado de Minas artigo

Crimes que chocam

Imaginar que uma mãe ou pai está ciente de que seu filho está sendo espancado, ou sofrendo outras atrocidades e ficar fingindo de bobo é algo difícil de aceitar


13/04/2021 04:00





Walber Gonçalves de Souza
Professor e escritor




Mais uma vez, nos deparamos com um caso de crueldade humana: o espancamento e morte, de forma estupidamente violenta, do garoto Henry Borel.

O triste é saber que esse não é um caso isolado, apesar da repercussão nacional. As estatísticas mostram que diariamente tantas outras crianças morrem de forma trágica e inúmeras outras desaparecem, aumentando ainda mais a angústia da família, pois, como não se sabe o desfecho, a imaginação cria as mais diversas possibilidades do que pode ter acontecido com o ente desaparecido. Também uma situação cruel!

Agora, além da crueldade que geralmente envolve esses casos, que por si só já enoja, na imensa maioria deles o criminoso é uma pessoa do seio familiar, que convive, que cria laços, que estabelece conexão de confiabilidade.

Quantos casos são divulgados diariamente em que pessoas da própria família tramam o extermínio do outro ente familiar. São casos que beiram à animalidade, a estupidez, e sabe-se lá que outros nomes poderiam ganhar!

Imaginar filho tramando a morte do irmão, pai ou mãe; imaginar que uma mãe ou pai está ciente de que seu filho está sendo espancado, torturado ou sofrendo outras atrocidades e ficar fingindo de bobo, sem fazer nada de efetivo para resolver o problema, é algo difícil de aceitar, humanamente dizendo.

Casos assim precisam despertar na sociedade uma reflexão profunda sobre seus próprios valores e posições. Pois não é possível aceitarmos uma situação dessa de forma inerte e covarde. Precisamos fazer algo e rever muitas coisas. Mas o que poderia ser feito?

A resposta para essa pergunta não é fácil e requer um amplo diálogo social. Mas vou deixar aqui minha simples opinião: o primeiro passo seria revertermos essa lógica imposta pelo poder financeiro, que reina há séculos no nosso país.

Pessoas endinheiradas geralmente se sentem no direito de estar acima da lei; buscam os caminhos do privilégio; escapam das regras que elas mesmas criaram; gostam de dar a famosa “carteirada”; vivem utilizando as benesses do status social estabelecido pelo poder financeiro. Como se diz no popular: “Se tornam poderosas”.

Algumas dessas pessoas são punidas? Claro que são. Mas, infelizmente, sabemos que a maioria não. Por isso centenas de crimes acontecem diariamente, alimentando o tráfico de crianças para as mais diversas finalidades: desde a retirada de órgãos até a covarde prostituição e o espancamento sem fim de tantas outras.

Sem falar no abandono diário praticado por centenas de famílias, que não assumem de fato a missão de ser pais, educadores, responsáveis pela vida dos seus filhos. Gostam mesmo é de delegar aos outros (escola, babá, empregada doméstica...) suas responsabilidades.

Assim, vamos criando uma sociedade que se choca com alguns casos e mantém-se inerte a tantos outros. E como sempre, daqui a alguns dias esse caso cairá no esquecimento e provavelmente num futuro não muito distante teremos outro para lamentar.


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