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Estado de Minas editorial

Um fim aos devaneios

Substituir quem está assentado na cadeira de comando do Ministério das Relações Exteriores não resolve enquanto o governo não assumir outro discurso


31/03/2021 04:00



Acreditar na primeira impressão como aquela que fica passa longe do razoável diante das trocas anunciadas no tabuleiro do Palácio do Planalto, principalmente em se tratando do hábito do presidente da República de fazer parecer algo que logo adiante não consegue evitar. Se a aliança com o Centrão comemora ter vencido na substituição de Ernesto Araújo por Carlos Alberto Franco França no Ministério das Relações Exteriores, o problema permanece em dobro para o governo de Jair Bolsonaro e seus aliados no Congresso.

Não bastará reverter parcelas do estrago feito nas relações internacionais para que o país consiga acesso às vacinas contra a COVID-19. Uma “nova” política externa do Brasil é pressuposto para a recuperação da economia em momento de absoluta falta de criatividade e de força do ministério comandado por Paulo Guedes, como os próprios economistas ainda alinhados ao governo e investidores têm chamado a atenção

O comércio exterior contribuiu com o resultado do único setor da economia brasileira que cresceu no ano passado, o agropecuário. Ao garantir expansão de 2%, salvou o PIB do país de uma queda ainda maior que os 4,1% observados em 2020. Estados como Minas Gerais, grandes exportadores de produtos agrícolas básicos e minerais consumidos nas nações com as quais o Brasil mais se confrontou – China e Estados Unidos –, enfrentam efeitos drásticos das tensões alimentadas pelo Itamaraty.

A despeito do saldo positivo da balança comercial do Brasil, de US$ 50,9 bilhões, em 2020, e do crescimento de 7% frente a 2019, as exportações de US$ 209,921 bilhões caíram 6,1% e as importações de US$ 158,93 bilhões tiveram queda de 9,7%. A agropecuária mostrou expansão na média diária de embarques, mas houve retração nas vendas das indústrias extrativa e de transformação. O país se be- neficiou da reação da economia asiática, em especial da China, das vendas à Austrália e ao Marrocos. No entanto, perdeu mercado nos Estados Unidos, França e Chile.

A chave virou neste ano, pelo menos no acumulado de janeiro e fevereiro, quando as exportações do Brasil cresceram 3,5% ante 2020, tendo alcançado US$ 31,130 bilhões. É muito pouco para o país celebrar. Substituir quem está assentado na cadeira de comando do Ministério das Relações Exteriores não resolve enquanto o presidente não aceitar a necessidade de mudança da retórica no mercado internacional e assumir outro discurso. Difícil buscar na história precedentes das crises bilaterais que o Brasil abriu com a China, Alemanha, Argentina e França, além do comportamento impensável do governo frente à vitória do presidente norte-americano, Joe Biden.

Da mudança de retórica depende a retomada da confiança nas relações com os parceiros comerciais do país, e, então, sair do isolamento para trabalhar também por acordos abandonados, como o do Mercosul com a União Europeia. Tentar retomar, ainda, a atratividade brasileira aos olhos dos investidores e evitar rejeição aos produtos brasileiros. Não será tarefa para um novo ministro, persistindo os sinais trocados do presidente Bolsonaro e as interferências negativas de seu clã.

O fim dos devaneios diplomáticos exigirá, como vêm alertando especialistas em política internacional, postura de construção de boas relações com o presidente Joe Biden e sua equipe, além da China, de respeito e tratamento estratégico como grandes parceiros comerciais fazem. Não vale a pena arriscar numa visão tola de que os Estados Unidos manterão aliança com o Brasil, devido ao cenário de contenção com a China. Os aliados do Centrão devem se lembrar de regras básicas do xeque-mate num xadrez político. Peça mais importante, o rei é também a mais fraca porque pode se mover apenas por uma casa. No entanto, tem a autonomia de se mover em todas as direções, e, com lucidez, jamais se colocar em xeque.



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