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A mentira tem poder


27/03/2021 04:00

Renato de Mendonça
Bacharel em física (Ufop), especialista em história da ciência (UFMG), doutor em engenharia (Ufop)
 
Desde o início da pandemia do novo coronavírus, mentiras, na forma de informações falsas e teorias da conspiração, apareceram aos montes. Vale a pena lembrar os primeiros dias, quando muitos corriam aos supermercados alertados por informações de fechamento dos serviços essenciais. Havia pessoas comprando litros de álcool em gel, que provavelmente ficaram estocados por meses em casa. Além disso, teorias conspiratórias surgiram e se espalharam de forma virulenta. Atribuíam ao novo coronavírus quase tudo. No Reino Unido, por exemplo, torres de celulares foram respon- sabilizadas por propagar o coronavírus e algumas foram até destruídas.
 
Certamente, a soma de vários ingredientes, tais como incertezas, medos e a necessidade de explicações simples, acabaram potencializando e abrindo espaços para teorias conspiratórias e mentiras. De fato, muitas delas baseadas em pontos comuns: repetidas narrativas em que agentes poderosos      atuam em segredo para benefício próprio, e na máxima de que nem sempre a verdade é a história mais interessante. Um problema é que apesar de parecer, em princípio, narrativas inofensivas de filmes e livros de ficção, essas notícias falsas e teorias conspiratórias precisam ser levadas a sério, uma vez que formam a opinião de incautos e possuem impacto na sociedade.
 
Em particular, no atual cenário de pandemia, quando ações coletivas são importantes, seja na vacinação, seja no autocuidado, as mentiras sabotam medidas contra a proliferação do vírus porque causam confusão e insegurança. Além disso, as mentiras, apropriadas ou criadas por autoridades, proli- feram-se mais facilmente e são empregadas como ferramentas que produzem realidades distorcidas. Verdadeiras cortinas de fumaça, disseminadas propositalmente em redes com a função de eliminar problemas por meio da construção de narrativas falsas. Entretanto, negar problemas utilizando a criação de soluções ilusórias costuma sair caro. Os prejuízos geralmente se aprofundam e as soluções se tornam mais difíceis.
 
Segundo o pesquisador Pride Chigwedere, na África do Sul, foi assim durante o governo do presidente Thabo Mbeki (1999-2008). Na época, enquanto o mundo usava medicamentos antirretrovirais para o HIV, o governo sul-africano propunha curas com chás e alho. Assim, negava um tratamento de qualidade e acabou por facilitar a morte precoce de milhares de africanos por Aids. Infelizmente, o go- verno da África do Sul negava informações científicas confiáveis com base em teorias fundamentadas na eventual toxicid ade dos medicamentos e no lucro da indústria farmacêutica.
 
Recentemente, o maior alvo de teorias conspi- ratórias foram as vacinas contra o novo coro- navírus. Os impactos dessas mentiras ainda não são bem compreendidos ou estudados. No entanto, podem influenciar o fundamental engajamento dos indivíduos na vacinação pela propagação do medo. O argumento comum dos negacionistas, para demonizar o imunizante, envolve a rapidez com a qual ele foi produzido e a sua procedência. Porém, isso não é argumento, é preconceito. Defi- nitivamente, o processo de produção e criação de uma vacina é complexo, possui diversas etapas, com inúmeros testes em animais e grupos de indivíduos para garantir a sua segurança e eficácia. Além disso, o tema, por conta da atual situação da pandemia, é assunto popular, mas não é de domínio público. Por conta do mais fácil entendimento, com apelos às incertezas e emoções dos indivíduos, as teorias conspiratórias conseguiram espaço no imaginário popular. Lamentavelmente, a necessária conquista científica neste século 21 é usada, por oportunismo, para acionar gatilhos de medo no conjunto social.
 
As consequências de todas essas mentiras, divulgadas durante a pandemia, dificilmente serão quantificadas com precisão em algum dia, mas já existe a certeza de que muitas vidas foram perdidas pela exposição gratuita ao coronavírus. Médicos de Manaus, uma das cidades que mais sofrem com a pandemia no Brasil, relatam que muitos pacientes internados em UTIs fizeram tratamento preventivo com cloroquina, medicamento sem comprovação científica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, e se expuseram às aglo- merações, ignorando medidas como o uso de máscara e acreditando em uma falsa sensação de proteção contra a COVID-19.
 
De fato, as mentiras demonstram que o vírus não é o único inimigo nesta pandemia. As inverdades criadas têm o poder de matar e se aliar ao vírus. Ancorados em mentiras, todos nós podemos criar uma percepção difusa da realidade e, consequentemente, tomar decisões erráticas. O cuidado ao se informar na pandemia tornou-se necessidade de primeira e a desconfiança com informações fáceis, emotivas e sem fontes reco- nhecidas é uma obrigação. 


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