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Estado de Minas

Togados e guilhotinados

A solução de nossos problemas não virá dos tribunais


26/03/2021 04:00




Victor Missiato
Doutor em história, professor de história do Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília. Membro do Grupo 
de Estudos e Pesquisas Psicossociais sobre o 
Desenvolvimento Humano (Mackenzie/Brasília) e 
Intelectuais e Política nas Américas (Unesp/Franca)


Em junho de 2013, milhões de brasileiros foram às ruas em luta contra todo o sistema político. Não me representam era um dos grandes gritos entoados pelas gargantas de um povo que se virou contra seu poder representativo. Diferentemente de junho de 1789, quando os franceses do Terceiro Estado criaram uma Assembleia Nacional, nenhuma instituição foi erguida na tentativa de transformar a democracia brasileira. O Brasil não tem sua revolução. No entanto, em comum, o sentimento de rebeldia e revolta desnudou tanto o poder do Rei Sol, quanto o partido da estrela. Assim como na França, a liderança nacional não caiu de imediato. Se a Bastilha inaugurou uma revolução, a Avenida Paulista revelou uma generalizada insatisfação.

Nos dois casos, diversos foram os debates do poder central em reformar as instituições e procurar acalmar os ânimos dos revoltosos. Tentativas em vão. Em 1793, Luis XVI foi executado. Em 2016, Dilma Rousseff sofreu o segundo impeachment da Nova República. No seio dessas duas revoltas, lideranças do meio jurídico ascenderam como grande esperança na construção de um novo homem, uma nova política, um novo mundo.

Miximilien de Robespierre e Sergio Fernando Moro, ambos formados em direito, lideraram dois importantes processos na luta contra a corrupção em seus países. Eleito deputado pelo Terceiro Estado, em 1789, Robespierre logo ganhou grande espaço na política revolucionária francesa, sendo responsável por organizar diversas sentenças contra membros do antigo regime. Sergio Moro, valendo-se da fragilidade do sistema político brasileiro, autorizou o início da maior luta anticorrupção da história da República brasileira. Literal e metaforicamente, cabeças rolaram.

O sentimento de esperança alastrou-se por toda a França e por todo o Brasil. Proporcionalmente, estamos falando das duas maiores manifestações sociais da história desses dois países. Na liderança desses dois processos, uma visão de liberdade acabaria sendo eclipsada por uma desilusão com a verdade. Após sentenciar e executar diversos oponentes, Robespierre se juntouaos seus inimigos no panteão da guilhotina. Alçado ao posto de incorruptível, o revolucionário francês acreditou ser possível endeusar sua liderança secular. Transformado pelos brasileiros em liderança de maior prestígio nacional, Sergio Moro também acreditou ser possível transformar a toga em manto sagrado. Sua escolha como superministro da Justiça do governo Bolsonaro, no entanto, acabaria com um pronunciamento bombástico pela manhã, e já superado no período da tarde. Seu fim político acabaria essa semana com a sentença de suspeição de seus julgamentos contra o ex-presidente Lula.

Diante de tamanhas ascensões, prestígios e breves decadências, uma nova-velha lição nos roga a história: independentemente da revolução ou revolta, a solução de nossos problemas não virá dos tribunais. Togados são concursados, não eleitos. Ademais, cientes de que o bonapartismo também não costuma nos levar a um caminho iluminado, registramos a prudência e o pragmatismo do pensador Edmund Burke ao analisar o processo revolucionário francês no calor do momento: “Quando homens de posição sacrificam todas as ideias de dignidade a uma ambição sem um objetivo nítido e trabalham com instrumentos inferiores para fins baixos, toda a composição torna-se baixa e vil”. A Lava-Jato foi guilhotinada.



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