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Vacinas ou tratamento: como vencer a COVID

Dez países compraram 75% das vacinas até aqui produzidas, ao passo que 130 países, onde vivem mais de 2,5 bilhões de pessoas, ainda não viram um só imunizante


09/03/2021 04:00

Vitor Pinto
Escritor. Analista internacional
 
título sugere um dilema para duas faces da mesma moeda: vacinas e medicamentos eficazes deveriam complementar-se nesta luta tremenda da humanidade para derrotar um vírus que em cerca de um ano já atingiu 115 milhões de pessoas e matou 2,5 milhões no mundo todo (no Brasil, que tem 2,8% da população total, ocorreram 9,2% dos casos e 10,2% dos óbitos).
 
No entanto, assustados com o impacto da doença, os governos despejaram um volume imenso de dinheiro nas empresas produtoras de vacinas para que encurtassem ao máximo os tempos de produção dos imunizantes. Segundo os especialistas, se o mesmo montante de recursos tivesse sido direcionado à pesquisa e à produção de medicamentos específicos para o combate ao coronavírus que ocasiona a COVID-19, certamente hoje já teríamos um arsenal de drogas capaz de prolongar a vida de boa parte dos que foram contaminados.

Vacinas em profusão

No momento, há pelo menos 182 vacinas sendo testadas em homens e animais, sendo que 21 já estão na fase 3, que comprova o seu poder resolutivo e a segurança em humanos, e 52 nas fases 1 e 2. Desses conjuntos, 11 foram aprovados e licenciados para uso geral. As principais são as das empresas norte-americanas Pfizer (sede na Rua 42, em Manhattan, New York), Moderna (de Cambridge, Massachusetts) e Johnson&Johnson (J&J); a russa Sputnik V; a britânica Oxford/AstraZeneca; as chinesas Sinovac e Sinopharm (essa, da Universidade de Wuhan); a indiana Bharat Biotech.
 
A produção estimada para o final de dezembro de 2021 é de 1,15 bilhão de doses, provenientes dos Estados Unidos com 4,69 bilhões; Índia (3,13 bi); China (1,9 bi), Reino Unido (0,95 bi), Alemanha (0,50 bi) e Coreia do Sul (0,35 bi). Informação detalhada sobre mais de 70 vacinas e sua produção pode ser vista no New York Times – Coronavirus Drug and Treatment Tracker em https://www.nytimes.com/interactive/2020/science/coronavirus-drugs-treatments.html.
 
Algumas propostas em estudo diversificam o veículo de aplicação. Assim, a pequena Vaxart de São Francisco aposta num imunizante em comprimidos à base do adenovírus Ad5, o mesmo vetor viral da vacina chinesa da CanSinoBio e da Sputnik V. Por sua vez, a indiana Bharat Biotech, com o produto BBV154, e a empresa Altimune, de Maryland, desenvolvem um spray nasal.
 
O mesmo site do NYT lista apenas 24 hipóteses ou iniciativas de medicamentos ou procedimentos para combater o coronavírus em pacientes graves ou em etapas iniciais de infecção. Aí estão descritos em resumo, entre outros, fármacos como remdesivir, lopinavir e ritonavir, desametasona, cloroquina, favipiravir.
 
Esse último, conhecido como T-705 e nome comercial Avigan, é um poderoso antiviral produzido no Japão e foi utilizado com sucesso para combater o vírus do Nilo Ocidental, ebola, influenza e raiva em populações africanas com altos níveis de contaminação. Hoje é utilizado também na China, Rússia e Índia para fazer frente à COVID-19, reduzindo o tempo de internação e proporcionando uma recuperação mais rápida e sem sequelas notáveis nos pacientes em tratamento. Serviu como base para a solução medicamentosa proposta no livro de ficção recém-publicado em Brasília “Enigmas de Monte Martelo: vidas em quarentena” – https://www.amazon.co.jp/dp/B08WZNVXHC – escrito pelo autor deste texto. A droga favipiravir é um derivado da pirazinamida, que no Brasil há muitos anos é usada no tratamento-padrão da tuberculose. Nossos médicos estão acostumados, ainda, a empregar a dihidropiridina, um ativo bloqueador do fluxo de cálcio no organismo, em casos de arritmia por diminuir a frequência das batidas cardíacas.
 
Com o mercado global superaquecido pela disputa de um bem escasso como tem sido as vacinas, há poucas esperanças de que medicamentos comprovadamente resolutivos cheguem num curto prazo às prateleiras das farmácias a preços razoáveis.
 
Vários governos têm subsidiado com altas somas as empresas produtoras de vacinas, mas isso não proporcionou a oferta de produtos a preços baixos. Sob intensa pressão de suas populações, os países não têm discutido preços, abrindo seus cofres e competindo uns com os outros no que se transformou em uma guerra movida por influência política.
 
De acordo com a empresa alemã Statista, que produz dados de mercado e consumidores com grande confiabilidade, uma só dose da vacina da Pfizer custa US$ 20; da Moderna, US$ 37,enquanto a CoronaVac vale US$ 30, a Sputnik V US$ 10, e a Janssen US$ 10.      
 
A J&J, com a sua Janssen, chega agora ao mercado com vantagens importantes: além de seu melhor preço e de ser mais fácil de produzir, imuniza com uma só dose e pode ser estocada em geladeira. O maior centro global de produção de vacinas, o Serum Institute, na Índia, por operar com custos mais baixos (de insumos e de mão de obra) tem atraído grandes laboratórios, como é o caso de Oxford.

Países europeus trataram de proteger-se depois que o ex-presidente americano Donald Trump, com sua política do America first, resolveu comprar todas as vacinas disponíveis ou a ser produzidas.
Assim, Reino Unido e Canadá já adquiriram imunizantes para cobrir com folga toda a população, o que originou uma dura reação da Organização Mundial da Saúde (OMS), que acusou os britânicos e outros governos de discriminarem os demais países.
 
Informações atualizadas indicam que 10 países compraram 75% das vacinas até aqui produzidas, ao passo que 130 países, onde vivem mais de 2,5 bilhões de pessoas, ainda não viram uma só vacina em seus territórios.
 
A solução proposta pela OMS é a Covax, uma parceria com dois grupos internacionais (Aliança Gavi e Coalisão Cepi), com apoio financeiro da Fundação Bill & Melinda Gates e de diversos países ricos, que em recente encontro aumentaram significativamente seus aportes a um programa que almeja proporcionar 2 bilhões de doses de vacinas diversas a 190 países ainda este ano, imunizando cerca de 20% de suas populações. Desse conjunto, os 92 países mais pobres devem ser beneficiados sem custos. Estados Unidos e Rússia não fazem parte do Covax, mas sua viabilidade financeira ganhou um aporte fundamental com a adesão da China.
 
Em 24 de fevereiro, 600 mil doses da Oxford/AstraZeneca chegaram a Acra, tornando Gana a primeira nação a receber vacinas enviadas pelo Covax. A previsão é de que com o apoio do G7 (grupo dos países ricos), milhões desse mesmo produto serão enviadas à América Latina, o continente que passou a ser o mais afetado com a chegada da segunda onda da COVID-19, caracterizada por ao menos três novas variantes do coronavírus: sul-africana, inglesa e brasileira (de Manaus).
 
Dois outros tópicos preocupam a ciência e os formuladores de políticas globais. O primeiro é que se desconhece a duração da imunidade conferida pelas diversas vacinas e sua real efetividade, embora já se saiba que tem resultados pelo menos tão positivos quanto os obtidos com os melhores imunizantes contra a influenza. O segundo refere-se aos negacionistas, tanto os indivíduos, quanto dirigentes (como o presidente brasileiro) que podem influenciar negativamente centenas ou milhares de outras pessoas. Nesse bloco estão países como Tanzânia e Madagascar, que formalmente se recusam a vacinar suas populações e mantêm suas fronteiras abertas. É a partir desses focos, pequenos ou grandes, que o vírus pode resistir e voltar a expandir-se em novas ondas.       


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