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Dia de luta da mulher trabalhadora, preta e popular


08/03/2021 04:00 - atualizado 07/03/2021 22:40


Ricardo Castro
Docente da Estácio Belo Horizonte, pesquisador do Núcleo Conexões de Saberes/Fafich/UFMG

Peço licença, e jamais desculpas, por ser um homem que decide publicizar uma posição acerca do Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje, em alusão a grevistas operárias têxteis norte-americanas que, ao reivindicarem a redução da jornada de trabalho – maior e menos remunerada que a dos homens – foram trancadas no galpão da fábrica e incendiadas em 1857. Peço licença porque esta data deve ser um analisador importante para visibilizar a história de todas as mulheres que, coletiva e politicamente, organizaram-se na construção de pautas e bandeiras de luta de transformação da sociedade. O que, em termos da experiência sensível, não diz, exata e diretamente, sobre mim ou sobre qualquer outro homem. No entanto, não peço desculpas porque não me sinto moral ou eticamente equivocado. Isso porque urge o momento em que nós, homens, sejamos capazes de enfrentar o que há de extraordinário, as potências e as contradições que as reivindicações de mulheres provocam na sociedade.

O gênero, palavra historicamente mal dita, será aqui compreendido como uma categoria científica e política que nos ajuda a analisar e intervir sobre como construções de sistemas de poder patriarcais e sexistas históricas foram se tornando diferenças, presumidamente, naturais-biológicas entre corpos sexuados binários: o homem de um lado e do outro, diametralmente, a mulher. Nesse sentido, estamos produzindo gênero o tempo todo ainda que, inclusive, não tenhamos nenhuma noção disso, afinal, não há nenhuma prova científica consensuada de que preferência por cores e/ou profissões se conformam a corpos de forma natural, ontológica, essencial e/ou divina.

Em se tratando de Brasil, ao falarmos das atuais mulheres trabalhadoras que lutam contra a sua exploração, para além do gênero é preciso, também, reivindicar as categorias da raça e da classe. Raça aponta para um campo de estudos e intervenções que lança evidências históricas e materiais às desigualdades entre sujeitos, de distintos fenótipos, em função de uma produção colonial-racista em territórios que adotaram a escravidão ameríndia e africana como sistema econômico-político. O Brasil aí incluído. A classe, por sua vez, diz das relações econômicas que criam lugares e acessos econômicos, culturais e simbólicos bem díspares para alguns grupos em função de uma desigualdade econômico-trabalhista abissal.

O gênero, a raça e a classe são, portanto, organizadores da manutenção de um sistema de poder que mantém na base da sociedade violentada e explorada latino-brasileira a mulher preta de origem popular. São elas as que ocupam os cargos mais subalternizados, temporários, desvalorizados, terceirizados, humilhados e mal ou não remunerados. Falar do dia 8 de março no Brasil, portanto, é, obrigatoriamente, falar da trajetória de mulheres que se encontram alijadas dos lugares de poder e representação formal, mas que, historicamente, têm se organizado para se pensar um projeto de sujeito e sociedade que seja, radicalmente, plural e democrático.

Por estarem na base da pirâmide social, quando essas mulheres se movimentam, a sociedade inteira se desloca a um horizonte mais digno, respeitoso e ao bem viver cotidiano, comunitário político e institucional. Sendo assim, ou bem começamos a compreender o local da luta das mulheres pretas, pobres e faveladas como sujeitas políticas ou estaremos fadados a pensar o 8 de março como uma data esvaziada de um projeto de transformação social. Transformação para todas e todos nós.


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