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Estado de Minas editorial

Fora da realidade

A toda hora e em qualquer lugar, há festas, aglomerações, gente sem máscara desdenhando da pandemia


05/03/2021 04:00



“‘Desgraçado do tempo em que os loucos guiam os cegos. Faz como eu te digo, ou melhor, faz o que bem entender. O importante é ires embora’, disse o conde Gloucester ao Velho.” Essa é uma fala de “O rei Lear” (L&PM Pocket, 2017, tradução de Millôr Fernandes), do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616). A peste bubônica voltara a assombrar a Europa no início do século 17, e Shakespeare foi obrigado a ficar em quarentena. Foi nessa condição que escreveu, já no fim da vida, “O rei Lear”, em 1605-1606, uma de suas principais peças, que, inclusive, faz referências à epidemia, da qual ele fugiu a vida inteira. Na Londres daquele tempo, cerca de 10% da população morreu com a peste negra. Teatros e bordéis eram fechados e os doentes trancados em casa, que tinha uma cruz vermelha pintada na porta, sob vigilância de guardas.

Outro diálogo da peça é emblemático: “Ainda és minha filha, ou melhor, uma doença na carne, que sou forçado a reconhecer que é minha; és um tumor, uma ferida inchada, um furúnculo apustemado em meu sangue”, afirmou o louco rei Lear a Goneril, sua primogênita. Esse é o tamanho do drama. A peça trágica, inclusive, termina com quase todos os personagens mortos.

Lendo “O rei Lear” e outras obras de Shakespeare, como “Macbeth”, escrita na mesma época, é inevitável a analogia com o mundo atual, onde grassa o novo coronavírus, com as metáforas da “loucura” e da “cegueira” dos que teimam em negar o tamanho e a gravidade da desgraça causada pela pandemia.

O negacionismo ignora os resultados do isolamento e da vacinação. Se o contágio diminui, é porque houve distanciamento e imunização e não porque o vírus simplesmente desapareceu. Se essas duas medidas não são tomadas, a tragédia é muito maior. Barreiras sanitárias em aeroportos, rodoviárias e outros locais do país poderiam ter evitado que a variante do vírus originado em Manaus se espalhasse e colaborasse para esta segunda onda, mais mortal do que a de 2020, com surgimento de outras mutações e com o número de mortes já apontando para 300 mil neste ano. Ontem, Bolsonaro repetiu seu mantra negacionista em outras palavras: “Chega de frescura, de mimimi, vamos ficar chorando até quando?”. Como explicar isso?

Há de se destacar neste contexto a recente pesquisa “Os perigos da percepção”, realizada pelo instituto Ipsos Mori, que aponta os brasileiros como o povo mais fora da realidade no mundo. E olha que foi feita antes da pandemia. O Brasil foi apontado como o segundo país em que as pessoas mais têm a percepção equivocada da realidade. O levantamento foi realizado em 2018, em 38 nações, para avaliar o conhecimento geral e a interpretação que a população faz sobre o país em que vive. Os brasileiros ficaram à frente apenas dos sul-africanos.

Se esse levantamento for feito hoje, certamente, não vai surpreender. Isso porque é impressionante a quantidade de brasileiros que continuam se comportando normalmente, mesmo com o vírus não só batendo à porta, mas invadindo casas e causando uma morte por menos de um minuto no país. A toda hora e em qualquer lugar, há festas, aglomerações, gente sem máscara desdenhando da pandemia. É claro que está todo mundo estressado, cansado de ficar em casa, até deprimido, mas não há outro remédio a não ser o distanciamento e a vacina, quando chegar em número suficiente. O que passa pela cabeça dessas pessoas que brincam com a morte? Podemos parodiar o próprio Shakespeare em seu “Hamlet”: Ser (ou não ser) inteligente e cuidar para preservar a vida de todos contra essa peste contemporânea.



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