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Rebeldias e democracias


12/01/2021 04:00

Victor Missiato
Doutor em história, professor de história do Colégio Presbiteriano Mackenzie Brasília e membro do Grupo de Estudos e 
Pesquisas Psicossociais sobre o desenvolvimento humano (Mackenzie/Brasília) e Intelectuais e Política nas Américas (Unesp/Franca) 

Em 2013, quando o povo invadiu o Congresso brasileiro, quebrou a prefeitura de São Paulo e apedrejou o Itamaraty, muitas foram as vozes que vibravam com a emergência de uma consciência democrática no Brasil. Aqueles acontecimentos, assim como diversos outros ocorridos após a crise de 2008 mundo afora, foram interpretados por diversos intelectuais como uma legítima manifestação popular contra o "sistema neoliberal" e a "democracia representativa".

A esperança desses intelectuais era a de que uma nova Primavera dos Povos (1848) nascesse daqueles movimentos. No entanto, refeita a normalidade institucional das democracias no Ocidente, muitas de suas sociedades optaram, de maneira democrática, por escolher lideranças e projetos nacionalistas à revelia das expectativas dos defensores da globalização.

Entre os diversos movimentos nacionalistas, o trumpismo ascendeu como uma força política nos EUA, colocando-se como o novo, ao mesmo tempo em que defendia uma determinada tradição. Fruto do descontentamento social com o processo de globalização do século 21, ao mesmo tempo moderno e excludente, o governo Trump caminhava para sua reeleição antes da pandemia da COVID-19. Diante da enorme perda de empregos e sofrendo com diversas críticas referentes ao modo como conduziu as políticas de saúde na pandemia, o republicano Trump perdeu as eleições para o democrata Joe Biden, em um resultado apertado e polêmico, porém legítimo e legal.

De ambos os lados, ao longo do governo Trump e do processo eleitoral em 2020, visualizamos diversas críticas polarizadas e inverossímeis, que procuraram desqualificar o adversário. Tanto lá quanto aqui no Brasil, vários foram aqueles que abusaram das palavras golpe, fascismo, comunismo, autoritarismo, totalitarismo, entre outras verborragias. Através das ruas e das redes sociais, a democracia passou a dar voz para qualquer cidadão expressar suas opiniões em qualquer momento do dia.

Lamentavelmente, em tempos pandêmicos, as sociedades "de risco" e "do cansaço" fazem do adversário um inimigo, do embate um confronto. O que ficou registrado neste início de 2021, em Washington D.C, foi mais um ato de rebeldia presente no arcabouço da cultura democrática estadunidense.

Por mais que eu me posicione contra qualquer tipo de violência, assim como em 2013 no Brasil, atos violentos de um povo insatisfeito também constroem o fazer histórico.

No caso específico dos EUA, a insurgência civil é uma marca tão arraigada em sua cultura política que a própria defesa do direito à posse de arma do cidadão vem logo abaixo ao direito à liberdade de expressão. Tanto os trumpistas fanáticos, assim como alguns membros do movimento Black Lives Matter, comungam da violência como forma de ação política. No entanto, nenhum desses movimentos colocou em xeque a democracia americana. Os rebeldes que invadiram o Congresso foram punidos e Trump assegurou uma "transição ordeira" no próximo dia 20. Infelizmente, ocorreram cinco mortes, mas a regra institucional foi cumprida com a certificação de Joe Biden.

As polarizações decorrentes da luta entre favorecidos e desfavorecidos pela globalização continuará ocorrendo e as democracias brasileira e estadunidense continuarão funcionando com suas polarizações. Diante disso, qualquer comentário que aponte para uma crise terminal da democracia, levando em conta o que ocorreu no Congresso dos EUA, corre o risco de caducar rapidamente, assim como ocorreu com os livros que apontavam para o Golpe de 2016 no Brasil, e agora seus autores assistem às alianças entre PT e MDB para eleição no Congresso.

Ademais, deixamos aqui uma reflexão: a rebeldia do povo só vale quando é do seu interesse político?.


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