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Estado de Minas

O som da cor e as sementes da coragem


30/11/2020 04:00


Mauro Passos
Professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e presidente do Centro de Estudos de História da Igreja na América Latina (Cehila)

Eu não posso compreender esse tom divino
com que os senhores falam da autoridade.
Não se governa mais em nome de Deus,
por que então esse respeito,
essa veneração de que querem cercar os governantes?

(Lima Barreto)

 
Pessoas, livros, mapas e líderes existem para nos ajudar a percorrer caminhos. Muitas questões, conceitos e preconceitos estão presentes na história dos povos. Na história e nos becos do Brasil. O som da cor acompanha as versões e interpretações da nossa cultura. No trilho de vozes, nas mãos calejadas pelo trabalho duro e no brilho de rostos que canta e encanta, a raça negra construiu o Brasil. Forçados a migrarem para o Novo Mundo, várias nações e tribos africanas fizeram o Brasil. As gerações que se seguiram colheram os frutos dessa gente sofrida. Entre tantos líderes, permanece viva a figura de Zumbi. Encarna e lembra muitos líderes que "fizeram o brasil, Brasil".

No final do século 17, o padre Antônio Vieira afirmou: "O Brasil tem seu corpo na América e sua alma na África". O que foi acontecendo, ao longo dos séculos, com nossa brasilidade e maneira de perceber a história? Na diáspora social, a afirmação da "consciência negra" foi-se sedimentando com dor, coragem e conquistas. Não se pode esquecer que o racismo, como ideologia elaborada, é fruto da cultura moderna a serviço da dominação. O combate ao racismo acontece no interior da luta social, pois aí está sua origem, através de um processo de "descolonização cultural". Segundo a filósofa Angela Davis, "não basta não ser racista, é preciso ser antirracista".

Convém lembrar a relação entre etnicidade e religião. Como se articulam essas duas dimensões? Na década de 1980, na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom José Maria Pires organizou grupos de reflexão dos agentes de pastoral negros (APNs) e o Instituto Mariama (IMA), que reúne bispos, padres e diáconos negros. Trata-se de uma renovada consciência de identidade negra e de seu reconhecimento na sociedade brasileira, especialmente na Igreja Católica. O que se procura não é apenas recuperar traços perdidos, mas afirmar a identidade negra. Assim, floresceram essas iniciativas nas comunidades "afro", sem negar as diferenças, mas assumindo-as e verificando que as diferenças culturais e religiosas, como outras, são reais e históricas.

Em 1981, foi celebrada a Missa dos Quilombos, em Recife. Na homilia, dom José M. Pires afirmou: "Mais longa que a servidão do Egito, mais dura que o cativeiro da Babilônia, foi a escravidão do negro no Brasil. O negro como negro continua marginalizado". Isso lembra o espancamento e assassinato de João Alberto Freitas, no Carrefour de Porto Alegre, dia 20 de novembro - Dia da Consciência Negra. Mais uma vítima de um processo histórico perverso, por ser, sobretudo "negro e pobre". Não houve tempo para despedidas, como lembra Mia Couto em seu poema Ignorância: "A minha morte/ foi tão breve/ que nem dei conta da lágrima". O passado vive pesadamente nas consciências.

Como sempre, a inspiração para a luta vem das bases com os movimentos sociais e a articulação de grupos pela justiça e pelos direitos humanos, políticos e sociais, apesar dos limites que fazem parte da história. Diante da "ordem burguesa", abrir propostas solidárias e éticas. Suscitar não apenas emoções, mas inquietações para estimular outras ações a serviço de uma causa humana, social e cultural justa.

Atualmente, a luta antirracista continua sofrendo exclusão. A celebração da "Consciência Negra" foi proibida, este ano, na Arquidiocese do Rio de Janeiro (falta de mística evangélica!). Que valor pode ter uma religião que esconde o Deus-Amor em lugar de mostrá-Lo?

No Brasil, atualmente, tem-se falado muito o nome de Deus. Os governantes proclamam: "O Brasil acima de tudo e Deus acima de todos". Qual Deus? O personagem Policarpo Quaresma questionava, no romance de Lima Barreto, "o tom divino" usado pelas autoridades em 1911. O problema não é novo. É de todos os tempos. Quem mais proclama o nome de Deus é quem tem menos direito de falar dele. A história guarda cenários para interpretar o tempo presente. A solidariedade não é apenas uma resposta a problemas individuais, mas a problemas sociais. A união dos seres humanos é o cimento da moral. No entanto, ainda, há alguns líderes que respeitam as diferenças e dialogam. A intolerância não é um problema somente político. É também religioso.

Nossa brasilidade é construída com cores e dores. O tema "Consciência Negra" é um convite à reflexão para um amplo debate na sociedade e, assim, continuar os enfrentamentos - avançando e abrindo caminhos de humanização. Não importa quão duro seja o presente, precisamos reinventar o futuro com sementes de coragem! Deve ser um círculo contínuo e sempre pontuado para a construção de outros cenários na "casa, na rua e no trabalho".


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