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A distopia da nudez


29/11/2020 04:00

Ricardo Fabrino Mendonça
Professor e outor do DCP/UFMG, pesquisador do CNPqe do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital

"O rei estou nu! ESTOU nu!" Não se cansa de gritar o imperador!

Invertendo a lógica do clássico conto dinamarquês, vivemos um tempo às avessas, em que não cabe à criança sincera da multidão a exposição do óbvio. É o próprio imperador que desfila sua nudez cultural, política, intelectual, física e moral diuturnamente.

O monarca não se vexa... jamais. Desdiz o dito; diz o não dizível; faz o impensável e só não pensa o factível, porque isso seria demandar demais de sua pessoa... O imperador humilha os de seu entorno, luta contra aliados, deslegitima as instituições de que depende, e mina até as chances de salvar seu povo para satisfazer sua sanha competitiva impotente. É um destemido incansável na arte do desgoverno: celebra a morte, ameaça gigantes, confraterniza no castelo com quem duela na praça e luta todos os dias pela liberdade de não ser livre.

Convicto, o brioso imperador desnudo ignora informações, conselhos e ponderações. Acredita ter chegado ao trono por um toque divino, não vendo sentido em confiar naquilo que não é místico. Ungido contra tudo e contra todos, interessa-lhe a guerra total e o caos. Desde que possa seguir nu. Disso não abre mão.

Certa vez, o monarca ouviu dizer de um herói que lutava contra moinhos de vento e mandou construir logo três só para que pudesse derrubá-los e provar sua superioridade. A turma encarregada da obra, que envolveu até mesmo os príncipes do reino, rachou os recursos necessários para a construção, e apenas um moinho pode ser erigido. Não chegava a ser um moinho robusto e vistoso, dados os problemas estruturais. Mesmo assim, o monarca desistiu da batalha para não melindrar a turma da empreitada. Arrancou somente uma das pás para não dar o braço a torcer, deu-se por satisfeito e deixou exposta a geringonça sem serventia como um monumento à incompetência do reino. O monarca se orgulha dos desserviços.

Sua força deriva da fraqueza; o respeito, da desvergonha; a lei, da contravenção. E ele segue sua marcha nua ordinária. Impune, defende que toda a nação se vista em trajes pudicos para dele se diferenciar. Fá-lo ciente da impossibilidade de que sua nudez provoque vergonha, indignação e vexação pública. Essa é sua astúcia; muito provavelmente, a única que lhe coube. O rei, que exclama e propala sua nudez aos sete ventos, sabe que, ao fim e ao cabo, revela a nudez coletiva de seu povo. Ele governa um povo sem roupa, que nunca conseguiu se orgulhar de sua nudez, mas que, cansado de sonhar com roupas garbosas, viu-se obrigado a se contentar (e a se identificar) com um peladão mágico.

O rei estou nu! E isso não surpreende ao povo, porque também estamos!


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