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Estado de Minas editorial

Até quando?

A negação do racismo é muro que tenta esconder a omissão do poder público diante dos corpos negros tombados pela violência


21/11/2020 04:00

Até quando a barbárie persistirá contra a população negra brasileira? Até quando policiais, seguranças, indivíduos brancos miscigenados vão agredir e matar crianças, adolescentes, mulheres e homens negros?
 
As autoridades se mantêm deitadas em berço esplêndido. Ignoram a realidade dos 56,7% da população que são pretos e pardos, vítimas da intolerância, do estupro, da letalidade policial, da indigência social, do desemprego, da fome e da miséria. No Brasil, vidas negras não importam. São imoladas diariamente.
 
João Alberto Silveira Freitas, negro, de 40 anos, foi espancado até a morte por dois seguranças do supermercado Carrefour, no bairro de Passo D’Areia, em Porto Alegre, Rio Grande Sul, na noite de quinta-feira, véspera do Dia Nacional da Consciência Negra — e pode-se acrescentar: da inconsciência do poder público.
 
Um dos seguranças é policial militar temporário. Enquanto João Alberto era espancado, uma mulher filmava a cena animalesca com serenidade. Estava passiva. Nem gesto nem palavra para interromper o brutal assassinato que ocorria diante de seus olhos. A cena de horror viralizou nas redes sociais.
O hediondo homicídio em solo gaúcho não decorreu da desigualdade socioeconômica ou do despreparo dos seguranças, como afirmou o vice-presidente Hamilton Mourão. Ele garante que não há racismo no Brasil e que “querem importar” esse tema dos Estados Unidos.
 
Não é preciso importar. O racismo estrutural está instalado desde o século 16 no Brasil. Esse crime inominável é recorrente, devido à leniência e ao descaso dos poderes da República — Executivo, Judiciário e Legislativo —, com a maior parcela da sociedade: os negros. Resulta da máxima predominante: vidas negras não importam.
 
As balas perdidas são encontradas em corpos negros, desde a infância até a fase adulta. Os homicídios de afrodescendentes crescem a cada ano. Na década de 2008 a 2018, entre os homens, o aumento dos assassinatos foi de 11,5%, enquanto os de não negros caíram 12%. Entre as mulheres negras, a alta no total de mortes violentas foi de 12,4%; no caso das não negras, houve queda de 11,7%.
 
A cada 21 minutos, um jovem negro é assassinado no país. Em 2018, 24.728 jovens foram mortos. No ano passado, 35.543 pessoas negras foram vítimas de homicídio. No país, negros e pardos têm 2,7 vezes mais chances de ser vítimas de homicídio. Pouco adianta recorrer às forças de segurança pública. Os negros somam 75,4% dos mortos pela polícia no Brasil.
 
A negação do racismo é muro que tenta esconder a omissão do poder público diante dos corpos negros tombados pela violência, a maioria deles por arma de fogo. É a rejeição velada — ou, muitas vezes, explícita — da inteligência e das virtudes de pretos e pardos pelo mercado de trabalho.
Negar a discriminação pela cor da pele é tentativa de fazer prevalecer a hipócrita democracia racial e anular a cidadania dos afrodescendentes, cuja contribuição ao desenvolvimento do país é desprezada pela visão eurocentrista ainda hoje do- minante. Assim, o Brasil se mantém com terra fértil para a necropolítica. Até quando?


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